Aconteceu na Cidade do México: sai Colombo, entra justiça | Por Emerson Giumbelli

A disputa em torno do antigo monumento a Cristóvão Colombo na Cidade do México revela como memória, identidade, gênero e poder seguem moldando os símbolos que ocupam os espaços públicos.
Última edição em maio 29, 2026, 06:11

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Quem já visitou a capital do México, deve ter passado pelo Paseo de la Reforma. É uma longa avenida, que liga a região central ao bosque de Chapultepec, onde se localiza o famoso Museu de Antropologia. É nessa avenida que fica o Anjo da Independência, monumento que é um dos ícones da cidade.

O Paseo de la Reforma foi construído na segunda metade do século XIX. É entremeado por pequenas rótulas, em uma das quais foi instalado, em 1877, um monumento que retrata Cristóvão Colombo acompanhado por quatro religiosos católicos. As esculturas foram projetadas por um escultor francês e fundidas na Europa.

Colombo e seus acompanhantes ali ficaram até 2020. Lembremos que naquele ano houve uma onda de debates e protestos contra monumentos que homenageavam pessoas ou eventos contestados. Começou com monumentos em referência aos Confederados nos EUA e expandiu-se para obras que consagravam figuras vinculadas ao escravismo. Não demorou muito para os questionamentos atingirem o símbolo das violências coloniais europeias.

Nesse contexto, na Cidade do México houve uma campanha, “Lo vamos a derribar”: “Diversas organizações convocaram nas redes sociais à derrubada da estátua de Cristóvão Colombo […] como forma de protesto contra os processos racistas e colonialistas ainda presentes nas narrativas oficiais sobre eventos que representam uma dívida histórica para com os povos indígenas do país.” O ato estava agendado, não por acaso, para o dia 12 de outubro.

Dois dias antes, no entanto, as autoridades municipais retiraram o conjunto de estátuas, deixando vazio o pedestal. De acordo com declarações oficiais, as estátuas passariam por um procedimento de limpeza e restauração. Mas nunca voltaram para o seu lugar original. Após a sub-prefeitura de uma das regiões da cidade ter recusado recebê-las para sua instalação em uma praça, em 2023 foram enviadas para o Museo Nacional del Virreinato, nas imediações da capital.

Bem antes disso, desde setembro de 2021, outra escultura já habitava o pedestal que antes sustentava a estátua de Colombo. Intitulada “Antimonumenta – Justicia”, é uma silhueta pintada de lilás de uma figura feminina com um dos braços levantados.

Emerson Giumbelli, 2026

A iniciativa, que ocorreu a despeito de autorizações oficiais, foi de um coletivo feminista que se apresenta como “Las Mujeres Que Luchan”. Alguns dias depois da instalação de “Justiça”, os tapumes que cercavam o pedestal serviram de mural preenchido com o nome de mulheres desaparecidas, perseguidas ou assassinadas.

Entre 2021 e 2026, várias atividades, organizadas pelo coletivo “As Mulheres que Lutam”, vêm gerando artefatos que povoam a rótula onde estava o monumento de Colombo. A tônica geral é de denúncias contra violências de gênero e de promoção de memórias sobre tais violências, mas também sobre resistências e ativismos. No último 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a passeata que ocorreu na capital mexicana teve como ponto final a rótula.

Quem percorre a avenida por qualquer dos lados nas proximidades dessa rótula vai notar estátuas que retratam figuras masculinas. A maioria representa lideranças políticas de distintas regiões mexicanas. Várias dessas estátuas estão com seu pedestal marcado por inscrições com símbolos de lutas feministas e alguns portam pañuelos verdes e lilases.

Em março 2022, a escultura foi substituída por outra com o mesmo desenho, mas feita em aço (a “Justiça” original era uma peça de madeira). Há um forte contraste entre a estátua delgada e o pesado pedestal. Mas agora a rótula antes totalmente dedicada ao monumento é preenchida pelos artefatos produzidos em atividades coletivas.

Mas essa não é toda a história

Emerson Giumbelli, 2026

Como foi mencionado acima, a instalação de “Justiça” não foi precedida de uma autorização oficial. Na verdade, as autoridades municipais tinham outros planos para o pedestal que servira de suporte para a estátua de Colombo. No início de setembro de 2021 foi anunciado que a obra de um artista representando a figura de uma mulher indígena tomaria o lugar de Colombo. A proposta, no entanto, não havia tramitado no Comitê de Monumentos e Obras Artísticas em Espaços Públicos.

A instalação de “Justiça” foi uma resposta a esse anúncio das autoridades municipais. O coletivo feminista “As Mulheres que Lutam” alegou que tampouco foi consultado. Além disso, questionou, juntamente com outras entidades e personalidades, que a nova escultura tivesse como autor um homem não indígena.

Diante das reações, pouco depois, em outubro de 2021, as autoridades divulgaram que outra escultura teria sido aprovada pelo Comitê acima mencionado para ser instalada no lugar. Seria uma réplica aumentada da peça batizada como “La Joven de Amajac”.

A escultura de pedra havia sido descoberta por agricultores em janeiro daquele ano no estado de Veracruz. Avaliações arqueológicas apontam que se trata da representação de uma mulher da classe governante da cultura huasteca, elaborada entre os séculos XV e XVI.

Essa solução também não foi aceita pelo coletivo feminista. Em outubro de 2022, havia uma preocupação pelo risco de “Justiça” ser retirada pelas autoridades. Em março de 2023, o coletivo, com o apoio da Anistia Internacional, divulgou uma carta aberta na qual, além de reiterar a pauta de protestos a violências de gênero, solicitava que a rótula fosse oficialmente renomeada para “Glorieta da las Mujeres que Luchan” e que a escultura com a figura feminina fosse mantida.

Em junho de 2023, as autoridades municipais declararam que aceitariam a permanência de “Justiça” e que a “Jovem de Amajac” seria instalada nas proximidades. Ou seja, as duas esculturas conviveriam no mesmo espaço, separadas apenas pelo asfalto da avenida. Em julho daquele ano, a nova escultura foi instalada em um canteiro a poucos metros da rótula. Uma placa assim a apresenta: “em reconhecimento à luta das mulheres indígenas do México”.

Essa história tem um detalhe interessante: até 2023, a Chefia do Governo da Cidade do México, a principal autoridade municipal, era exercida por Claudia Sheinbaum. Em outubro de 2024 ela assumiria a Presidência da República. Coube a Sheinbaum administrar, inclusive politicamente, a situação do lugar que até 2020 abrigava o monumento a Cristóvão Colombo. Ela teve tempo de inaugurar um projeto em que foi protagonista, o Paseo de las Heroínas, um conjunto de esculturas femininas instalado ao longo de outro trecho do Paseo de la Reforma.

É impossível saber se o lugar que até 2020 abrigava o monumento a Colombo não passará por outras modificações. E é provável que a história tenha circunstâncias, até mesmo versões, que não foram aqui relatadas. A situação merece uma pesquisa aprofundada, ainda que esteja longe de ser um caso único. Mesmo com essas ressalvas, é fácil ceder ao impulso: feliz a nação em que são mulheres que disputam como devem ser representadas.


Foto de capa: Cuartoscuro, 2021

Sobre o autor

Emerson Giumbelli
Professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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