A economia gaúcha não é apenas um emaranhado de setores: é uma engrenagem

Última edição em abril 4, 2026, 10:35

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Há uma crença pegajosa no debate econômico: a de que o crescimento pode nascer apenas por escolha.

Mas, como na vida, ninguém pede para nascer. As coisas e as pessoas simplesmente emergem, por vezes indiferentes às escolhas. Ao menos às conscientes.

Ainda assim, aponta-se um setor, indústria, agro ou serviços, como se o resto viesse por consequência.

Muita tinta já foi gasta. E continua sendo.

É uma crença confortável. E parcialmente equivocada.

A economia não cresce apenas por escolha. Cresce por conexão.

Economistas pré-clássicos e clássicos já sabiam disso. Setores operam sob diferentes leis e possuem distintos paladares conectivos. Mas, nas curvas da “evolução” do pensamento econômico, algo se perdeu.

O que os dados da última matriz de insumo-produto do Rio Grande do Sul revelam, quando lidos com algum cuidado, é menos uma hierarquia de setores e mais uma arquitetura de relações. Não importa apenas quem produz mais. Importa quem aciona quem. Quem depende de quem. Quem, ao se mover, leva o restante a reboque.

É nesse plano mais silencioso e mais subterrâneo que o crescimento se decide.

A indústria de transformação segue ocupando esse lugar.

Não como protagonista isolada, mas como eixo de transmissão.

Ela compra de muitos setores e vende para muitos setores. Ela transforma uma variação localizada em movimento sistêmico. Quando a indústria acelera, não é apenas ela que cresce. É a rede que se tensiona.

Outros setores também aparecem como centrais. O comércio, por exemplo, surge com forte presença. Mas há uma diferença que os números não gritam, apenas insinuam.

O comércio conecta o que já existe.
A indústria cria o que pode vir a existir.

Transportes e construção seguem lógica semelhante. São extensões de uma dinâmica já acionada. Acompanham o movimento. Raramente o inauguram.

A economia terráquea não é plana. É hierárquica em suas interdependências.

Como na vida, hierarquia e limites são importantes, sobretudo para países que ainda são, em muitos aspectos, crianças.

Quando a análise se aprofunda e passa a identificar apenas as ligações que realmente importam, o quadro se torna mais colorido, mas não necessariamente mais simples.

Alguns setores não são apenas relevantes. São estruturais.

Fabricação de alimentos, químicos, máquinas. Não são necessariamente os mais visíveis, nem os mais celebrados. Mas são os que, quando alterados, reorganizam o sistema. Pequenas mudanças nesses pontos reverberam como ondas longas.

E há um detalhe revelador. Muitos desses setores operam como usuários líquidos. Absorvem mais do que fornecem.

São, por assim dizer, centros de gravidade.

Dependem de uma base produtiva densa para existir. E, ao mesmo tempo, ajudam a mantê-la coesa.

Não há contradição aí. Há estrutura.

Mas nenhuma estrutura é neutra.

O mesmo sistema que conecta também emite.

A economia gaúcha apresenta uma concentração expressiva de emissões em poucos setores, especialmente agropecuária e transporte. São atividades fundamentais. Mas carregam consigo um custo que não pode mais ser tratado como externo.

O dilema não é retórico.

Os setores que mais expandem não são, necessariamente, os que mais conectam. E tampouco os que menos pressionam o ambiente.

A agricultura, por exemplo, combina alta geração de emprego com elevada intensidade de emissões e baixa arrecadação relativa. Já segmentos industriais estratégicos, em muitos casos, apresentam maior capacidade de encadeamento com menor intensidade poluidora.

O problema não é escolher. É combinar sem simplificar.

Inovação e cooperação são importantes, mas dependem de estrutura.

É aqui que o debate costuma se perder.

Entre indústria ou agro. Entre serviços “modernos” ou tradicionais. Como se o crescimento fosse uma escolha binária, um interruptor que se liga de um lado e se desliga do outro.

Não é.

A economia funciona mais como uma engrenagem do que como um menu.

Engrenagens não operam por substituição. Operam por encaixe.

O que os dados sugerem não é apenas a supremacia de um setor, mas a necessidade de densidade. De articulação. De continuidade entre partes que, isoladas, pouco fazem, mas, conectadas, transformam o sistema.

No fim, talvez o erro mais persistente seja este: tratar a economia como uma lista.

Uma lista de setores. De prioridades. De apostas.

Mas economias não são meras listas.

São estruturas.

E estruturas não respondem a decisões pontuais. Respondem à forma como suas partes se sustentam mutuamente.

Crescer, portanto, não é escolher um setor.

É garantir que, quando um se mova, os outros tenham para onde ir.

Porque, sem isso, o movimento existe, mas não se propaga.

Não é apenas um emaranhado.

É uma engrenagem, e é nela que o crescimento, enfim, nasce.


Foto de capa: Felipe Nadaes / Criação Globo

Sobre o autor

Homem de barba sorrindo ao ar livre
Henrique Morrone
Professor UFRGS.

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