O mundo assiste ao empobrecimento das ideias e sua consequência mais visível, a miséria da política. No Brasil, foi com Jair Bolsonaro na presidência da República que este fenômeno ganhou expressão e aconteceu no pior dos cenários, pois surgiu juntamente com a pandemia. Durante os quatro anos em que esteve à frente do Poder Executivo, Bolsonaro exibiu total desprezo pela ciência, da mesma forma que tratou as oposições com deboche e atitudes grosseiras ao longo de seu mandato. Ganhou inúmeros adeptos, que logo se identificaram com ele. Diante da expectativa de um retorno do bolsonarismo representado pelo seu primogênito não se deve minimizar o embate que tem tudo para ser violento.
O fenômeno da antipolítica como mote para desacreditar as instituições de modo a gerar desconfiança generalizada agride os preceitos básicos da civilidade. Essa atitude de confronto recorrente e desqualificante promove a irracionalidade por falta de argumentos que sustente as ações truculentas dessa mais recente versão. Nela está presente uma visão de suspeição a todos que se proponham a intervir nos processos decisórios visando dar provimento a reivindicações populares, quase sempre em oposição a interesses cartoriais e estruturados pelos grupos que detém faz tempo o poder de mando. No que diz respeito ao que se passa no país, esse poder que empodera a antipolítica tem suas origens nos tempos da Casa Grande, que não deixou de se manter influente ainda hoje a despeito da modernização depois do longo período da escravidão.
As próximas eleições acontecerão num quadro mundial profundamente inseguro e marcado pela política temerária do presidente Donald Trump. Portador da obsessão de fazer a América (EUA) maior do que já é no contexto internacional, mais recentemente adotou uma ação intervencionista que parecia ter sido sepultada depois da fracassada e desastrosa agressão no Sudeste Asiático, mais especificamente no Vietnam. Delirante e embalado pelos falcões, corrente que tem influído nas operações de atos de agressão como suporte para fazer valer os interesses yankees, sequestrou o presidente Maduro da Venezuela e agora intenta fazer o mesmo no Irã com consequências imprevisíveis.
No Brasil essa política antidemocrática tem ganho adesões numa espécie de onda reativa e, portanto, reacionária de forma inusitada, a agredir os valores próprios da democracia. Seus ideólogos tentam se apropriar do conceito de democracia para legitimar métodos e práticas que contrariam os processos de tomada de decisão democráticos, de modo a imputar aos autênticos democratas as consequências desastrosas de suas ações.
No ano de mais uma campanha presidencial vale lembrar a situação de encruzilhada a apontar caminhos distintos. Ou bem o eleitorado opta por candidaturas que prezam o jogo democrático, ou escolhe a alternativa que busca aprofundar a imensa desigualdade social ignorada como sempre pelos próceres representativos das classes dominantes a iludirem os eleitores desavisados para que apostem em mitos. Esse arcaísmo salvacionista opera as condições para o advento de atos que visam instaurar o ódio a quem se oponha ao processo de apequenar o que temos de espaços democráticos.
Injuriar os partidos políticos, as correntes de opinião de diferentes matizes e a liberdade de expressão, especialmente a imprensa livre, têm sido a essência do projeto do arcaísmo salvacionista. Cabe ao cidadão eleitor decidir sobre os rumos da sociedade brasileira e seus imensos desafios. Isto é fazer Política, com P maiúsculo, pois sem ela o caos se instala em definitivo e arrasta consigo a democracia.
Presentemente, as questões democrática assim como a da soberania formam juntas o alicerce fundamental, pois só existe soberania nacional se ela representar de fato o interesse popular, do contrário ela pode servir a interesses meramente chauvinistas, próprios do fascismo. Advertência que deve ser levada a sério em razão da correlação de forças que tem revelado reais possibilidades de sua ascensão, inclusive em face da crise crônica do capitalismo. Nessas circunstâncias, o capital torna-se agressivo.
Nesse contexto, há que se praticar a racionalidade na escolha do candidato, fundado na leitura da realidade a envolver não uma simples polarização costumeiramente alardeada na mídia, mas uma verdadeira encruzilhada com vistas ao futuro de nação brasileira. E isso se aplica a todos os cargos na disputa eleitoral, principalmente para a presidência da República, tendo em vista tratar-se da eleição mais importante em todos os tempos em nossa República, cujo destino será traçado em outubro deste ano. Não se trata de um destino exclusivo das forças políticas progressistas na hipótese de uma derrota eleitoral, mas do país, que pode amargar o advento de um novo neocolonialismo de implicações seríssimas para a nação brasileira e, particularmente para o seu povo.
Daí que a continuidade do presidente Lula se impõe acima de preferências partidárias eventuais, além de ser o único líder capaz de impedir o retorno do regressismo mais vulgar, que a despeito dessa caricata alternativa embalada pela Faria Lima, cujo intuito não casa com as reprimidas demandas do povo brasileiro. Além, de rejeitar esse caminho de subalternidade ao grande capital, no que se refere a escolha presidencial, é indispensável a renovação de dois terços do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, para que se tenha uma base congressual que impulsione o país rumo aos seu destino.
O resultado das urnas decretando a derrota da candidatura bolsonarista abrirá um caminho que tem tudo para fortalecer a democracia não apenas na sua esfera institucional como no plano social. Neste caso, com a continuidade de programas de inclusão de concidadãos sujeitos ainda a viverem em condições de vulnerabilidade quase absoluta. Para tanto, é preciso rechaçar o surto fascista que se insinua sordidamente.
Foto de capa: Ricardo Stuckert/PR e Evaristo Sá/AFP





