Os Estados Unidos da América são um país guerreiro e agressivo. Além deste título, é também o país mais rico do mundo, detentor das mais avançadas tecnologias e das armas mais mortíferas que essas tecnologias permitem criar e desenvolver. Mas num paradoxo irônico que a História costuma apresentar para surpresa dos próprios historiadores, não consegue sair-se vencedor de nenhuma das guerras que tem provocado.
Os EUA sofreram recentes e grandes derrotas militares e políticas na Coréia, Vietnã, no Iraque e no Afeganistão. Agora mesmo, sujeita-se a mais uma desmoralização com seu ataque ao Irã. Em vez de vitórias decisivas, suas campanhas têm terminado em retiradas vergonhosas, ocupações prolongadas e resultados estratégicos limitados ou reversos.
A Segunda Guerra Mundial, vencida pelos aliados e que ao seu final permitiu aos EUA ampliar o seu domínio internacional, só foi vitoriosa com o sacrifício e a ferocidade da luta da União Soviética na frente oriental. Os russos foram os primeiros a entrar em Berlim.
Coroando um violento conflito que provocou com sua invasão do Vietnã, a desmoralizante retirada norte-americana foi concluída em 1973, e Saigon caiu em 1975, encerrando a intervenção dos EUA sem o objetivo político pretendido. A guerra custou mais de 58 mil vidas americanas e deixou o país profundamente dividido.
No Iraque, os EUA encerraram seu combate em 2010 e concluíram a retirada de tropas em 2011, mas a guerra ficou associada a um custo humano e político enorme, além da instabilidade duradoura no país. A intervenção é frequentemente citada como exemplo de vitória tática sem resultado estratégico.
No Afeganistão, a saída em 2021 marcou o fim de uma guerra de 20 anos que terminou com o Talibã de volta ao poder e com a evacuação caótica de Cabul. O conflito custou cerca de 2,3 trilhões de dólares.
Coréia
A Guerra da Coreia foi um conflito entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, entre 1950 e 1953, no contexto da Guerra Fria. Começou quando o Norte invadiu o Sul em junho de 1950, e rapidamente atraiu a intervenção dos Estados Unidos em apoio ao Sul, enquanto a China apoiou o Norte, com ajuda soviética.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a península coreana, antes ocupada pelo Japão, foi dividida em duas zonas de influência: ao norte, sob influência da União Soviética; ao sul, sob influência dos EUA. Surgiram dois governos rivais, cada um afirmando representar toda a Coreia, o que aumentou a tensão.
A guerra teve fases de avanço e recuo. No início, as forças norte-coreanas avançaram rapidamente e quase dominaram toda a península, mas a entrada das forças da ONU, lideradas pelos EUA, reverteu a situação e levou os combates até perto da fronteira com a China. A intervenção chinesa empurrou os aliados de volta, e o conflito entrou num impasse prolongado perto do paralelo 38.
A guerra terminou com um armistício assinado em 27 de julho de 1953, sem tratado de paz definitivo. As duas Coreias continuam até hoje tecnicamente em guerra, separadas por uma zona desmilitarizada. O conflito deixou milhões de mortos e consolidou a divisão da península em dois Estados hostis.
Em cada um dos exemplos citados a razão do fracasso americano foi a subestimação das dinâmicas internas de cada país, especialmente a resistência nacionalista, guerras civis e a capacidade de grupos insurgentes suportarem conflitos longos.
Vietnã
Entre 1955 e 1975, com a divisão do Vietnã após a saída da França da Indochina, houve a Guerra do Vietnã. O Acordo de Genebra estabelecera o Vietnã do Norte, comunista, e o Vietnã do Sul, capitalista, separados pelo paralelo 17º. A expectativa era de um plebiscito para a unificação. O primeiro-ministro do Vietnã do Sul, Ngo Dinh Diem, apoiado pelos Estados Unidos, impediu a votação, temendo a vitória comunista. Isso levou a uma guerra civil, com o Vietnã do Norte buscando a reunificação e apoiando a Frente Nacional para a Libertação do Vietnã (Vietcong) no Sul.
O conflito se intensificou com a crescente intervenção dos Estados Unidos, que temiam a expansão do comunismo na Ásia pela Teoria do Dominó.
A Teoria do Dominó foi popularizada pelo presidente dos Estados Unidos, Dwight D. Eisenhower, durante uma entrevista à imprensa. Eisenhower utilizou a metáfora dos dominós para explicar a sua preocupação com a propagação do comunismo no Sudeste Asiático. Ele argumentou que se um país caísse sob o domínio comunista, os países vizinhos seguiriam o mesmo caminho, como uma fileira de dominós caindo um após o outro.
Inicialmente, os EUA enviaram conselheiros militares, mas após o incidente forjado no Golfo de Tonkin em 1964, o presidente Lyndon Johnson escalou a presença militar, enviando centenas de milhares de soldados. O incidente do Golfo de Tonkin refere-se a dois falsos ataques de que teriam sido alvos navios americanos. O governo do presidente Lyndon B. Johnson utilizou os supostos ataques como pretexto para obter apoio do Congresso para uma intervenção militar mais ampla.
A estratégia americana incluía bombardeios intensivos e o uso de armas químicas poderosas como o napalm e o Agente Laranja. Em contrapartida, as forças norte-vietnamitas e os vietcongues empregaram táticas de guerrilha, aproveitando o conhecimento do terreno e a motivação pela unificação. A Ofensiva do Tet, em 1968, expôs a fragilidade da posição americana e gerou forte oposição à guerra nos EUA e internacionalmente.
A pressão da opinião pública e do Congresso americano levou o presidente Richard Nixon a iniciar a retirada gradual das tropas dos EUA. Em 1973, foi assinado o Acordo de Paris, que previa um cessar-fogo e a retirada total das forças americanas. Mas os combates entre o Norte e o Sul continuaram. Em abril de 1975, as forças do Vietnã do Norte entraram em Saigon, a capital do Vietnã do Sul, hoje denominada Cidade de Ho Chi Minh, marcando o fim da guerra. Tornaram-se emblemáticas as cenas dramáticas de uma multidão de civis disputando uma vaga no último voo de helicóptero partindo do teto da embaixada dos Estados Unidos.
Em 1976, o Vietnã foi formalmente unificado sob o regime comunista, tornando-se a República Socialista do Vietnã.
Alguns anos depois, em 2021, imagens da retirada caótica de civis e militares do aeroporto de Cabul disputando uma vaga no último helicóptero que partia repetiram o que acontecera em Saigon e simbolizaram nova derrota americana.
Iraque
A intervenção militar no Iraque teve início em março de 2003 e se estendeu até 2011. A invasão foi liderada pelos Estados Unidos, com o apoio do Reino Unido, Austrália e Polônia, sob a justificativa de que o Iraque possuía armas de destruição em massa e ligações com grupos terroristas.
Passada a fase inicial de combate, o Iraque mergulhou em um longo período de insurgência, violência sectária e instabilidade. As forças da coalizão enfrentaram grupos insurgentes, incluindo remanescentes do regime de Saddam Hussein, milícias xiitas e grupos terroristas como a Al-Qaeda. A tentativa de estabelecer um governo democrático e reconstruir o país foi dificultada pela fragmentação política, corrupção e pela disseminada violência.
A intervenção militar dos EUA no Iraque foi oficialmente encerrada em dezembro de 2011, com a retirada das últimas tropas de combate.
A guerra deixou um legado sinistro, com a morte de centenas de milhares de iraquianos e milhares de militares da coalizão, um custo financeiro de trilhões de dólares e até hoje uma profunda instabilidade em toda a região.
Foto de capa: IA





