Por Solon Saldanha*
O avanço de tecnologias generativas permite a criação de “eleitores sintéticos” e a microsegmentação de mensagens, enquanto tribunais e candidatos tentam definir os limites éticos e legais do novo cenário eleitoral.
As eleições de 2026 marcam um ponto de ruptura na comunicação política brasileira com a integração profunda da Inteligência Artificial (IA) no cotidiano das candidaturas. O que antes levava dias de produção técnica agora é resolvido em poucas horas, permitindo que marqueteiros de diferentes espectros ideológicos — de aliados do presidente Lula a nomes ligados ao clã Bolsonaro — testem discursos e peças publicitárias com uma agilidade sem precedentes. O fenômeno, que vem sendo chamado de “terremoto tecnológico”, está alterando desde a análise de dados até a própria concepção do comportamento do eleitorado.
Eleitores sintéticos e o fim das pesquisas tradicionais
Uma das inovações mais impactantes deste pleito é o surgimento dos “eleitores sintéticos”. Através de ferramentas como as da SVA Solutions–Galaxies, campanhas estão substituindo as custosas pesquisas qualitativas tradicionais por modelos de IA treinados com dados reais de grupos específicos. Esses perfis virtuais simulam reações de segmentos como “centristas desiludidos” ou “conservadores moderados”, permitindo que as equipes testem a eficácia de um ataque ou de uma proposta em segundos.
Além da economia financeira — uma assinatura de software pode custar menos da metade de uma rodada de entrevistas presenciais —, a tecnologia oferece o chamado “social listening” em tempo real. Durante embates públicos, como o recente confronto entre o pré-candidato Romeu Zema e o Supremo Tribunal Federal (STF), equipes de marketing levaram apenas cinco segundos para mapear as teses-chave e sugerir respostas personalizadas para cada perfil de seguidor.
Nanosegmentação e a personalização do discurso
A eficiência operacional também atingiu os bastidores da criação. Campanhas majoritárias agora utilizam estruturas robustas, algumas com mais de 50 profissionais focados exclusivamente em impulsionamento com nanosegmentação. O objetivo é a customização extrema: uma mesma mensagem do candidato pode ser editada em dezenas de versões para atingir, por exemplo, mulheres de uma região específica que compartilham preocupações idênticas sobre saúde ou segurança.
Ferramentas de IA também são alimentadas com o histórico completo dos candidatos — discursos, entrevistas e posicionamentos antigos — para garantir que a “persona” digital mantenha o tom de voz correto. Isso permite que os estrategistas gerem briefings automáticos para vídeos onde o político pode transitar entre um tom mais sério ou agressivo, dependendo da reação monitorada nas redes sociais. Locutores humanos e bancos de imagens tradicionais vêm sendo amplamente substituídos por versões geradas sinteticamente, reduzindo o tempo de edição de quatro dias para apenas algumas horas.
O cerco jurídico e o fantasma dos deepfakes
Apesar do entusiasmo técnico, o cenário é de insegurança jurídica. Embora a resolução do TSE de 2024 proíba terminantemente os deepfakes — vídeos e áudios que emulam a imagem e a voz de figuras públicas sem autorização —, persiste uma “zona cinzenta” sobre o uso de conteúdos manipulados de forma positiva. Alguns juristas defendem que, desde que haja um aviso claro ao eleitor, o uso de IA para customizar saudações ou melhorar a qualidade técnica não fere a norma. Outros especialistas, porém, alertam que qualquer alteração sintética pode ser interpretada como uma violação da paridade de armas no pleito.
O trauma das eleições argentinas de 2023, onde vídeos falsos de candidatos viralizaram nas semanas finais, serve de alerta para o tribunal brasileiro. A legislação atual exige que qualquer conteúdo manipulado seja rotulado e proíbe terminantemente o uso de IA nas 72 horas que antecedem a votação. O desafio das autoridades agora é rastrear a origem de ataques disparados por contas não oficiais, que utilizam a agilidade da inteligência artificial para disseminar desinformação em escala industrial antes que qualquer medida judicial consiga ser efetivada.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Ilustração da capa gerada por Inteligência Artificial




