EUA e o modelo neoliberal de desenvolvimento: da ilusão de prosperidade ao avanço da desigualdade e das fragilidades estruturais

Última edição em abril 25, 2026, 04:16

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A economia dos Estados Unidos, nas últimas quatro décadas, tem sido objeto de intenso debate académico e político em torno da ideia do seu declínio. A partir do final da década de 1980, consolida-se no mainstream económico e político o paradigma neoliberal. Caracterizado pela desregulação dos mercados, pela financeirização da economia, pela flexibilização das relações laborais e pela redução do Estado enquanto agente redistributivo e regulador, este modelo institucional tinha como propósito gerar “ganhos” em termos de “eficiência de mercado” e promover a expansão do setor financeiro.

Nessa dinâmica, as fragilidades não podem ser interpretadas como meras disfunções conjunturais, mas sim como resultados endógenos de um modelo de acumulação que promoveu, e continua a promover, a concentração progressiva de riqueza e poder económico nas elites, sobretudo entre os rentistas. A combinação entre globalização produtiva, desindustrialização e a expansão dos mercados financeiros contribuiu para deslocar o centro dinâmico da economia norte-americana da produção material para a valorização e para a formação de bolhas em ativos financeiros, imobiliários e tecnológicos, reforçando processos de financeirização e a predominância de uma economia fictícia sobre a economia real

Embora os EUA continue a ocupar uma posição central no sistema económico internacional, diversos indicadores sociais, fiscais e produtivos sugerem a existência de tensões estruturais consideráveis que desafiam a sustentabilidade do modelo neoliberal de desenvolvimento. Essas tensões manifestam-se em múltiplas dimensões interligadas, incluindo o aumento significativo da desigualdade de riqueza, a persistência de níveis relevantes de pobreza para um país de alta renda, a crise habitacional em grandes centros urbanos e o crescimento contínuo da dívida pública e privada. Incluem ainda a ineficiência do sistema de saúde, a manutenção de défices comerciais crónicos e o endividamento das famílias, especialmente por meio de empréstimos estudantis. Dito de outro modo, trata-se de um modelo económico de recomposição visivelmente desigual, na qual os custos sociais se tornam progressivamente mais visíveis e difíceis de compatibilizar com o sonho da narrativa clássica de prosperidade generalizada.

Uma das características atuais mais marcantes desse modelo é o nível sem precedentes de concentração de riqueza. Dados do Federal Reserve (2026) indicam que os 50% mais ricos da população detêm aproximadamente 97,5% da riqueza total do país, enquanto a metade mais pobre concentra apenas 2,5%. Essa desigualdade reflete uma tendência de longo prazo, intensificada a partir da década de 1980. No topo da pirâmide, o grupo dos 0,1% mais ricos ampliou significativamente sua participação na riqueza nacional, atingindo níveis recordes. Tal dinâmica confirma as teses de Piketty (2014), segundo as quais, em economias capitalistas maduras, a acumulação de capital tende a se concentrar quando não há mecanismos redistributivos eficazes promovidos pelo Estado.

A desigualdade elevada da renda não é uma simples questão distributiva, mas também um problema macroeconômico e institucional. A concentração excessiva de renda compromete a demanda agregada, reduz a mobilidade social e enfraquece a coesão democrática e social (Stiglitz,2012). Paralelamente, a crise habitacional emerge nesse contexto como um dos sintomas mais visíveis das desigualdades. Em 2024, o número de pessoas em situação de rua atingiu um recorde histórico, ultrapassando 770 mil indivíduos. Esse aumento está diretamente relacionado com a elevação dos custos de habitação, que cresceram mais de 30% na última década, e com a insuficiência de políticas públicas voltadas para a habitação acessível. Grandes centros urbanos como Los Angeles e San Francisco tornaram-se emblemáticos dessa crise, comprovando o descompasso entre o dinamismo econômico e a capacidade de inclusão social. A financeirização do mercado imobiliário, aliada a restrições regulatórias e à especulação, contribui para essa exclusão de parcelas crescentes da população do acesso à moradia.

No plano internacional, a perda relativa de participação dos EUA na economia global reforça a percepção de declínio. A parcela do PIB mundial detida pelo país caiu significativamente desde 1980, refletindo o crescimento acelerado de economias emergentes. No mercado internacional, o déficit comercial se constitui desde a década de 1970, o que reflete uma combinação de elevada demanda interna, desindustrialização relativa e integração às cadeias globais de valor. Embora esse déficit seja parcialmente compensado pela capacidade do país de atrair investimentos estrangeiros, ele também evidencia uma dependência estrutural de financiamento externo e perda de competitividade em vários setores industriais, principalmente, para os países asiáticos, em especial, a China. A economia chinesa já supera a norte-americana em termos de paridade de poder de compra, indicando uma redistribuição do poder econômico global (FMI, 2026). Esse processo sinaliza, de forma clara, uma transição para uma ordem internacional mais multipolar, na qual a hegemonia americana é progressivamente desconfigurada.

