Entre programa, força eleitoral e coerência política, o debate sobre a liderança da frente de esquerda no RS expõe mais que uma disputa de nomes — revela critérios
Um critério político: o programa brizolista como referência
Não tenho nenhuma delegação partidária, mas gostaria de sugerir ao Carlos Lupi uma solução para o falso impasse da candidatura ao governo do Rio Grande do Sul:
- Já que o PDT diz querer participar da frente de esquerda no RS, proponho que adotemos as ideias de Leonel Brizola como medida. Quem não banca o programa do Briza está fora. Se eventualmente haja algum ponto não coberto pelo rico pensamento do grande governador, que o PSol, Rede, PCdoB, PV, PSB e PT agreguem ao programa.
Mas o PDT e a neta devem nos dar a certeza de que concordam com as ideias de Brizola. Devem sustentar sua visão nacionalista, a manutenção de setores vitais (água, saneamento, energia elétrica, saúde, transporte, bancos estatais …) em mãos do Estado. Devem declarar se são contra a privatização das empresas públicas e a terceirização de serviços básicos e que querem valorizar salarialmente o quadro de servidores públicos. Devem apoiar as escolas e os salários de profissionais da Saúde e Educação das redes públicas.
Se o PDT voltar a adotar o pensamento brizolista e o da esquerda, exorcizar-se de sua participação em governos neoliberais, jurar nunca mais enfraquecer o Estado, aí sim terá seu lugar assegurado na frente de esquerda do RS.
Porém precisam vestir as sandálias da humildade e entrar no lugar certo da fila.
“Veja bem”: a comparação objetiva de força eleitoral
Já que tem gente que deseja trocar o PT pelo PDT na cabeça de chapa para o governo do Estado neste ano, busquei um parâmetro de medida sobre tamanho e força partidários, para avaliar essa proposta.
Desempenho para a Assembleia Legislativa
- Primeiramente, adotei a comparação do desempenho do PDT e do PT para a Assembleia Legislativa (votos nominais + votos só na legenda):
1994: PT 623.000; PDT 614.135 votos
1998: PT 1.144.512; PDT 601.015
2002: PT 1.144.973; PDT 815.056
2006: PT 1.473.287; PDT 728.364
2010: PT 1.505.681; PDT 841.964
2014: PT 1.230.405; PDT 703.210
2018: PT 816.675; PDT 576.473
2022: PT 1.043.163; PDT 471.780
Note que há uma década o PDT vem continuamente perdendo votos e militantes.
De 2010 para 2014 perdeu 16,5%.
De 2014 para 2018, 18%.
De 2018 para 2022, 18,2%.
Enquanto isso, há 20 anos o PT mantém a maior bancada estadual.
A hegemonia parlamentar do PT no RS
Em 2002 o PT elegeu 10 deputados estaduais, o PMDB 9 e o PDT 7.
Em 2006, PT e PMDB elegeram 8 deputados.
Em 2010, com Tarso Genro governador, o PT fez 14 deputados; o PDT, 7.
Em 2014, PT fez 11 deputados; PDT, 8.
Em 2018, PT fez 8 deputados; PDT, 4.
Em 2020/2022, PT manteve 11 deputados; PDT ficou em 4.
O padrão é consistente: o PT segue como principal força parlamentar da esquerda gaúcha.
Quem tem força para liderar a esquerda?
- O PDT tem força para dirigir a esquerda?
Comparação nas eleições ao governo:
2006: PT 1.696.243; PDT 229.639
2010: PT 3.416.460; PDT apoiou MDB (1.554.836)
2014: PT 2.005.743; PDT 263.062
2018: PT 1.060.209; PDT 661.717
2022: PT 1.700.374; PDT 101.611
A discrepância não é episódica — é estrutural.
Pretto vs. Juliana: evidência empírica, não hipótese
- Há quem diga que Juliana Brizola faria mais votos que Edegar Pretto. Como “se” não existe, vamos aos dados:
2010:
Pretto – 69.233 votos (4º)
Juliana – 61.305 (13ª)
PT: 14 deputados | PDT: 7
2014:
Pretto – 73.122 (5º)
Juliana – 61.305 (13ª)
PT: 11 deputados | PDT: 8
2018:
Pretto – 91.471 (4º)
Juliana – 43.822 (28ª)
PT: 8 deputados | PDT: 4
Evolução clara: Pretto cresce; Juliana regride.
2022: o teste real de competitividade
Quando foi candidato ao governo em 2022:
- Pretto: 1.700.374 votos (3º lugar, apenas 2.441 atrás do 2º)
- PDT: Vieira da Cunha, 101.611 votos (6º lugar)
Juliana não se elegeu deputada federal (68.865 votos).
Na Assembleia:
- PT: 11 deputados (maior bancada)
- PDT: 4 deputados
A pergunta incontornável
Como acreditar que um partido em queda contínua (841 mil → 703 mil → 576 mil → 471 mil votos) poderia superar o partido que lidera a esquerda há duas décadas?
O PT, mesmo após queda, voltou a crescer (+27,7%) na última eleição.
O problema político de fundo: coerência programática
- Por fim, por que uma Frente de esquerda deveria entregar seu governo a um partido que há doze anos integra governos de direita no RS?
Governos que:
- privatizam ou terceirizam serviços públicos
- desvalorizam professores e profissionais da saúde
- congelam salários do funcionalismo
Por que acreditar que quem executa políticas opostas às nossas poderia liderar a esquerda?
Integração possível, liderança não
Ainda assim, o PDT pode — e deve — integrar a Frente.
Há brizolistas históricos, militantes comprometidos, que compartilham valores com PSol, PCdoB, PV, Rede, PSB e PT.
Esses setores fortalecem o campo progressista.
Lugar na fila e direção política
Mas liderança exige:
- densidade eleitoral
- coerência programática
- identidade histórica com a esquerda
E isso, hoje, aponta para uma conclusão inequívoca:
Pretto na cabeça — e Brizola como guia.
Como diria Alceu Collares:
“Tem que ser de luta!”
Ilustração da capa: Pretto, Brizola e Lula – Foto composição






Uma resposta
O artigo não deixa dúvidas de quem deve ser o candidato a governador no RS pela esquerda.
O PDT gaúcho na cabeça de chapa não agregará quase nada ao Lula, pois na sua maioria são de centro/direita e ainda fragiliza a disputa estadual para todos os cargos