A Pedalada de Campos Neto em Abu Dhabi | Por Luís Nassif

A transferência da holding do Nubank para Abu Dhabi expõe a articulação internacional construída por Roberto Campos Neto após deixar o Banco Central — conectando paraísos fiscais, relações políticas, regulação financeira e a maior controvérsia sobre porta giratória já registrada no sistema financeiro brasileiro.
Última edição em maio 11, 2026, 12:05

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Nubank em Abu Dhabi - Reprodução

Como Campos Neto usou a rede que construiu no Banco Central para viabilizar a migração do Nubank das Ilhas Cayman para os Emirados Árabes — e o que isso revela sobre a maior porta giratória da história financeira brasileira

Os Emirados Árabes se tornaram o ponto de encontro de todo o universo bolsonarista. No contexto das investigações que envolvem o clã Bolsonaro, o ecossistema Master e operadores financeiros ligados ao crime organizado, o país exerce uma função estrutural: é o ponto de convergência entre capital ilícito em fuga, investimento soberano com apetite por ativos subavaliados e proteção política a operadores que precisam de jurisdições opacas.

Os Emirados Árabes Unidos, embora rejeitem oficialmente o rótulo de paraíso fiscal, oferecem ausência de imposto de renda para pessoas físicas, inexistência de tributação sobre herança ou ganho de capital, facilidade para abertura de empresas e contas bancárias e possibilidade de residência de longo prazo sem vínculo empregatício.
O emirado foi incluído em lista internacional de observação por falhas no combate à lavagem de dinheiro em 2022 e, apesar de avanços recentes, especialistas apontam que o sistema ainda oferece brechas para ocultação patrimonial e evasão fiscal.

Esse modelo não é acidental.

Dubai foi projetado como polo de atração de capitais globais sem excessivo escrutínio sobre sua origem — o que o torna, na prática, uma plataforma de circulação de riqueza que, quando cruzada com investigações de fraude, invariavelmente aparece como pano de fundo.

A visita de Campos Neto a Abu Dabi

No dia 7 de abril de 2026, a Agência de Notícias dos Emirados Árabes (WAM) publicou uma nota protocolar: o Príncipe Herdeiro de Abu Dhabi, Xeique Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, havia se reunido com David Vélez, fundador e CEO do Nubank, para discutir oportunidades de investimento nos Emirados.
O comunicado registrava, entre os presentes, Roberto Campos Neto, Vice-Chairman e Chefe Global de Políticas Públicas do Nubank. O resultado: o banco confirmaria sua nova sede global no Abu Dhabi Global Market (ADGM).

Para o noticiário financeiro internacional, foi mais um movimento da expansão global do maior neobank da América Latina.
Para quem acompanha de perto a trajetória de Campos Neto desde o Banco Central, a cena foi outra: a culminação de uma arquitetura de relacionamentos construída ao longo de seis anos no comando da autoridade monetária brasileira — e agora colocada inteiramente a serviço de uma empresa privada com sede em paraíso fiscal.

A engrenagem

Campos Neto chegou ao Nubank em julho de 2025, após cumprir os seis meses de quarentena determinados pela legislação brasileira.
Seu cargo — Vice-Chairman e Chefe Global de Políticas Públicas — descrevia com precisão a função: abrir portas regulatórias que o banco, sozinho, não conseguiria abrir.

No Brasil, a rede que construiu durante a presidência do Banco Central alcança desde o senador Ciro Nogueira até o governador Tarcísio de Freitas. Frequentemente convidado ao Palácio dos Bandeirantes para assistir a jogos do campeonato brasileiro, Campos Neto mantém com Tarcísio uma proximidade que transcende o protocolo institucional — foi a ele que o governador desabafou, com um palavrão, ao saber que Flávio Bolsonaro se lançara candidato à presidência.
A relação com Ciro Nogueira, por sua vez, ajuda a explicar a facilidade com que o BC permitiu a venda do Banco Master a Daniel Vorcaro, cuja reputação — inclusive junto às autoridades policiais — já era conhecida.

