China: alternativa sistêmica ou nova heteronomia? | Por Bruno Mota

O artigo examina os impactos da crescente relação econômica entre Brasil e China sob a perspectiva da tradição desenvolvimentista. Embora o comércio bilateral tenha gerado superávits e fortalecido as contas externas brasileiras, também reforçou a especialização em commodities e a desindustrialização relativa. Com base em autores como Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares, Luiz Carlos Bresser-Pereira e Wilson Cano, o texto argumenta que a parceria com a China só contribuirá para o desenvolvimento nacional se estiver articulada a uma estratégia de reindustrialização, inovação tecnológica e fortalecimento da capacidade produtiva brasileira.
Última edição em junho 14, 2026, 03:34

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China: alternativa sistêmica ou nova heteronomia? O desafio da reindustrialização brasileira - Imagem gerada por IA ChatGPT

Reindustrialização brasileira, dependência e estratégia nacional

Relação comercial com a China amplia exportações brasileiras, mas também aprofunda a especialização em commodities. O desafio é transformar a parceria sino-brasileira em instrumento de reindustrialização, inovação tecnológica e autonomia produtiva.

A ascensão da China recolocou no centro do debate uma velha questão da economia política brasileira: como transformar vínculos externos em desenvolvimento interno? Para o Brasil, o comércio com o gigante asiático trouxe ganhos cambiais, superávits comerciais e algum alívio externo, mas também reforçou a especialização em commodities e a perda de densidade industrial, um dilema que a tradição desenvolvimentista já havia diagnosticado como expressão da dependência estrutural (FURTADO, 2007; TAVARES, 1972).

O problema, portanto, não é a China em si. O problema é a forma como o Brasil se insere nessa relação: exportando soja, minério de ferro e petróleo, enquanto importa máquinas, componentes e bens de maior conteúdo tecnológico. Sem política industrial, coordenação estatal e estratégia tecnológica, a parceria sino-brasileira tende a reproduzir heteronomia, e não autonomia produtiva (BRESSER-PEREIRA, 2014; BELLUZZO, 2013).

A nova centralidade chinesa

Em poucas décadas, a China se tornou a principal plataforma manufatureira do capitalismo global. Isso não ocorreu por “milagre de mercado”, mas por uma combinação de planejamento estatal, política industrial, crédito dirigido e expansão agressiva da capacidade produtiva. O resultado foi a construção de um parque industrial raro entre economias que chegaram tardiamente à modernização capitalista (CHANG, 2004; RODRIK, 2011).

No Brasil, a virada chinesa coincidiu com a intensificação da pauta exportadora primária. A partir dos anos 2000, o país passou a vender mais minério, soja, petróleo bruto e celulose, ao mesmo tempo em que importava mais manufaturas e insumos de maior complexidade. A relação bilateral se fortaleceu, mas em bases assimétricas, com ganhos comerciais de curto prazo e perdas estruturais de longo prazo (MDIC, 2025; UNCTAD, 2024).

Essa assimetria importa porque desenvolvimento não é apenas crescer. Desenvolvimento supõe mudança da estrutura produtiva, internalização do progresso técnico e ampliação da capacidade de decisão nacional. Quando o comércio reforça especializações regressivas, ele pode aumentar o faturamento externo sem ampliar a autonomia econômica.

Dependência e reprimarização

Celso Furtado é decisivo para entender esse impasse. Em sua leitura, o subdesenvolvimento não é uma etapa “atrasada” de um caminho linear, mas uma forma específica de inserção periférica no capitalismo mundial (FURTADO, 1961; FURTADO, 2007). Isso ajuda a interpretar a trajetória brasileira recente: a expansão das exportações para a China aliviou restrições externas, mas aprofundou a dependência de poucos produtos básicos.

A reprimarização não é um fenômeno neutro. Economias com forte peso de commodities tendem a apresentar menor difusão tecnológica, menor complexidade produtiva e maior vulnerabilidade às oscilações de preços internacionais. Além disso, a dependência de setores primários costuma pressionar a taxa de câmbio e reduzir a competitividade industrial doméstica, reforçando a chamada doença holandesa (BRESSER-PEREIRA, 2003; BRESSER-PEREIRA, 2014).

Maria da Conceição Tavares aprofundou esse diagnóstico ao mostrar que industrialização periférica e heterogeneidade estrutural caminham juntas. Mesmo quando há crescimento, ele pode coexistir com fragmentação produtiva, baixa produtividade e forte desigualdade entre setores modernos e setores atrasados (TAVARES, 1972). No caso brasileiro, a relação com a China atualizou esse padrão: exporta-se o que tem menor valor agregado e importa-se o que concentra conhecimento e tecnologia.

Estratégia nacional

A pergunta central não deveria ser se o Brasil deve ou não comerciar com a China. A pergunta relevante é outra: sob quais condições essa relação pode fortalecer capacidades internas? É aqui que o novo desenvolvimentismo oferece uma pista importante. Para Bresser-Pereira, desenvolvimento exige taxa de câmbio competitiva, investimento produtivo e política industrial consistente, em vez de mera confiança na alocação espontânea do mercado (BRESSER-PEREIRA, 2014).

