Futebol, o rico esporte do povo | Por Edelberto Behs

A transformação do futebol em espetáculo bilionário afastou o esporte das arquibancadas populares e aproximou-o cada vez mais da lógica do mercado.
Última edição em maio 26, 2026, 04:54

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Em alguns dias começa a Copa do Mundo de Futebol 2026. Grande expectativa gerou a convocação do técnico da Seleção canarinho, Carlo Ancelotti. Virou tema nacional, até de pesquisa de opinião, se Ancelotti devesse ou não convocar o cai-cai Neymar, do Santos, que, inclusive, está lesionado. Nessa questão de vida ou de morte para as pretensões brasileiras, os posicionamentos se dividiram entre os que defenderam a convocação e os que a deploraram.

O anúncio dos 26 atletas que embarcarão para a América do Norte foi uma festa. A convocação em si foi precedida, no Museu do Amanhã, no Rio, por apresentações musicais e falas institucionais que deixaram assistentes, entre eles jornalistas de 13 países, impacientes. Com toda certeza, nenhuma outra seleção foi convocada com tal pompa. A bola da Seleção brasileira está pequena, tanto que não empolga a torcida que no passado, a essa época, pintava praças e ruas de verde e amarelo. Que se brilhe então de outra maneira.

Quando uma seleção nacional precisa contratar técnico estrangeiro, porque os nacionais não são bons que chega, já está dado um sinal de alerta. Se não é o treinador de seleção mais caro dessa Copa, certamente está entre os três primeiros, com um salário de cerca de 5,35 milhões por mês (9,5 milhões de euros por ano), mais um adicional de 5 milhões de euros se vencer a Copa, segundo a revista Lance.

Um operário de salário-mínimo tem que trabalhar 330 anos para receber a mesada do Ancelotti! Ele ganha por dia cerca de 178 mil reais. O presidente da República vai ter que reunir quatro meses de rendimentos para empatar com o salário diário de Ancelotti. Se for visto na perspectiva anual, o ganho de Ancelotti será de 64,2 milhões. Muita empresa de porte médio a grande não chega a esse faturamento.

Daí vêm os otimistas de toda hora anunciar, com a boca cheia, “olha, esse aí é o esporte do povo e por isso precisa ser valorizado!” E o esporte do povo chega a contratar jogadores por 2 milhões, 3 milhões de reais por mês! Para trazer alegria ao povo!!!

Nessa cantilena embarca muita gente, consciente ou inconscientemente, desde dirigentes esportivos, empresários, diretorias de clubes, jornalistas, vendedores diversos, flanelinhas… Futebol já foi, uma vez, o esporte do povo, em que o povo podia se deslocar num domingo, assistir a partida do seu time num estádio. Bons tempos em que das peladas em campinhos improvisados surgiam craques bons de bola que jogavam, primeiro, pela camiseta do clube.

Hoje, a camiseta é a conta bancária, bancada por clubes que estão endividados, dando um péssimo exemplo de economia responsável. Eles não têm cacife para bancar contratações milionárias. A dívida total dos 20 clubes que disputaram o Campeonato Brasileiro em 2025 atingiu 16 bilhões de reais no final do ano. O Corinthians é o time mais endividado do país, com um passivo de 2,44 bilhões de reais, seguido do Atlético de Minas, com 2,29 bilhões, vindo a seguir o Botafogo, com 1,57 bilhão. O Inter fica em sexto lugar nessa classificação, com um passivo de 929,2 milhões de reais, e o Grêmio em décimo primeiro lugar, com 778,4 milhões de reais. O levantamento é da empresa especializada Sports Value.

Outro levantamento, da EY, indica que o endividamento tributário no ano passado atingiu 4,5 bilhões de reais, enquanto as dívidas com empréstimos chegaram a 3 bilhões de reais. Peça a um torcedor de arquibancada para debulhar esses números, escrevê-los em extenso, para ver se ele se dá conta do tamanho da conta! Mas, viva o esporte do povo, que agora está em sua festa maior, onde um ingresso para a final da Copa, nos Estados Unidos, vai a custos estratosféricos.

Se você quiser assistir a estreia do Brasil contra o Marrocos, no dia 13 de junho, no Estádio MetLife, em East Rutherford, tem que dispender um mínimo de 6,9 mil reais, e uma cadeira mais central requer a bagatela de 192,2 mil reais. Ao povo torcedor o lugar é a poltrona em frente à TV.


Foto de capa: Rafael Ribeiro/CBF

Sobre o autor

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Edelberto Behs
Jornalista, Coordenador do Curso de Jornalismo da Unisinos durante o período de 2003 a 2020. Foi editor assistente de Geral no Diário do Sul, de Porto Alegre, assessor de imprensa da IECLB, assessor de imprensa do Consulado Geral da República Federal da Alemanha, em Porto Alegre, e editor do serviço em português da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC).

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