Mas a rede não se limita ao círculo bolsonarista.
Ela se estende aos Estados Unidos de forma pessoal e familiar. A esposa de Campos Neto mantém proximidade com a mulher do senador republicano Marco Rubio — os filhos frequentam o mesmo bootcamp nas férias.
Um dos membros do conselho do Nubank nos EUA é irmão de um senador republicano de Ohio. O cônsul americano Kevin Murakami convida Campos Neto regularmente para jantares e almoços.

Não apenas isso. Campos Neto é uma personalidade essencialmente ideológica, que mantém relações estreitas com a ultradireita do continente, incluindo Milei, na Argentina, Nayib Bukele, em El Salvador, Santiago Peña, presidente do Paraguai, e os Bolsonaro no Brasil, além de Marco Rubio.

Essa rede produziu resultados concretos. Em janeiro de 2026, o Nubank recebeu aprovação condicional para uma licença bancária nacional nos Estados Unidos — tornando-se o primeiro grande banco digital nascido na América Latina a obter autorização para operar no mercado americano.
Sem Campos Neto, segundo fontes próximas às negociações, a operação não teria saído do papel. Mais do que isso: Campos Neto conseguiu colocar um ex-membro do OCC — o Office of the Comptroller of the Currency, principal regulador bancário americano — no conselho do banco.

A extensão dessa influência ficou clara em novembro de 2025. Enquanto o governo Haddad não conseguia estabelecer contato com Washington no pico da crise diplomática gerada pelas tarifas impostas por Trump, Campos Neto se reunia com Scott Bessent — o secretário do Tesouro americano — na mesma semana.

Das Ilhas Cayman a Abu Dhabi

A mudança de sede para o Abu Dhabi Global Market não é um simples movimento de expansão geográfica. A Nu Holdings, holding controladora do Nubank, está domiciliada nas Ilhas Cayman — jurisdição amplamente reconhecida como paraíso fiscal.
A transferência para Abu Dhabi obedece a uma lógica de pedalada fiscal: as vantagens tributárias dos Emirados, combinadas com o prestígio regulatório do ADGM, oferecem ao banco uma plataforma politicamente mais palatável que a atual — sem abrir mão do essencial.

O ADGM é um centro financeiro offshore dentro de Abu Dhabi, com jurisdição própria baseada na lei inglesa, regulação independente e tributação zero sobre lucros corporativos.
Para o Nubank, significa manter a arquitetura fiscal de holding offshore enquanto ganha um endereço mais respeitável — e acesso direto aos fluxos de capital do Golfo Pérsico, da Ásia Central e dos mercados africanos em expansão.

É nesse contexto que a reunião de 7 de abril com o Príncipe Herdeiro — onde Campos Neto estava sentado à mesa — ganha seu verdadeiro significado. Não foi uma visita comercial ordinária.
Foi o ex-presidente do Banco Central do Brasil abrindo, em nome de uma empresa privada, o mesmo tipo de canal diplomático que conduzia em nome do Estado brasileiro.

Não é irrelevante o contexto emiradense.
O Xeique Khaled é membro da família Al Nahyan, cuja rede de relacionamentos com o Brasil foi construída nos anos Bolsonaro — incluindo a aquisição da Refinaria de Mataripe (antiga Landulpho Alves), na Bahia, pelo fundo Mubadala, e a promessa de investimentos bilionários em Angra dos Reis, através de seu irmão Tahnoun.
O episódio das joias apreendidas na Receita Federal, oriundas de Abu Dhabi, fez parte do mesmo período.

A porta giratória em rotação máxima

O caso Campos Neto-Nubank foi descrito pelo movimento sindical dos servidores do Banco Central como “o mais escandaloso caso de porta giratória da história do Brasil”.
A acusação tem fundamento estrutural.

Durante sua gestão na autoridade monetária, Campos Neto foi o arquiteto de políticas que beneficiaram diretamente as fintechs brasileiras: o Pix, o Open Finance, a regulamentação do mercado de criptoativos, o Drex.
O Nubank foi um dos maiores beneficiários dessas políticas — e o contratou imediatamente após o fim da quarentena.