A experiência chinesa mostra o oposto do receituário liberal periférico. O país combinou proteção estratégica, investimento público, planejamento industrial e captura ativa de tecnologia. Já o Brasil oscilou entre liberalização financeira, juros elevados, descontinuidade industrial e dependência de ciclos externos. Nessa comparação, a diferença não está apenas no comércio, mas na capacidade do Estado de organizar uma estratégia (RODRIK, 2011; CHANG, 2004).

Belluzzo ajuda a ver o quadro mais amplo: o capitalismo contemporâneo segue estruturado por hierarquias entre centros tecnológicos e periferias exportadoras (BELLUZZO, 2013). A ascensão chinesa não elimina essas assimetrias; ela apenas reposiciona os atores dentro delas. O desafio brasileiro é impedir que a integração com a China se limite à venda de primários e à compra de industrializados.

Dimensão regional

Wilson Cano é fundamental para introduzir a dimensão regional desse problema. A industrialização brasileira se concentrou historicamente no Centro-Sul, deixando vastas áreas do país em posição subordinada na divisão interna do trabalho (CANO, 2007). Isso significa que a dependência externa também é uma dependência territorial: não afeta todas as regiões do mesmo modo.

No caso do Nordeste, a questão ganha relevo especial. A transição energética, a expansão de cadeias ligadas à bioeconomia e a reindustrialização verde abrem oportunidades concretas, mas elas só serão virtuosas se vierem acompanhadas de encadeamentos produtivos, formação tecnológica e integração com o restante da economia nacional. Caso contrário, o risco é repetir o velho padrão de enclave: investimento moderno em território periférico, com baixo impacto sobre a estrutura produtiva local.

Essa é uma agenda especialmente relevante para quem pensa desenvolvimento regional. O Nordeste pode ser espaço de experimentação de uma nova industrialização, desde que o país abandone a lógica de exportar valor bruto e importar valor agregado.

Nova indústria

A Nova Indústria Brasil recoloca o Estado como coordenador estratégico do investimento produtivo, mobilizando instrumentos como BNDES, Finep e Embrapii. Em princípio, a iniciativa aponta para uma recuperação da capacidade de planejamento industrial, com prioridade para transição energética, saúde, digitalização, defesa e complexos tecnológicos mais sofisticados (MDIC, 2025).

O problema é que nenhuma política industrial funciona isoladamente. Sem coordenação macroeconômica, crédito direcionado, conteúdo local e continuidade institucional, programas desse tipo correm o risco de virar enunciado sem transformação estrutural. A política industrial só ganha densidade quando dialoga com taxa de câmbio, financiamento, inovação e compras públicas (BRESSER-PEREIRA, 2014; IPEA, 2025).

A relação com a China pode ser útil nesse processo, desde que subordinada a objetivos nacionais claros. Parcerias industriais, joint ventures e transferência tecnológica podem ajudar a reconstruir capacidades produtivas. Mas, sem esse enquadramento, a cooperação tende a reproduzir a dependência que diz combater.

Considerações finais

A China não é, por si só, uma alternativa sistêmica à dependência brasileira. Ela pode ser parceira estratégica, mas também pode reforçar padrões antigos de heteronomia econômica, agora sob uma nova geografia do capitalismo global. O resultado depende menos da potência asiática do que da capacidade do Brasil de formular sua própria estratégia de desenvolvimento (FURTADO, 2007; BRESSER-PEREIRA, 2014).

Se o país continuar exportando commodities e importando tecnologia, a relação bilateral seguirá sendo assimétrica. Se, ao contrário, conseguir articular política industrial, integração regional, transição energética e soberania produtiva, a parceria com a China poderá servir como alavanca de transformação.

O dilema é político antes de ser comercial. E talvez essa seja a lição mais importante: desenvolvimento não se improvisa na balança comercial; ele se constrói na disputa pelo comando da estrutura produtiva.

Referências

BELLUZZO, Luiz Gonzaga. O capital e suas metamorfoses. São Paulo: Unesp, 2013.

BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Desenvolvimento e crise no Brasil. São Paulo: Editora 34, 2003.

BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. A construção política do Brasil. São Paulo: Editora 34, 2014.

CANO, Wilson. Desequilíbrios regionais e concentração industrial no Brasil. Campinas: Unicamp, 2007.

CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada. São Paulo: Unesp, 2004.

FURTADO, Celso. Desenvolvimento e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007.

IPEA. Indicadores de estrutura produtiva brasileira. Brasília, 2025.

MDIC. ComexStat. Brasília, 2025.

RODRIK, Dani. The globalization paradox. New York: Norton, 2011.

TAVARES, Maria da Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.

UNCTAD. Trade and Development Report. Geneva: United Nations, 2024.


Ilustração da capa: China: alternativa sistêmica ou nova heteronomia? O desafio da reindustrialização brasileira – Imagem gerada por IA ChatGPT.

Sobre o autor

Bruno Mota 1
Bruno Mota
Bruno Mota é Economista; Conselheiro do Corecon-Ba; Mestre e doutorando em desenvolvimento regional e urbano. Criador do Projeto que se transformou na Lei 9838/2025 - Educação Financeira nas Escolas Municipais de Salvador-Ba.

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