Da Redação*
Uma investigação exclusiva conduzida pelo repórter Giovani Grizotti, exibida pelo programa Fantástico, revelou um esquema de descarte irregular de milhares de livros didáticos em perfeito estado de conservação no interior de São Paulo. As obras, que deveriam ser distribuídas a estudantes da rede pública, foram desviadas de seu propósito pedagógico e vendidas como papel para reciclagem, terminando o ciclo de desperdício em uma fábrica de papel higiênico e papel-toalha. O caso, que expõe uma falha gravíssima na gestão de recursos educacionais, já está sob a mira das autoridades de fiscalização e controle.
Flagrante de desperdício em depósitos de reciclagem
A reportagem acompanhou o trajeto de caminhões carregados com toneladas de material impresso que, à primeira vista, pareciam ser resíduos de papel comum. No entanto, ao analisar a carga, a equipe de investigação identificou livros didáticos lacrados, muitos deles pertencentes ao Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). Eram exemplares novos, atualizados e prontos para o uso em sala de aula, abrangendo disciplinas fundamentais do ensino fundamental e médio.
O material foi rastreado até depósitos de aparas de papel, onde o quilo do papel de alta qualidade era comercializado por valores irrisórios em comparação ao custo de produção e aquisição pelo Poder Público. Nesses locais, as obras eram trituradas para remover as capas e descaracterizar o material, antes de serem enviadas para o processamento industrial. O destino final identificado pela investigação foi uma indústria de celulose que transforma a fibra do papel em produtos de higiene pessoal, como papel higiênico.
Falhas na cadeia de custódia e gestão educacional
O descarte desses livros representa não apenas um prejuízo financeiro direto aos cofres públicos — estimado em milhões de reais —, mas também um dano educacional irreparável às comunidades que deveriam ser beneficiadas. A investigação aponta que a fragilidade no controle dos estoques em depósitos municipais e estaduais facilita o desvio do material. Em muitos casos, os livros permanecem armazenados até que se tornem “obsoletos” por falta de distribuição ágil, servindo de pretexto para o descarte como “papel velho”.
Especialistas em gestão pública ouvidos após a exibição da matéria ressaltam que o sistema de rastreabilidade dos livros didáticos possui lacunas críticas. Uma vez que o governo federal entrega os lotes às administrações locais, o monitoramento do destino final de cada exemplar torna-se escasso. O Ministério Público já iniciou diligências para identificar quais prefeituras ou órgãos regionais de ensino foram responsáveis pela saída irregular desses lotes específicos identificados pela reportagem de Grizotti.
Reações oficiais e desdobramentos jurídicos
A repercussão da matéria gerou manifestações imediatas de órgãos de controle, como o Tribunal de Contas do Estado (TCE). Inspetores devem realizar auditorias extraordinárias nos almoxarifados de educação para conferir o inventário físico contra as notas de recebimento. As empresas de reciclagem e a fábrica citadas na investigação também poderão ser notificadas a prestar esclarecimentos sobre a origem das notas fiscais do material adquirido.
O crime de peculato ou improbidade administrativa está no centro das investigações, caso se confirme que servidores públicos facilitaram ou lucraram com a venda do patrimônio da educação para fins de reciclagem industrial. Enquanto o processo avança, o episódio serve como um duro alerta sobre a necessidade de digitalização e transparência total na logística de insumos escolares no Brasil, evitando que o conhecimento financiado pelos impostos da população termine de forma degradante em fardos de papel sanitário.
* Redator: Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Livros didáticos desviados. Crédito: reprodução de O Globo




