As duas Copas da Vergonha | Por Benedito Tadeu César

A partir da repercussão nacional e internacional do artigo A Copa da Vergonha, o autor revisita a Copa do Mundo de 2014 e compara seus episódios mais traumáticos — a hostilidade dirigida à presidenta Dilma Rousseff na cerimônia de abertura e a histórica derrota da Seleção Brasileira por 7 a 1 para a Alemanha — com as controvérsias que cercam a Copa de 2026. O texto sustenta que, enquanto o Mundial realizado no Brasil representou uma vergonha de caráter nacional, a atual competição corre o risco de se transformar em uma vergonha de dimensão universal. Em contraponto, destaca o desempenho das seleções africanas e de outras equipes consideradas periféricas, como exemplos de que organização, identidade coletiva e espírito de equipe continuam capazes de desafiar as potências tradicionais do futebol mundial.
Última edição em junho 16, 2026, 09:11

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As duas Copas da vergonha - Imagem gerada por IA ChatGPT

Da hostilidade a Dilma Rousseff e do trauma do 7 a 1 em 2014 às denúncias de discriminação e exclusão que marcam a Copa de 2026, uma reflexão sobre futebol, democracia, poder e a surpreendente ascensão das seleções africanas.

A repercussão de A Copa da Vergonha foi além do que eu imaginava. Publicado pela Rede Estação Democracia (RED), GGN, Brasil 247, Brasil de Fato, Diálogos do Sul e Esquina Democrática, o artigo atravessou fronteiras e passou a circular em importantes meios internacionais, entre eles o The Mercury, o Cape Times, o portal Independent Online (IOL) e o agregador The African, da África do Sul.

O interesse despertado pelo texto me levou a acompanhar mais de perto as dimensões políticas desta Copa do Mundo. Ao longo da competição, pretendo publicar semanalmente novas reflexões sobre as relações entre futebol, poder, democracia, identidade nacional e geopolítica.

Chamou também a minha atenção o fato de o cientista político Aldo Fornazieri ter publicado, posteriormente, um artigo com o mesmo título, abordando o tema por outro ângulo.

Foi nesse contexto que um comentário de leitor me levou a uma nova reflexão. Ele observou que a verdadeira “Copa da Vergonha” teria sido a realizada no Brasil, em 2014. Concordo em grande medida com a observação, mas por razões um pouco diferentes das habitualmente lembradas.

Quando o estádio se transformou em palanque do ódio

A Copa de 2014 ficará associada para sempre a dois episódios que envergonharam o país diante do mundo.

O primeiro foi o espetáculo degradante protagonizado por parte do público presente à cerimônia de abertura, quando a presidenta da República, Dilma Rousseff, foi recebida por um coro de insultos transmitido ao vivo para centenas de milhões de espectadores em todo o planeta. Não se tratava de uma simples manifestação de oposição política. Em qualquer democracia, governantes podem e devem ser criticados. O que ocorreu naquele estádio foi algo diferente: uma demonstração explícita de ódio político e de desprezo pela legitimidade do voto popular.

Os ingressos para a abertura estavam entre os mais caros do torneio e eram acessíveis principalmente aos setores mais ricos da sociedade. Uma parcela daquela elite econômica aproveitou um dos momentos de maior visibilidade internacional do Brasil para humilhar publicamente uma presidenta eleita por mais de 54 milhões de brasileiros. Independentemente da avaliação que se faça de seu governo, Dilma Rousseff era uma governante comprometida com a ampliação de direitos sociais, com a inclusão das camadas populares e com um projeto de desenvolvimento nacional.

Havia ainda um elemento político adicional. A realização da Copa do Mundo no Brasil não foi obra do acaso. Ela resultou de uma estratégia de projeção internacional construída durante os governos Lula e concretizada durante o governo Dilma Rousseff. Para setores da oposição que já demonstravam crescente radicalização e que mais tarde convergiriam para posições de inspiração neofascista, era importante impedir que o evento se convertesse em um ativo político do PT ou de Lula. Nenhum legado positivo da Copa deveria prevalecer na percepção pública. A hostilidade dirigida à presidenta durante a abertura do torneio pode ser compreendida também como expressão dessa disputa simbólica.

Vista em retrospecto, aquela cena foi mais do que uma grosseria coletiva. Ela antecipava a radicalização política que se aprofundaria nos anos seguintes. Naquele estádio já estavam presentes elementos que mais tarde se tornariam centrais na ascensão da extrema direita brasileira: a desumanização do adversário político, a substituição do debate racional pelo ódio e a naturalização da agressividade como linguagem pública.