Mas o problema não se esgota na questão ética. Há dimensões mais concretas.
O próprio anúncio da contratação foi formalizado a partir de Grand Cayman — território offshore, domicílio da Nu Holdings.
O banco que ele regulou opera a partir de um paraíso fiscal.
O ex-regulador trabalha para essa empresa. E agora usa contatos institucionais construídos com dinheiro público, em nome do Estado brasileiro, para viabilizar a migração da holding para outro paraíso fiscal com melhor marketing.

O acordo enterrado

Em paralelo, corre na Justiça um processo que revela outra faceta da gestão de Campos Neto.
Após deixar o Banco Central, ele firmou um acordo sigiloso com a instituição, no qual pagou R$ 300 mil de multa sem reconhecer formalmente as infrações que motivaram a penalidade.

O acordo foi publicado brevemente no portal do Banco Central — e em seguida removido.
Um link que chegou às mãos de jornalistas e foi divulgado resultou em ação judicial movida por Campos Neto contra o divulgador.
Na primeira audiência, o ex-presidente do BC sequer compareceu.

O que o acordo contém, e por que foi retirado do portal público da autarquia, são perguntas que o processo judicial — e a imprensa — ainda precisam responder.

A crise que o mercado ainda não viu

Por trás da expansão internacional, há uma realidade interna que o Nubank cuida para não vazar.
A saída do CTO em julho de 2025 — por discordâncias com David Vélez sobre a obsessão com inteligência artificial — desencadeou uma sangria de talentos técnicos que ainda não terminou.

O retorno obrigatório ao escritório, anunciado em novembro de 2025, afetou desproporcionalmente engenheiros contratados durante o boom do trabalho remoto em cidades fora de São Paulo.
Profissionais casados com servidores públicos, instalados em outras regiões, simplesmente pediram demissão. O resultado: em um único mês, três dos seis diretores-gerais de engenharia do banco — metade da liderança técnica — saíram. A Chief Communications Officer também deixou o cargo.

O Nubank é, em sua essência, um banco de tecnologia. Uma crise na engenharia não é um problema de RH — é um risco operacional.

Há outros sinais de alerta.
Nos últimos tempos, o banco expandiu sua carteira aceitando clientes recusados por outras instituições — um perfil de risco que, em condições de estresse, pode se mostrar mais oneroso do que o crescimento justifica.

E há a aposta americana.
O Nubank instalou-se nos Estados Unidos pretendendo repetir, junto às comunidades latinas, o modelo brasileiro de crédito com margens elevadas.
O problema é que o ambiente regulatório americano pode não comportar essa estratégia: em janeiro de 2026, Donald Trump anunciou ofensiva para estabelecer um teto de 10% nos juros do cartão de crédito.
Em fevereiro de 2025, os senadores Bernie Sanders e Josh Hawley — numa aliança incomum entre esquerda e direita — já haviam apresentado proposta para limitar os juros do cartão a 10% por cinco anos. A taxa média americana era de 22,3% ao ano em novembro de 2025. Se o teto for aprovado, o modelo de negócio do Nubank nos EUA precisará ser inteiramente reconfigurado.

Coda

Na reunião de 7 de abril em Abu Dhabi, enquanto o Príncipe Herdeiro e David Vélez discutiam a nova sede global do Nubank, Roberto Campos Neto estava sentado à mesa. Era o arquiteto da operação — o homem que abriu os contatos nos Emirados, que articulou a licença americana, que colocou reguladores nos conselhos do banco.

Ele construiu essa rede enquanto presidia o Banco Central do Brasil. Agora ela rende dividendos para uma empresa privada domiciliada em paraíso fiscal — que está de saída para outro paraíso fiscal com melhor reputação.

O Brasil pagou pela construção. O Nubank colhe os frutos. E o Estado brasileiro, que deveria zelar pela integridade dessas fronteiras, ainda não encontrou os instrumentos para impedir que a rotação continue.


Foto da capa: Nubank em Abu Dhabi – Reprodução

Sobre o autor

Luis Nassif
Luis Nassif
Luís Nassif é jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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