Nem os americanos aguentam mais Trump

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Os protestos “No Kings” e o esgotamento de uma liderança que governa pela arrogância.

Neste 28 de março de 2026, os Estados Unidos foram palco de uma das maiores ondas de protestos de sua história recente. Milhões de pessoas saíram às ruas em mais de três mil cidades, espalhadas pelos 50 estados, sob o lema “No Kings” — uma rejeição explícita à condução política de Donald Trump e ao que os manifestantes classificam como deriva autoritária de seu governo.

A dimensão dos protestos impressiona, mas talvez mais reveladores sejam os dados recentes de opinião pública. Pesquisas divulgadas nos últimos dias indicam que a aprovação de Trump caiu para cerca de 36%, um dos níveis mais baixos de seu segundo mandato, pressionada sobretudo pela guerra com o Irã, pelo aumento dos preços de energia e pela deterioração da percepção econômica.

Esse dado não é trivial. Ele surge em um momento politicamente sensível: os Estados Unidos caminham para as eleições legislativas de 2026, nas quais o controle do Congresso estará em disputa. E, historicamente, presidentes com baixos níveis de aprovação tendem a enfrentar perdas significativas nessas eleições intermediárias.

Nos Estados Unidos, portanto, algo começa a se deslocar de forma mais profunda: a contestação ao poder já não é periférica, nem restrita a nichos ideológicos. Ela ganha corpo, ocupa as ruas e se articula com um enfraquecimento mensurável da base de apoio ao governo.

Quando a potência global se volta contra si mesma

Há uma dimensão simbólica importante nesses protestos. Os Estados Unidos sempre cultivaram a imagem de bastião da democracia liberal, referência institucional e política para o restante do mundo. No entanto, o que se observa hoje é um país atravessado por tensões internas profundas, onde parcelas crescentes da população questionam não apenas políticas específicas, mas a própria condução do poder.

Os atos do movimento No Kings revelam isso com nitidez. Ao rejeitar a ideia de um líder acima das instituições, os manifestantes estão, na prática, denunciando aquilo que percebem como uma deriva autoritária.

A política do confronto como método

A trajetória de Donald Trump tem sido marcada por uma estratégia clara: transformar a política em um campo permanente de batalha. Internamente, isso se traduz na radicalização do discurso, na deslegitimação de adversários e na construção de uma narrativa onde qualquer oposição é tratada como ameaça.

Externamente, o padrão se repete. A escalada de tensões internacionais — em especial o conflito com o Irã — não apenas aumenta a instabilidade global, como começa a produzir efeitos domésticos concretos, como a alta dos combustíveis e o desgaste político do governo.

Mas há um limite para essa estratégia. E esse limite começa a se tornar visível quando os custos deixam de ser abstratos e passam a afetar diretamente a vida cotidiana da população.

Protestos e eleições: o elo que começa a se formar

Os protestos No Kings não surgem no vazio. Eles se articulam com um ambiente político mais amplo, no qual a insatisfação social encontra tradução institucional.

Não por acaso, os organizadores das manifestações já vinculam explicitamente as mobilizações ao ciclo eleitoral de 2026, buscando influenciar distritos competitivos e ampliar a pressão sobre parlamentares.

Esse ponto é crucial: protestos de massa passam a dialogar com o calendário eleitoral, deixando de ser apenas expressão de indignação e passando a atuar como força política organizada.

O contraste necessário: liderança e responsabilidade

Esse cenário abre espaço para uma reflexão que ultrapassa as fronteiras dos Estados Unidos. Em momentos de crise internacional, a qualidade da liderança política torna-se decisiva. Governar não é incendiar tensões, mas administrá-las.

É nesse ponto que a figura de Donald Trump passa a ser cada vez mais questionada — inclusive dentro de seu próprio país. A rejeição não vem apenas de adversários tradicionais, mas de setores da sociedade que percebem os custos concretos de uma política orientada pelo confronto.

Quando as ruas encontram os números

A combinação entre protestos massivos e queda consistente de popularidade é, historicamente, um sinal de alerta. Isoladamente, manifestações podem ser absorvidas. Isoladamente, oscilações em pesquisas podem ser revertidas. Mas, quando ambos os fenômenos ocorrem simultaneamente, indicam algo mais profundo: perda de legitimidade.

O movimento No Kings, nesse sentido, não é apenas um episódio. Ele é um sintoma. E os números começam a confirmá-lo.

No fim, a mensagem que emerge das ruas e das pesquisas é convergente: governar pela tensão permanente cobra um preço. E, quando esse preço se torna visível demais — nas ruas, nas bombas de gasolina e nas urnas que se aproximam — até mesmo a maior potência do mundo precisa encarar uma realidade incômoda.

O poder, sem legitimidade, começa a ruir de dentro para fora.


Foto de capa: Reuters/Nathan Howard)

Sobre o autor

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Maria Luiza Falcão
PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É membro da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED). Entre outros, é autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England/USA.

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