“A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos”, obra recente de Vladimir Safatle, reativou um debate que atravessa a experiência brasileira há décadas, ainda que frequentemente suavizado por acomodações institucionais frágeis. A formação social do país, marcada pela violência estrutural e pela longa duração da escravidão, conservou disposições autoritárias que jamais foram plenamente superadas. Por algum tempo, tais disposições permaneceram parcialmente encobertas; no entanto, transformações recentes no cenário político conferiram-lhes maior visibilidade. As jornadas de 2013, seguidas pelo golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, contribuíram para desorganizar um equilíbrio já instável, permitindo que esse fundo histórico se manifestasse com mais nitidez no cotidiano político. Nesse contexto, o fascismo deixa de remeter a experiências distantes e passa a designar uma possibilidade efetiva inscrita no presente brasileiro.
A interpretação proposta por Safatle opera um deslocamento relevante. Em vez de tratar o fascismo como uma anomalia externa às democracias liberais, ele o compreende como possibilidade interna às suas próprias formas de organização. Essa mudança de perspectiva impede a separação confortável entre democracia e autoritarismo, ao evidenciar que liberdades formais podem coexistir com padrões persistentes de violência social. Ao mesmo tempo, essa formulação suscita uma questão importante: se tal possibilidade está presente na estrutura, por que sua atualização não ocorre de modo uniforme? Entre a potencialidade e sua realização histórica, intervêm conflitos, disputas e decisões que não se deixam reduzir a um único princípio explicativo.
É nesse terreno que a articulação entre filosofia e psicanálise ganha força. Safatle identifica um processo de banalização da morte e de consolidação da indiferença, particularmente visível durante a pandemia. Longe de constituir uma ruptura, esse período ampliou a exposição de dinâmicas já existentes. Aquilo que historicamente caracterizou territórios marcados pela exclusão — onde a democracia se apresenta de forma precária — tornou-se mais evidente e, em certa medida, mais disseminado. Ainda assim, a diversidade das respostas sociais impede generalizações apressadas. Ao lado da indiferença, multiplicaram-se práticas de solidariedade e formas de organização coletiva que introduzem tensões nesse quadro e demonstram que a violência não se instala sem resistência.
Essa complexidade torna ainda mais significativa a recusa, presente em certos círculos acadêmicos, de nomear tais processos como fascismo. Evitar a nomeação preserva a imagem de uma democracia concebida como essencialmente estável, ainda que sujeita a crises. Ao confrontar essa leitura, Safatle sustenta que estamos diante da explicitação de um traço persistente. Ainda assim, permanece um problema teórico relevante: a ampliação do conceito compromete sua capacidade de distinção? A questão exige cautela, não para negar o diagnóstico, mas para assegurar o uso rigoroso da categoria.
A reflexão se adensa quando incorporamos a contribuição de Clara Mattei, que desloca a análise para o campo econômico. Em “A ordem do capital”, a autora demonstra como o neoliberalismo e o fascismo podem se articular por meio da austeridade, entendida não apenas como técnica de gestão, mas como instrumento político de contenção social. A redução do gasto público, a restrição de direitos e o enfraquecimento das formas de organização coletiva não apenas reorganizam a economia; também comprimem o horizonte de expectativas sociais. No entreguerras europeu, tal dinâmica contribuiu para a ascensão de regimes autoritários. No presente, reaparece sob formas menos explícitas, frequentemente envoltas em linguagem técnica, mas com efeitos igualmente profundos.
A passagem de um regime de disciplina econômica para formas mais abertas de coerção não ocorre de maneira automática, mas tampouco é inteiramente contingente. Quando os mecanismos de austeridade deixam de produzir os efeitos esperados, intensificam-se práticas de controle mais diretas. A proximidade entre neoliberalismo e fascismo torna-se, então, mais perceptível, ainda que não se trate de uma equivalência simples. Ambos convergem na preservação da ordem do capital, embora mobilizem formas distintas de mediação e graus variados de violência. O fascismo pode, assim, ser compreendido como radicalização de tendências já operantes, dependente, porém, de conjunturas específicas.
No Brasil, o ciclo político iniciado após 2016 oferece um campo privilegiado para observar essa dinâmica. A implementação de políticas de austeridade, como o teto de gastos durante o governo Michel Temer, produziu efeitos duradouros ao restringir investimentos públicos e limitar direitos. Esses efeitos não se esgotam no plano econômico. Ao fragilizar redes de proteção social e estreitar horizontes de expectativa, favorecem a difusão de ressentimentos e ampliam a receptividade a saídas autoritárias. Ainda assim, não há relação linear entre precarização e autoritarismo; diferentes desfechos permanecem possíveis, conforme as mediações políticas disponíveis.
O governo de Jair Bolsonaro aprofundou esse processo ao combinar a continuidade da agenda econômica com a adoção de práticas políticas marcadamente autoritárias. Medidas como a extinção do Ministério do Trabalho, o esvaziamento do Cadastro Único e a dissolução do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional ilustram um movimento que, ao mesmo tempo, intensifica a austeridade e debilita mecanismos de proteção social.
