Cuidado: ele morde! | Por Tarso Genro

A partir da ascensão de Abelardo de la Espriella à Presidência da Colômbia, Tarso Genro analisa a crise da democracia liberal, o capitalismo financeiro global e a emergência dos “monstros-palhaços” na política
Publicado em 17 de agosto de 2026 às 12:01
Editado em 17 de agosto de 2026 às 13:33

Podemos até desconfiar que o povo que o elegeu merece este megalômano psicopata e merece o que ele está fazendo como Presidente. Mas não merece.

Temos que compreender que este tipo humano sórdido é um fenômeno mundial que assola as democracias liberais ocidentais preenchidas, na sua plenitude, pelos valores da decadência do pior neoliberalismo: aquele turbinado pelo capitalismo financeiro global clandestino, marginal e criminoso.

Esta produção criminosa de capital está articulada com o sistema financeiro global na legalidade do Ocidente — e mais além do Ocidente —, cujos reflexos organizativos, materiais e de natureza moral estão presentes no Sistema Epstein de poder.

Nesse sistema se expõe a radicalização dos antivalores da desumanidade e da perversão, que se alimentam nas novas formas materiais — científico-tecnológicas — e imateriais de produzir bens mercantis e informacionais.

Mas ali se produzem também consciências, cada vez mais uniformes, vendáveis e compráveis, no mundo irreal e real da manipulação das redes.

As colisões de valores e os monstros do nosso tempo

Agnes Heller — discípula de Lukács — já explicitara uma nova possibilidade num livro originariamente publicado em 1970, O cotidiano e a História, no qual ela examina as “esferas heterogêneas”, que podem colidir na produção de valores.

Uma possibilidade — esta não necessariamente colidente — é a que ocorre na esfera material da produção do capitalismo industrial clássico, na qual são produzidos os bens materiais com agregação coletiva do valor nas fábricas modernas.

Nestas, a produção dos valores materiais se reflete na esfera imaterial da consciência social e política, vivida e negociada de maneira pública — nas ruas e nas praças — no capitalismo da democracia liberal “clássica”. Aqui, os valores materiais e morais em processo de produção não colidem de maneira radical, mas relativamente se harmonizam em espaços sociais visíveis.

Na Colômbia, quem está no poder é a marginalidade global do capital pirata, que responde ao grande irmão americano, controlador de ambos os fluxos do capital financeiro globalizado: os fluxos criminosos, “fora” da lei, e os fluxos legais, “dentro” da lei.

Diz Agnes Heller: “a explicitação dos valores produz-se, portanto, em esferas heterogêneas. Como dissemos, essas se desenvolvem de modo desigual” — uma vai para um sentido e a outra vai para outro sentido —, “mas a colisão entre esferas heterogêneas é apenas uma das contínuas colisões de valores que ocorrem na história”.

Nas colisões entre essas esferas — quando o sistema multipolar de poder pode chegar ao delírio da destruição da Humanidade — aparecem os monstros-palhaços e os palhaços-monstros. Abjetos e sinistros.

E já presentes em muitos países daquilo que o Presidente dos Estados Unidos quer declarar como quintal latino dos Estados Unidos da América do Norte.

Vencer com Lula no primeiro turno é reduzir aqui, no nosso país, que não se devota à guerra, mas à paz, este perigo do mal absoluto, já presente em toda a Humanidade.


Foto da capa: Abelardo de la Espriella adquirió su ciudadanía estadounidense en 2023 – Crédito: Instagram de Abelardo de la Espriella

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