Internamente, a persistência de níveis elevados de pobreza reforça a ideia de fragilidade estrutural. Apesar de sua elevada renda per capita, os EUA apresentam indicadores de pobreza superiores aos de outros países desenvolvidos. Dados do U.S. Census Bureau (2026) mostram que cerca de 11,5% da população vivia abaixo da linha oficial de pobreza em 2022. Esse número, contudo, não capta integralmente a extensão da vulnerabilidade econômica, uma vez que não considera adequadamente as variações regionais no custo de vida e o acesso desigual a serviços públicos essenciais. A limitada e desconfigurada rede de proteção social e a elevada dependência do mercado para acesso a bens fundamentais, ambas promovidas pelo neoliberalismo, agravam essa situação.

Outro elemento crítico é o crescimento da dívida pública. Após a pandemia de COVID-19, a dívida dos Estados Unidos ultrapassou 100% do PIB, e projeções do Congressional Budget Office (2026) indicam que esse valor poderá exceder 200% nas próximas décadas. Embora o país se beneficie do status do dólar como principal moeda de reserva internacional, o aumento contínuo do endividamento levanta preocupações quanto à sustentabilidade fiscal de longo prazo, especialmente diante do envelhecimento populacional e do aumento dos gastos com saúde. O sistema de saúde representa um dos exemplos mais claros de ineficiência estrutural. Apesar de gastar mais de 17% do PIB em saúde — o maior percentual entre as economias desenvolvidas — os EUA apresentam resultados inferiores em indicadores-chave, como expectativa de vida e mortalidade infantil. Esta aparente contradição resulta de um modelo fragmentado, baseado em múltiplos intervenientes privados, elevados custos administrativos e desigualdade de acesso. Consequentemente, milhões de cidadãos permanecem sem cobertura adequada, o que os expõe a riscos financeiros e sanitários significativos.

A estas fragilidades soma-se o elevado nível de endividamento estudantil. O elevado nível de endividamento estudantil ilustra as limitações do modelo de mobilidade social americano. Com uma dívida total superior a US$ 1,6 trilhão, os empréstimos estudantis representam um fardo significativo para as gerações mais jovens, restringindo seu consumo e sua capacidade de investimento. O ensino superior, tradicionalmente considerado um mecanismo de ascensão social, passa a operar, paradoxalmente, como um vetor de endividamento e insegurança econômica. que atingiu valores na ordem dos biliões de dólares. Este fenómeno reflete o aumento do custo da educação superior e a crescente dependência de financiamento privado para o acesso ao ensino universitário. O impacto desta dívida vai além do plano financeiro individual, afetando o consumo agregado, a formação de famílias e a mobilidade social das gerações mais jovens. Em vez de funcionar exclusivamente como mecanismo de ascensão social, a educação superior tornou-se também uma fonte de endividamento prolongado.

Em síntese, a economia americana apresenta um conjunto de contradições estruturais que advêm do modelo neoliberal de desenvolvimento económico-social. Embora o país continue a se beneficiar de vantagens comparativas, como a centralidade do dólar no sistema financeiro internacional, a profundidade dos seus mercados de capitais e a liderança em setores tecnológicos de ponta. Entretanto, as vantagens coexistem com fragilidades internas que limitam a capacidade de sustentação de um crescimento inclusivo e socialmente equilibrado. As tensões internas associadas à desigualdade, à dívida, à pobreza e à reconfiguração produtiva indicam um processo de transformação profunda, no qual reflete a exaustão de um modelo ultrapassado.    

Referências:

CONGRESSIONAL BUDGET OFFICE (CBO). The Budget and Economic Outlook. Washington, DC: Congressional Budget Office, edições diversas. Disponível em: https://www.cbo.gov/publication. Acesso em: 24 abr. 2026.

FEDERAL RESERVE SYSTEM. Distributional Financial Accounts of the United States. Washington, DC: Board of Governors of the Federal Reserve System, [s.d.]. Disponível em: https://www.federalreserve.gov/releases/z1/dataviz/dfa/. Acesso em: 24 abr. 2026.

PIKETTY, Thomas. Capital in the twenty-first century. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2014.

STIGLITZ, Joseph E. The price of inequality: how today’s divided society endangers our future. New York: W. W. Norton & Company, 2012.

INTERNATIONAL MONETARY FUND (IMF). World Economic Outlook. Washington, DC: International Monetary Fund, edições diversas. Disponível em: https://www.imf.org/en/Publications/WEO. Acesso em: 24 abr. 2026.

UNITED STATES CENSUS BUREAU. Income and Poverty in the United States. Washington, DC: U.S. Department of Commerce, relatórios anuais. Disponível em: https://www.census.gov/topics/income-poverty.html. Acesso em: 24 abr. 2026


Foto de capa: Getty Images

Sobre o autor

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Luiz César Silva
Pós-doutorando em Economia pela Universidade do Porto; Doutor em Administração Pública pela Universidade do Minho (Portugal), Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro – Escola de Governo – FJP, Especialista em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e Economista pela Universidade Católica de Petrópolis – UCP. É Professor de Administração e Gestão Pública no Instituto Politécnico de Bragança, Escola de Administração Pública, Comunicação e Turismo de Mirandela (EsACT-IPB). Lecionou no Departamento de Relações Internacionais e Administração Pública da Universidade do Minho. Atualmente, é membro do Comitê Científico da revista “Public Administration Research: Canadian Centre for Science and Education”.

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