José Dirceu defende Lula critica juros altos e alerta contra ataques ao Congresso

Em entrevista ao Meio ex-ministro afirma que transformar o Congresso em “inimigo do povo” é perigoso, defende reforma política, critica a pejotização e comenta o caso Master e a Lava Jato.
Última edição em maio 9, 2026, 10:40
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Ex-ministro José Dirceu na capa do portal Meio - Print da capa do site do Meio.

Da REDAÇÃO

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu afirmou que considera perigosa a ideia de transformar o Congresso Nacional em “inimigo do povo” e defendeu uma ampla reorganização política do país em entrevista publicada neste sábado, 9 de maio, pelo Meio. A conversa foi conduzida pela jornalista Flávia Tavares na edição especial de sábado do veículo. O resumo da entrevista publicado pela RED foi elaborado com auxílio do ChatGPT.

Aos 80 anos, Dirceu fez uma extensa análise sobre os rumos do PT, a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a crise de representação política, o avanço da direita, o caso Master e os desafios da esquerda diante do que chamou de profundo “mal-estar” da sociedade brasileira.

“Da ideia de que o Congresso é inimigo do povo eu tenho medo, porque tem muita gente que gostaria de fechar o Congresso e governar o Brasil sem ele”, declarou.

“O PT também mudou”

Dirceu rejeitou a avaliação de que o PT perdeu capacidade de renovação ou conexão com os mais jovens.

“O mundo e o Brasil mudaram. O PT também mudou”, afirmou.

Segundo ele, o partido vem passando por transformações internas importantes.

“Já vem mudando, porque em 2024, nas eleições municipais, nós elegemos um conjunto de jovens, em diferentes capitais e cidades do Brasil, como vereadoras e vereadores.”

Ele destacou políticas de inclusão e diversidade dentro da legenda.

“O partido há 12 anos fez paridade de gênero e começou uma política de cotas para incentivar a participação dos negros e negras, dos povos indígenas, de toda a comunidade LGBT.”

Também citou a pauta trabalhista como elemento de aproximação com a juventude.

“O exemplo mais claro é a luta pelo fim da escala 6×1, que mais de 70% dos brasileiros apoiam.”

Aplicativos CLT e direitos trabalhistas

Um dos trechos mais longos da entrevista foi dedicado aos trabalhadores de aplicativo, terceirização e precarização do trabalho.

Dirceu afirmou que existe uma falsa ideia de que trabalhadores informais rejeitam direitos trabalhistas.

“No Brasil, está se vendendo uma ideia de que uma parcela importante dos trabalhadores não aceita a CLT.”

Ele citou o próprio genro, motoboy, como referência para entender a realidade da categoria.

“Posso falar desse assunto, porque tenho um genro que é motoboy.”

Dirceu comparou o momento atual às terceirizações iniciadas nos anos 1980.

“Quando cheguei à Assembleia Legislativa como funcionário em 1981 começou aquele processo selvagem de terceirização.”

Segundo ele, trabalhadores de aplicativo inevitavelmente passarão a reivindicar proteção social.

“Não há precedente histórico de que uma categoria de trabalhadores aceite trabalhar em péssimas condições com baixos salários, horários de 12, 14 horas e que não começa a lutar.”

Ele afirmou ainda que as reivindicações atuais já refletem princípios previstos na CLT.

“No fundo, o quilômetro rodado é um piso salarial. O descanso semanal, o adicional noturno, o que eles estão reivindicando é o que está na CLT.”

Ao comentar a pejotização, foi direto:

“A pejotização é uma espécie de fraude.”

E acrescentou:

“Depois vem a gritaria de que a previdência dá déficit. Mas a previdência dá déficit no mundo todo. Agora, sem previdência, nós teríamos milhões de idosos nas ruas.”

Lula segue como principal nome da esquerda

Dirceu afirmou que Lula continua sendo o único nome capaz de liderar o campo progressista em 2026.

“Não apareceu um sucessor nem no campo da esquerda nem no da direita.”

Ele argumentou que Lula ainda reúne condições políticas superiores às demais lideranças.

“O presidente Lula, do ponto de vista de qualidade e de viabilidade, de possibilidade histórica, tem mais condições de governar o Brasil.”

Dirceu também minimizou a tese de desgaste definitivo do PT.

“Nem acho que haja fadiga de material.”

Segundo ele, a insatisfação social existe, mas decorre de limites estruturais do governo no Congresso.

“A explicação é que a insatisfação é real, nós reconhecemos. Ela tem razão de ser porque não conseguimos dar resposta para problemas importantes, porque não temos maioria no Congresso.”

Críticas ao bolsonarismo e à direita

Ao comentar o cenário eleitoral, Dirceu afirmou que o bolsonarismo representa um projeto liberal radical.

“Que projeto Bolsonaro está apresentando para o país? Privatizar o Banco do Brasil, Caixa Econômica, a Petrobras, o BNDES.”

Ele também criticou o alinhamento internacional da família Bolsonaro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“Eles apoiam abertamente a política do presidente Trump, inclusive com relação ao Brasil, ao tarifaço.”

Dirceu disse que a eleição de 2026 precisará confrontar diretamente os projetos de país em disputa.