A partir daí, a experiência brasileira deixa de apenas sugerir uma possibilidade e passa a apresentar formas concretas de sua realização. Sua singularidade reside na articulação entre um programa econômico restritivo e uma prática política que legitima a violência. A disciplina fiscal convive com a desqualificação de instituições democráticas e com a naturalização do sofrimento social, instaurando um cenário no qual as vidas são implicitamente hierarquizadas.
Essa lógica não se restringe às estruturas estatais. Ela alcança as disposições subjetivas e reconfigura modos de percepção e julgamento. Segmentos da população passam a admitir a desigualdade como exigência da ordem e a repressão como resposta legítima. Essa adesão, contudo, não se constitui de maneira passiva; forma-se em meio a experiências concretas de insegurança e frustração, nas quais diferentes saídas continuam em disputa.
Outros agrupamentos, como o Movimento Brasil Livre e o partido NOVO, situam-se nesse mesmo horizonte, ainda que por vias distintas. No primeiro, a defesa de reformas ultraliberais associa-se a uma retórica de confronto contra movimentos sociais. No segundo, predomina a apresentação de propostas como soluções técnicas, supostamente neutras. Em ambos os casos, a austeridade se afirma como princípio organizador, seja por meio do embate direto, seja pela naturalização de escolhas que produzem exclusão.
A especificidade do bolsonarismo reside na intensidade dessa articulação. Nele, a violência deixa de ser um efeito colateral e passa a integrar explicitamente a linguagem política. A promessa de ordem assume contornos punitivos, dirigidos àqueles percebidos como excedentes ou ameaçadores, em sintonia com uma formação social historicamente marcada pela tolerância à eliminação de parcelas significativas da população.
A relação entre fascismo e bolsonarismo, portanto, não se sustenta em analogias superficiais. Trata-se de uma articulação situada, na qual a austeridade fornece base econômica, enquanto a violência atua como meio de efetivação. Essa convergência não constitui um destino inevitável; resulta de processos contingentes e permanece aberta a reconfigurações.
Compreender esse quadro exige abandonar classificações rígidas e reconhecer que o fascismo assume feições distintas conforme as condições históricas em que se desenvolve. No Brasil contemporâneo, o bolsonarismo constitui uma dessas formas específicas, marcada pela convergência entre um programa econômico restritivo e práticas políticas que tensionam os limites da institucionalidade democrática. Essa combinação não apenas afeta o funcionamento das instituições, mas também incide sobre os modos de percepção, julgamento e pertencimento social.
Essa constatação desloca o foco da análise. A descrição dos fenômenos, por si só, mostra-se insuficiente diante da complexidade do processo. Torna-se necessário investigar as condições que favorecem sua emergência, os interesses que o sustentam e as formas de adesão que o tornam socialmente eficaz. Em períodos eleitorais, essa exigência se intensifica, pois o voto deixa de ser um gesto isolado e passa a integrar uma dinâmica mais ampla de disputa por direção política e por definição de horizontes coletivos.
É nesse terreno que os projetos em disputa no pleito de outubro se delineiam com maior precisão. A candidatura de Lula não se limita à reedição de políticas conhecidas, tampouco se restringe a um rearranjo administrativo de superfície. Trata-se da mobilização de uma concepção de vida coletiva orientada pela ampliação de direitos, pela reconstrução de políticas públicas e pela revalorização de mecanismos institucionais de proteção social. Seu alcance inclui, ainda, a tentativa — inevitavelmente tensionada — de recompor vínculos fragilizados e reinscrever no espaço público a noção de responsabilidade compartilhada diante da desigualdade. Ao fazê-lo, busca restituir densidade à democracia ao reafirmar sua dimensão social.
Em sentido oposto, o campo autoritário, embora não homogêneo, articula vetores que convergem na defesa de uma ordem social mais restritiva e excludente. A austeridade econômica figura como princípio organizador, associada à redução de direitos e ao enfraquecimento de instâncias coletivas de mediação. Paralelamente, observa-se a legitimação de práticas políticas que desqualificam o dissenso, naturalizam a desigualdade e admitem a coerção como instrumento ordinário de governo — frequentemente sob a racionalização de uma suposta eficiência. A adesão a uma lógica necropolítica, nesse contexto, não se apresenta como desvio, mas como componente funcional de uma determinada forma de gestão social. Ainda que perturbador, esse conjunto de dispositivos de desumanização foi amplamente mobilizado durante o governo Bolsonaro, sem suscitar reações públicas proporcionais à sua gravidade, inclusive no plano midiático.
Importa notar, por fim, que esse campo não se esgota em lideranças específicas. Ele se sustenta em redes sociais, econômicas e institucionais que lhe asseguram continuidade e capacidade de adaptação.
A força dessa articulação reside, em parte, em sua capacidade de se enraizar em experiências concretas de insegurança e desamparo, oferecendo respostas simplificadas para problemas complexos. Ao fazê-lo, desloca o conflito social para registros que favorecem a polarização punitiva e a identificação de inimigos internos, ao mesmo tempo em que preserva estruturas econômicas concentradoras.
Nada, contudo, se apresenta como desfecho inevitável. O resultado dessa disputa dependerá da capacidade de sustentar, no interior do conflito político, alternativas que não apenas resistam à naturalização da violência, mas que também sejam capazes de reconstruir expectativas coletivas e formas de pertencimento social menos excludentes.
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