O 7 a 1 e as dúvidas que nunca desapareceram

O segundo episódio foi o traumático 7 a 1 imposto pela Alemanha à Seleção Brasileira. Mais do que uma derrota esportiva, tratou-se de um colapso nacional transmitido em escala planetária. Aquele placar continua sendo um dos maiores vexames da história do futebol.

Ao longo dos anos surgiram especulações sobre os bastidores da Seleção Brasileira daquele período, incluindo alegações de influência excessiva de patrocinadores e interesses comerciais sobre decisões que deveriam ser estritamente técnicas. Essas alegações jamais foram comprovadas de forma conclusiva. Ainda assim, sua persistência revela uma questão legítima: até que ponto o futebol de alto rendimento continua sendo conduzido por critérios esportivos e até que ponto está subordinado aos interesses econômicos que o cercam?

A pergunta permanece atual. Em diferentes momentos, convocações e escalações de jogadores parecem obedecer não apenas ao desempenho em campo, mas também à sua relevância comercial e midiática. O futebol moderno transformou-se em uma poderosa indústria global, e a tensão entre mérito esportivo e interesse financeiro está longe de ser uma questão resolvida.

Quando observados em conjunto, o coro de hostilidade dirigido à presidenta da República e a humilhação esportiva do 7 a 1 ajudam a explicar por que a Copa de 2014 deixou uma marca tão profunda na memória nacional. O torneio acabou simbolizando, ao mesmo tempo, uma crise política em gestação e uma crise de identidade do próprio futebol brasileiro.

De uma vergonha nacional a uma vergonha universal

Já a Copa de 2026 parece caminhar para outro tipo de vergonha. Antes mesmo de a bola rolar, acumularam-se denúncias de discriminação, restrições arbitrárias de entrada, dificuldades impostas a delegações e torcedores de determinados países e uma evidente instrumentalização política do torneio por parte do governo do principal país-sede.

Se a Copa de 2014 refletiu contradições da sociedade brasileira, a de 2026 expõe contradições de alcance global. O futebol se apresenta como uma linguagem universal, capaz de unir povos, culturas e nações. Mas a realização do torneio tem sido acompanhada por práticas que negam justamente esses valores.

Por isso, talvez a distinção mais adequada seja esta: a Copa de 2014 foi uma vergonha nacional. A de 2026 corre o risco de ser lembrada como uma vergonha universal.

Os improváveis entram em campo

Mas nem tudo tem sido motivo de desencanto nesta Copa.

A extraordinária estreia da Seleção de Cabo Verde talvez seja a melhor prova disso. Representando um arquipélago africano de cerca de 530 mil habitantes, a equipe enfrentou logo em sua primeira partida a poderosa Espanha, campeã mundial e atual campeã europeia, formada por atletas conhecidos globalmente e donos de salários milionários.

Contra todos os prognósticos, Cabo Verde arrancou um empate por 0 a 0. O goleiro Vozinha foi escolhido, com inteira justiça, o melhor jogador da partida. Mas seria injusto atribuir o resultado apenas a ele. O feito foi coletivo. Cada jogador cabo-verdiano pareceu disposto a correr um metro a mais, disputar uma bola a mais e fazer um esforço a mais em nome do conjunto.

Mas o resultado cabo-verdiano não foi um caso isolado. O Marrocos já havia empatado em 1 a 1 com a Seleção Brasileira, confirmando uma trajetória de crescimento técnico e tático que vem chamando a atenção desde a Copa do Catar. No dia 15 de junho, o Egito arrancou um empate por 1 a 1 diante da Bélgica, tradicional força do futebol europeu. A Arábia Saudita ficou no 1 a 1 com o Uruguai, bicampeão mundial e uma das seleções mais tradicionais do planeta. E, fechando a rodada de surpresas, a Nova Zelândia, apontada como uma das azarãs desta Copa, empatou em 2 a 2 com o Irã.

Os goleiros tiveram papel decisivo nesses resultados. Em Cabo Verde, Vozinha foi um dos símbolos da resistência da equipe africana. Já Mohammed Al Owais foi fundamental para o empate saudita diante do Uruguai. No segundo tempo, os uruguaios transformaram a partida em um verdadeiro ataque contra defesa, mas não conseguiram superar a combinação entre uma defesa extremamente bem organizada e a atuação inspirada de seu goleiro.