“O cidadão vai ter de tomar decisões.”

“Mal-estar” social e juros altos

Dirceu afirmou que o Brasil enfrenta uma crise social profunda agravada pelos juros elevados e pela concentração de renda.

“Por que essa insatisfação? Por que esse mal-estar na sociedade brasileira?”

Segundo ele, parte importante da população vive sob insegurança econômica constante.

“A geração que tem entre 25 e 35 anos está vivendo a crise climática, o risco de uma guerra real.”

Ele criticou duramente a política de juros.

“Como é que o Brasil pode ter taxa de 15% quando os próprios bancos sabem que 8%, 9% estaria excelente?”

E afirmou:

“A dívida pública está entrando em crise por causa dos juros, não por causa do déficit público.”

Dirceu também defendeu mudanças profundas na estrutura tributária.

“Quem tem de pagar não paga e quem não tem que pagar paga.”

Segurança pública e autocrítica

O ex-ministro reconheceu erros históricos da esquerda na área de segurança pública.

“Nós erramos. Há 10, 15, 20 anos, devíamos ter criado o Ministério do Interior de Segurança Pública.”

Ao mesmo tempo, criticou propostas defendidas por setores conservadores.

“A proposta do Caiado é matar.”

Segundo Dirceu, experiências internacionais mostram que políticas puramente repressivas fracassaram.

“A experiência histórica já provou que em lugar nenhum do mundo isso funcionou.”

Ele defendeu uma reformulação ampla das forças de segurança.

“Queremos reestruturar as polícias, reformar os sindicatos e mudar totalmente a concepção de segurança pública no Brasil.”

Frente ampla e críticas ao governo

Dirceu também rebateu críticas de que o governo Lula abandonou a frente ampla.

“Em 15 estados nós estamos apoiando candidatos de centro-direita.”

Segundo ele, o governo cumpriu compromissos assumidos com setores moderados.

“Garantimos a liberdade. Qual era o maior medo das classes médias que entraram na frente ampla? A ditadura.”

Ele reconheceu, porém, problemas de diálogo político.

“Pode haver um sentimento de que não houve diálogo. Isso, sim, eu reconheço.”

“Congresso inimigo do povo é perigoso”

Dirceu voltou ao tema central da entrevista ao comentar a deterioração da relação entre os Poderes.

“Essa coisa de ‘Congresso inimigo do povo’ é perigosa.”

Ele reconheceu práticas problemáticas no Legislativo.

“Tem o lado ‘dark’ do Congresso, vamos dizer, com emendas impositivas, fisiologismo, denúncias de uso indevido ou de desvio de recursos.”

Mas argumentou que o Parlamento também aprovou medidas importantes.

“O Congresso aprovou a reforma do IVA, o Plano Nacional de Educação.”

E insistiu:

“Nunca, na minha vida parlamentar, eu questionei um deputado porque ele é de direita.”

Para Dirceu, a divergência política não pode significar deslegitimação democrática.

“Eu posso não concordar com a proposta dele, mas não deslegitimar. Isso não é democracia.”

Política externa e guerras

Dirceu defendeu a política externa do governo Lula sobre Ucrânia e Oriente Médio.

“A política externa do presidente Lula seguiu a tradição da política externa e da Constituição brasileira.”

Sobre a guerra na Ucrânia:

“Nós condenamos a invasão da Ucrânia. Nós temos que condenar.”

Mas acrescentou:

“Temos que fazer justiça às razões que a Rússia tem, apesar de que não podemos concordar com a guerra.”

Em relação a Israel e Palestina:

“O Brasil sempre reconheceu o direito de Israel existir.”

E completou:

“Nós reconhecemos também o Estado Palestino.”

Caso Master e corrupção

Dirceu afirmou que o caso Master não possui ligação com o PT ou com a esquerda.

“Não tem nenhuma sustentação factual, nem indícios de que o escândalo Master tenha ligação com a esquerda.”

Segundo ele, o caso envolve falhas graves de fiscalização.

“Agora se vai desvendando um escândalo que envolve a CVM, o Banco Central e o próprio mercado financeiro.”

Ele também criticou os juros cobrados no crédito consignado.

“Cobrar 50% de juro de um trabalhador, um aposentado, com inflação de 4,5%? É um verdadeiro roubo.”

Ao comentar corrupção como tema eleitoral, afirmou:

“Se o Brasil transformar o debate político eleitoral de 26 na corrupção, o país está perdido.”

Lava Jato e prisão

Na reta final da entrevista, Dirceu voltou a dizer que foi condenado injustamente no mensalão.

“Eu era inocente e não há nenhuma prova de que eu tinha participação.”

Apesar disso, afirmou que cumpriu integralmente a pena e respeitou as instituições.

“Eu fui condenado, cumpri a pena, não fugi do país.”

Ele também criticou duramente a Lava Jato.

“Foi um sistema de perseguição atroz, violento e que não poupou nada.”

Dirceu afirmou que jamais adotou postura de revanche política.

“Nunca alguém me viu com espírito de vingança.”

A íntegra da entrevista está disponível no streaming do Meio.


Ilustração da capa: Ex-ministro José Dirceu na capa do portal Meio – Print da capa do site do Meio.

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