Conselho estadual de educação

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Assumi a coordenação da UnU Itumbiara no fechamento de 2019, o ambiente político e institucional não era dos melhores; havia a certeza de cortes e contingenciamentos orçamentários e era preciso, por assim dizer, “pôr as barbas de molho” e se preparar para o inusitado.

Conhecendo, ao menos no seu geral, a cabeça liberal, ortodoxa e claro, absolutamente distante das reais demandas sociais e populares de Ronaldo Caiado, já estávamos em condições de ensaiar cálculos sobre o que, de fato, nos aguardava.

E veio…

Veio em forma de muito, muito arrocho, carência e desamparo; desligamento de pessoal e incertezas em profusão sobre o “day after” dessa muito ameaçada UEG.

Bom…

…Quem parte para a gestão irá me entender muito bem… Normalmente, não há um staff institucional para te acompanhar, ao menos nos primeiros meses; há um monte de dispositivos burocráticos a serem realizados e você, um pobre diabo, não tem tempo ou o direito de “não saber”; é esse despacho, é aquela comissão, é um processo de compras que exige tantos e quantos orçamentos e…

…Te vira, cara pálida!.

Então… Tudo isso apeteceu comigo sem contar nos erros e limites pessoais, na desarticulação local, na má vontade de uns tantos, na fragmentação e indiferença histórica que se impõe a partir de grupos operantes e existentes na inércia do cotidiano.

Bom… Em síntese foi dureza!

Mas, verdade seja dita, ninguém me disse que seria fácil!

E parti para fazer o que dava para fazer… E sabia que o essencial do que buscava estava no território, na comunidade, na população local. Minha estratégia era utilizar da respeitabilidade pública da UEG para carrear, angariar apoios para o próprio resgate da UEG local.

Na semana seguinte, o prefeito da cidade, aliás, dos meus adversários políticos, estava na Unidade e dialogando com professores; desse entendimento vieram serviços de roçagem, jardinagens e zeladorias; os asfaltos da entrada da Universidade foram consertados, estacionamentos, calçadas e canteiros foram pintados, sinalizados e corrigidos.

E seguimos…

Identifiquei e identificamos que, em que pese a UEG estar por vinte e cinco anos em Itumbiara, a população, em sua grande parte, não sabe de sua existência.

Pior… Não sabe que a UEG é pública e bem pior, não sabe que essa Universidade é integralmente gratuita e isso me soou grave… Muito grave!

No mês seguinte, estávamos com um programa de rádio e assim chamado ” Fala UEG! “

Nesse espaço a gente entrevistava professores, políticos, empresários e mais um monte de gente conhecida.

Trouxemos Flávio Dino, Emir Sader, Gilberto Maringoni, Juca de Oliveira, Rubens Otoni, Sônia Guajajara e mais um tanto de pessoas interessantes.

E o nome da UEG ia lenta e suavemente, despontando, quebrando “gelos”, rompendo barreiras e caindo no gosto popular…

Eu só não sabia, não fazia ideia de que uma montanha estava para despencar, desabar sobre minha cabeça…

Entre muito trabalho, conquistas e visibilidade, eis que uma peste, uma doença desgraçada de nome Covid-19 aparece do nada e… Bloqueia praticamente tudo o que estamos desenvolvendo.

Depois disso… Somos jogados em um processo de ensino-aprendizagem e assentado nos assim descritos “meios remotos”… É claro que vocês recordam!

Veio às minhas lembranças aquela canção de Raul Seixas, ” O dia em que a Terra parou! ” e, de fato, parou…

Ninguem podia ir na panificadora comprar um pão, ir na feira, numa lanchonete ou num restaurante e nossas aulas estavam presencialmente suspensas; a partir de agora, essas mesmas aulas se dariam por telefones celulares, notebooks ou computadores convencionais.

E agora?

