CORRESPONDENTE POLÍTICO | A eleição de outubro e “os idos de março”

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Na clássica tragédia “Julio Cesar”, de Shakespeare, quem dá o recado é um cego. Na peça, ele se aproxima do líder romano e sussurra no seu ouvido: “Cuidado com os idos de março”. Julio Cesar não dá bola para o aviso e, no dia 15 de março, ele é assassinado, esfaqueado pelos senadores. Na quarta-feira, 10 de março, pesquisa Quaest apresentou um rigoroso empate em 41% entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em um eventual segundo turno. Outras pesquisas já vinham apresentando essa tendência de crescimento de Flávio e redução da vantagem de Lula. Ao comentar a pesquisa, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), minimizou os números.

Será que ainda é cedo?

Na avaliação de Jaques Wagner, pesquisas divulgadas com essa antecedência não teriam resultado muito útil. As eleições acontecerá daqui a sete meses. As candidaturas sequer estão formalizadas, o que só acontecerá em meados do ano. Para Wagner, portanto, “ainda é cedo”. Mas, ainda que não gere pânico, a pesquisa serve como alerta. Ignorar os “idos de março” não foi prudente na Roma de Cesar. E no Brasil de agora? Será prudente?

Boas e más notícias para o governo

Em março de 2002, quem ameaça Lula era Roseana | Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

O Correio Político resolveu verificar o que mostravam pesquisas eleitorais em março dos anos de disputa presidencial desde 2002, primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente. E essa verificação traz boas e más notícias para o governo. Em alguns casos, corrobora a tese de Jaques Wagner de que muita água ainda rola por debaixo da ponte entre março e dezembro. Em outros, mostrou posições mais consolidadas, que se alteraram sem virar resultados. De qualquer modo, pareciam já projetar leituras do que viria a acontecer depois.

Em 2002, risco parecia ser Roseana

Em março de 2002, pesquisa Datafolha projetava sobre Lula a sombra de Roseana Sarney como candidata do MDB. E ela nem chegou ao final. Naquela ocasião, havia um empate técnico entre os dois no primeiro turno, Lula com 26%, Roseana com 23%. A Quaest agora mostra Lula com 37% e Flávio com 30%. No Datafolha, Lula tem 38%, Flávio, 32%.

Disparado em 2006

Em 2006, Lula aparecia disparado na liderança contra seu principal adversário, Geraldo Alckmin, então no PSDB e agora seu vice, pelo PSB. Lula tinha 42% e Alckmin, 23%. Lula venceu Alckmin no segundo turno. Em março de 2010, no entanto, o cenário não apontava para a vitória de Dilma Rousseff (PT).

Serra em 2010

Datafolha de março de 2010 mostra José Serra, do PSDB, na frente da ministra da Casa Civil que Lula escolheu para ser a sua sucessora na sua impossibilidade de disputar nova eleição. Serra aparecia à frente com 35% das intenções de voto, e Dilma tinha 20%. Em outubro, Dilma venceu as eleições sobre Serra.

Dilma em 2014

Já em 2014, o quadro que pesquisa do Ibope apresentava apontava para uma reeleição tranquila de Dilma. Segundo a pesquisa, ela tinha 40% das intenções de voto contra Aécio Neves, seu adversário pelo PSDB. Dilma venceu e foi reeleita. Mas não com toda essa vantagem. O resultado foi apertado.

Sem Lula

Em 2018, Lula pretendia voltar à disputa, mas já havia em março a expectativa da sua prisão que, de fato, aconteceu em abril, tornando-o inelegível. Pesquisa CNT/MDA testava cenários com e sem Lula. Com Lula, ele vencia Jair Bolsonaro: 33,4% a 16,8%. Sem Lula, quem vencia era Bolsonaro: 20% contra 12,8% de Marina Silva (Rede).

Haddad

Fernando Haddad, que foi quem de fato disputou a eleição cm Bolsonaro até o segundo turno, aparecia somente com 2,3% das intenções de voto. Chegou a aparecer mais tarde bem próximo de Bolsonaro. A facada em setembro, o atentado contra Bolsonaro, pareceu sacramentar sua vitória.

Lula em 2022

Em março de 2022, Lula tinha uma vantagem tranquila sobre Jair Bolsonaro. Segundo o Datafolha, ele tinha 43% das intenções de voto contra 26% de Bolsonaro. O resultado final do primeiro turno foi Lula com 48,43% e Bolsonaro com 43,2%. Assim foram “os idos de março” nas eleições passadas.


Publicado originalmente no Correio da Manhã.

Foto de capa: É prudente Lula ignorar “os idos de março”? | Marcelo Camargo/Agência Brasil

Sobre o autor

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Rudolfo Lago
Ex-diretor do Congresso em Foco Análise, é chefe da sucursal do Correio da Manhã em Brasília. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.

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