Da Redação*
Setores da ABIN e do Itamaraty acompanham tentativa de aproximação com a Casa Branca e avaliam possível impacto político sobre a eleição presidencial de 2026.
A movimentação do senador Flávio Bolsonaro para tentar uma reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a ser monitorada com atenção por integrantes da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) e do Itamaraty. A avaliação em setores do governo brasileiro é de que, dependendo do formato do encontro e do tratamento dado pela Casa Branca, a agenda poderia ser interpretada como sinal de interferência externa no cenário eleitoral brasileiro.
A preocupação ganhou força após reportagem da Reuters informar que Flávio busca uma reunião com Trump em Washington na próxima semana. Segundo a agência, interlocutores ligados ao tema afirmaram que o senador tenta construir uma aproximação em meio ao desgaste político provocado pelas revelações sobre sua relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o financiamento do filme “Dark Horse”.
No Palácio do Planalto, auxiliares do governo afirmam que os movimentos do bolsonarismo junto à gestão norte-americana passaram a ser acompanhados com mais atenção. Entre os nomes observados está o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, visto por integrantes do governo brasileiro como próximo da extrema direita latino-americana.
Receio de impacto eleitoral
Reservadamente, integrantes do governo avaliam que o episódio ultrapassou o campo da pré-campanha eleitoral e passou a envolver preocupações ligadas à soberania institucional brasileira. No entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, existe o entendimento de que tentativas de influência internacional sobre o ambiente político brasileiro não podem ser descartadas no atual contexto.
Diplomatas ouvidos pela reportagem afirmam que o principal ponto de preocupação não seria necessariamente a reunião em si, mas a forma como ela poderia ocorrer. Uma eventual fotografia oficial na Casa Branca, declarações públicas de apoio político ou qualquer gesto interpretado como chancela eleitoral internacional são vistos como fatores potencialmente delicados.
Segundo interlocutores do Itamaraty, encontros entre lideranças estrangeiras e pré-candidatos fazem parte da dinâmica política internacional. O problema surgiria caso a agenda passasse a ser utilizada como instrumento de pressão política interna ou tentativa de influência sobre a disputa presidencial brasileira.
Relatórios da ABIN ampliam alerta
Nos bastidores da ABIN, o episódio também é associado a alertas anteriores produzidos pela própria agência. Em relatório divulgado no fim do ano passado, a inteligência brasileira apontou riscos relacionados à interferência estrangeira no debate público, ao uso político de redes digitais e à disseminação coordenada de desinformação.
De acordo com servidores ouvidos reservadamente, a articulação envolvendo Flávio Bolsonaro passou a ser tratada como tema sensível justamente por ocorrer em um ambiente considerado vulnerável pela inteligência brasileira. Mesmo enfrentando limitações orçamentárias, integrantes da agência avaliam que os desdobramentos precisarão ser acompanhados para medir possíveis impactos políticos e institucionais.
Durante conversa com jornalistas na quinta-feira (21), Flávio Bolsonaro negou ter solicitado uma reunião com Trump. Em resposta aos questionamentos, afirmou em inglês que “ninguém pediu nada” e disse que informações sobre a agenda deveriam ser buscadas diretamente junto à Casa Branca.
Até o momento, o governo norte-americano não confirmou oficialmente a realização do encontro.
* Redator: Solon Saldanha
Ilustração: Flávio Bolsonaro e Donald Trump. Charge criada com IA