Meu expertise nisso era ZERO mas lei a gente cumpre, sobretudo, naquela altura, onde o presidente do país dizia, berrava com grotescas espumas nos cantos dos beiços de que essa doença devastadora e fatal “era só uma gripezinha”, que “vacina não curava”, que tínhamos mesmo era que apostar em certa “imunização de rebanho” e que – PORRRAAA! – a gente tinha que deixar de ser “maricas”.

Quem lembra disso?
Eu lembro!

Felizmente, a provinciana UEG, foi das primeiras instituições de ensino superior do país a, de fato, implementar essa modalidade além de oferecer cursos e formações aos docentes sobre como fazer, como montar aulas audiovisuais, como postar a câmera, como ajustar, em que altura, como se grava e por aí fomos…

No “novo normal” da COVID, suspenderam equipes de limpeza e as unidades viraram espécies de desterros com expressos ares de abandono.

O governo dizia que era para economizar, enquanto isso, máquinas e equipamentos caros com anexos e dispositivos de lentes sensíveis, fibras delicadas ou lâminas hiper-sensíveis eram tomadas de poeiras, mofo, teias de aranha ou ninhos de pombos.

Não é assustador!?

Bom… Sem contar no quadro tétrico e periclitante de certo curso de medicina e que carecia de um tudo porque, não por menos e paralelamente, faltava de um tudo…

Faltavam livros, laboratórios, professores, técnicos, equipamentos, cadáveres, espaços, insumos e enfim… Sequer era mesmo um curso!

Tem que o estudante de medicina é um tipo diferenciado… Exige mais, fala mais, reclama mais, faz sua vanguarda…

E a pressão diária por melhorias e que recaia sobre meu dorso era todo santo dia… Eu ouvia, ouvia e ouvia… Mas inquieto, me indagava sobre o que fazer!

Procurava deputados, senadores, o prefeito, o pessoal do governo; o padre, o bispo, o Papa e… Nada!

Foi justamente em eventual visita na Prefeitura de Cachoeira Dourada, 50km de Itumbiara, que me “caiu a ficha” de acionar o Conselho Regional de Medicina (CREMEGO).

Assim fiz…

Fui muito bem recebido por seus conselheiros, aproveitei e convidei os poucos professores do curso e seus estudantes e… Começamos…

Olha… Foi uma enxurrada de denúncias, diálogos emocionados, reclames e pedidos!

Eu não sabia, mas essa reunião iria mudar tudo, absolutamente tudo no trato com o melindroso curso de medicina e mesmo com toda a Unidade.

No dia seguinte o CREMEGO aciona o governador, marcam uma visita para a Unidade de Itumbiara e que, de pronto, concordo e… Em menos de quinze dias o curso é, de fato, refundado com investimentos e investimentos futuros massivos, uma nova gestão, assessores acadêmicos e pedagógicos e tudo muda.

Em seguida é anunciado concurso para o curso mas não só… É lançado concurso para todos os cursos da grande área da saúde e a UnU Itumbiara fervilha.

De forma inédita e unusual, o sacrossanto Regime de Recuperação Fiscal de Ronaldo Caiado é, em seu transcurso, uma única vez, quebrado… E fomos nós, os filhos dessa UEG que o fizemos!

O esperado político veio… Por aberta e expressa ordem de Ronaldo Caiado sou exonerado mas agora… Era tarde!

Sou convocado para o Centro Administrativo, em Goiânia, e recebido por esse tipo, Adriano da Rocha Lima, e que sumário e inquisidor me interroga hierárquica e policialescamente sobre “quem fez isso”?

Mais…

  • “Foi o Reitor?”
  • “Foi algum Secretário?”
  • “Algum Deputado?”
  • “Quem?”

O qual respondi: “Fui eu, Secretário! Eu!”.

Não foi fácil, não foi simples, não foi tranquilo mas pensei, olhei para esse garotos e garotas da enfermagem, da farmácia, da educação física e da medicina e sei…

… Sei que tudo isso pode salvar vidas! VIDAS!

Foi isso!


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

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Angelo Cavalcante
Economista e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara. E-mail : angelo.cavalcante@ueg.br

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