Foram desempenhos individuais brilhantes, mas que só podem ser compreendidos dentro de um esforço coletivo igualmente notável. Cabo Verde, Egito e Arábia Saudita demonstraram que resultados surpreendentes não surgem apenas de talentos isolados, mas de organização, disciplina tática, solidariedade entre os jogadores e enorme capacidade de concentração.

Quando os pequenos desafiam os grandes

Talvez uma das mensagens mais importantes desta Copa esteja justamente aí. Diferentemente do futebol de clubes, cada vez mais submetido à lógica do mercado, das grandes fortunas e da concentração de talentos em poucas equipes, as Copas do Mundo continuam sendo um espaço em que outros fatores conservam enorme importância. O sentimento de pertencimento nacional, a identidade coletiva, a organização tática, a solidariedade entre os jogadores e a capacidade de atuar como equipe muitas vezes se revelam tão ou mais decisivos do que o valor de mercado dos atletas.

A própria história das Copas mostra que o poder econômico não determina sozinho os resultados. O Uruguai foi campeão mundial em 1930 e 1950, apesar de sua pequena população. O Brasil, que mais tarde se tornaria o maior vencedor da história das Copas, com os títulos de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, conquistou seus primeiros campeonatos quando ainda estava longe do peso econômico internacional que alcançaria nas décadas seguintes. Nas Copas do Mundo, a força coletiva costuma pesar tanto quanto os recursos materiais.

Os resultados desta Copa parecem recolocar essa tradição em evidência. O empate do Marrocos diante do Brasil, a resistência do Egito contra a Bélgica, a organização de Cabo Verde diante da Espanha e a surpreendente atuação da Arábia Saudita contra o Uruguai lembram que o futebol entre seleções continua sendo um dos raros espaços da competição internacional em que a força coletiva pode equilibrar diferenças econômicas e estruturais aparentemente intransponíveis.

As seleções africanas, em particular, têm dado uma verdadeira aula de organização, empenho e crescimento técnico e tático. Cabo Verde, Marrocos e Egito demonstram que o talento está distribuído pelo mundo de forma muito mais ampla do que sugerem os centros tradicionais de poder esportivo. A elas somou-se a Arábia Saudita, representante de outra região frequentemente ausente do círculo das grandes potências futebolísticas. Nem sempre a fama, a visibilidade midiática ou o valor de mercado dos jogadores são suficientes para derrotar equipes movidas por disciplina, solidariedade e espírito coletivo.

Talvez esteja aí uma das explicações para as dificuldades enfrentadas pela própria Seleção Brasileira nas últimas Copas do Mundo. O Brasil continua produzindo alguns dos jogadores mais talentosos e valorizados do planeta, protagonistas dos maiores clubes e das mais lucrativas competições internacionais. Mas talento individual, por si só, nunca foi suficiente para conquistar Copas do Mundo. As equipes brasileiras que se tornaram campeãs entraram para a história não apenas pela qualidade técnica de seus craques, mas também pela capacidade de formar coletivos coesos, solidários e comprometidos com um projeto comum.

É possível que o futebol contemporâneo, ao transformar seus maiores astros em marcas globais e multimilionárias, tenha enfraquecido justamente alguns dos atributos que fizeram da Seleção Brasileira uma referência mundial durante décadas. Jogadores que já alcançaram fama, prestígio e segurança financeira antes mesmo de disputar uma Copa talvez não encontrem na camisa amarela o mesmo sentido de missão que mobilizou gerações anteriores.

Não se trata de questionar o patriotismo ou a dedicação desses atletas, mas de reconhecer que o sentimento de pertencimento, o espírito de sacrifício e a disposição de colocar o coletivo acima das ambições individuais parecem cada vez mais raros no futebol de elite. Talvez seja justamente a ausência desses atributos que ajude a explicar por que seleções compostas por estrelas mundialmente reconhecidas têm encontrado tantas dificuldades diante de equipes menos badaladas, mas mais organizadas e comprometidas com um objetivo comum.

Num mundo marcado por desigualdades crescentes, talvez essa seja a melhor lição que o futebol ainda pode oferecer. Se a Copa de 2026 tem exposto muitas das contradições do nosso tempo, ela também está revelando que os pequenos podem enfrentar os grandes e, às vezes, até superá-los. É uma lição que vale para o esporte — e talvez também para a vida política e social dos nossos tempos.


Ilustração da capa: As duas Copas da vergonha – Imagem gerada por IA ChatGPT.

Sobre o autor

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Benedito Tadeu César
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED - Rede Estação Democracia.

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