Por Solon Saldanha *
Investimento do governo catarinense em instituições que concederam títulos de “honoris causa” a Jorginho Mello (PL) supera o orçamento da merenda escolar em 2026.
O governo de Santa Catarina destinou R$ 890 milhões em recursos públicos a quatro universidades particulares que concederam títulos de “honoris causa” ao governador Jorginho Mello desde o início de sua gestão, em 2023. Uma quinta honraria partiu da associação que congrega essas instituições, presidida sucessivamente pelos dois secretários de Educação do atual mandato.
A homenagem mais recente ocorreu na Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), no início de 2026. A instituição recebeu R$ 422 milhões do Estado desde 2023. Durante a cerimônia, vídeos institucionais do governo foram exibidos e dirigentes da fundação mantenedora destacaram a redução da inadimplência graças aos repasses públicos.
Concentração de verbas e avaliações críticas
A Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina (Unesc), cuja reitora licenciada, Luciane Ceretta, ocupa atualmente a Secretaria de Educação, também homenageou o governador e recebeu R$ 316 milhões. Outra agraciada, a Universidade do Contestado (UnC), obteve nota mínima no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) logo após a entrega do título. Mesmo com o desempenho crítico, a UnC recebeu R$ 74,2 milhões, sendo que o curso de Medicina em Mafra deve absorver R$ 16,2 milhões apenas neste primeiro semestre.
No setor privado, o Centro Universitário Unifacvest, em Lages, elevou seus recebimentos de R$ 13,4 milhões em 2023 para R$ 25,6 milhões em 2026, totalizando R$ 76,4 milhões após homenagear o chefe do executivo.
Os valores destinados a este grupo de instituições representam o dobro do previsto para a alimentação escolar de toda a educação básica catarinense em 2026. Se somados todos os repasses do programa Universidade Gratuita para as instituições ligadas à Associação das Universidades Comunitárias (Acafe) — que também premiou o governador —, o montante ultrapassa R$ 3 bilhões, cifra superior ao orçamento total da gestão do Ensino Fundamental para este ano.
Recentemente, o governo catarinense também tentou extinguir a obrigatoriedade de cotas sociais e raciais nas instituições, medida que gerou debates sobre o acesso democrático ao ensino superior financiado pelo Estado. Uma lei estadual chegou a ser aprovada e sancionada para permitir a “flexibilização” das cotas, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a legislação, declarando-a inconstitucional.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Jorginho Mello homenageado na Unoesc. Crédito: Imprensa Unoesc




