Aleluia irmãos! Vergonha alheia não mata!

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Jornalista Mariana Varella:

Alguns médicos têm dito que não seria possível saber

com base nos dados disponíveis se os pacientes que evoluíram

positivamente o fizeram espontaneamente ou pela polilaminina.

Eles dizem que sem grupo de controle nada pode ser dito.

O que a senhora responderia a eles?

Dra. Tatiana Sampaio:

Eles que vão estudar!

Roda Viva, 23/02/2026 (1h e 16 min)

Complexo de vira-latas e idolatria d’O Método Científico

    Se me pedissem para caracterizar, numa única frase, a diferença entre positivistas e dialéticos, eu responderia que os positivistas acreditam que existe “O” (artigo definido singular) método científico; e os dialéticos pretendem que há métodoS científicoS (no plural!), que são construídos a partir das especificidades do objeto. Para os positivistas, a ciência é caracterizada por um conjunto de práticas muito bem definidas, que devem ser sempre seguidas da mesma forma. “Método” é o equivalente científico de “receita de bolo” na culinária. Já, para o dialeta, o método do geólogo é – e tem que ser – distinto do método do historiador. Pois o objeto do primeiro move-se muito lentamente; enquanto o objeto do segundo é o próprio movimento.

    A biologia também tem os seus métodos específicos; que se consolidaram ao longo do século XX com apoio do microscópio eletrônico e dos avanços da teoria genética (a partir da decodificação do DNA). No ano de 1979, a biologia deu mais um grande passo: foi identificada a proteína responsável pela estruturação de tecidos, vale dizer, pela “cola” das células “irmãs” umas nas outras: a laminina. Estudos posteriores, vieram a demonstrar que essa proteína também cumpria uma função importante no crescimento e regeneração de tecidos nervosos (ou neurais). Nada disso é achologia, bruxaria ou ideologia. É ciência de primeira grandeza e amplo reconhecimento!

    A identificação das duas funções da laminina – “cola” de tecidos e estimulador do crescimento de tecidos neurais – alimentou pesquisas acerca da possibilidade de sua utilização na recomposição da medula espinhal. Grupos de pesquisa científica foram criados em todo o mundo em torno desse tema. Mas eles se deparavam com um grave problema.

    Uma vez extraída do corpo, a laminina se “desestrutura”. Usando a analogia da Professora Tatiana em sua magnífica entrevista no Roda Viva: “a molécula de laminina é uma ‘pérola’. No corpo humano, ela se estrutura como um ‘colar de pérolas’. Ao ser extraída, as pérolas se espalham, e sua função integradora, de ‘cola’, se perde”.

    Durante anos, a Dra. Tatiana e seu grupo pesquisaram a funcionalidade das “pérolas isoladas” na reconstrução de tecidos. Os resultados eram discretamente positivos; mas pouco animadores. Até que foi identificada a cultura biológica que estimulava as “pérolas” a se reorganizarem na forma de “colar”. Isso não é achologia, bruxaria ou ideologia. Isso é pesquisa, é ciência e merece todas as nossas palmas.

    Mas não parou aí. Passaram a testar a inoculação do “colar laboratorial” – que recebeu a denominação de polilaminina – em cobaias com fraturas na medula espinhal. E fizeram testes com duplo cego; vale dizer, algumas cobaias recebiam a polilaminina, enquanto outras recebiam placebo (soro fisiológico). E a diferença nos resultados foram acachapantes. Isso é ciência. E merece palmas.

    Com o corte de verbas para a pesquisa do (des)governo Temer, a UFRJ teve de restringir o apoio ao trabalho de Tatiana Sampaio, e perdemos a oportunidade de obter a patente internacional da polilaminina. Isso é tragédia. E merece lástima. Mesmo assim, a pesquisa foi continuada com o apoio de um laboratório farmacêutico nacional. Que decidiu dar início a testes em seres humanos. Isso é inovação e empreendedorismo real. E merece palmas.

    Mais: por decisão coletiva, optaram por não realizar o procedimento do duplo cego. Por quê? Porque inocular soro fisiológico – veículo inócuo, sem polilaminina – na medula espinhal de pacientes sequelados, pode aprofundar o transtorno e inviabilizar a (pequena, mas não descartável) possibilidade de cura sem intervenção. Isso é ética. E merece palmas.

    Mas Brasil é Brasil. E o complexo de vira-latas campeia nos mais diversos espaços e terrenos. Inclusive na esquerda. E na intelectualidade. E já tem gente jogando “pedra na Geni da vez”. São tantos, tantas e tão tontos os que se arvoram a “c…r” regras sobre o que é ciência e como ela TEM que ser feita, que eu até prefiro esquecer. Há amigos nessa lista. … Deixa assim. Mas, cá entre nós e a torcida do Flamengo: também tem um tanto de inveja, né? E outro tanto de machismo e misoginia. Ou me engano?

    Como é que é? A condenação dos irmãos Brazão foi enganação?

    No dia 25 de fevereiro – exatamente no dia em que o STF encerra o julgamento dos irmãos Brazão pelo assassinato de Marielle Franco – o jornalista Joaquim de Carvalho publicou uma reportagem no 247 afirmando que:

    “Acusados de encomendar o assassinato de Marielle e Anderson foram condenados sem provas. Julgamento no STF corre o risco de passar à história como erro, diante das fragilidades do processo criminal.”

    Hellloooo! Tem alguém em casa?  E não só na casa do Carvalho. Ele não foi o único jornalista “sabereta” de esquerda a querer ensinar princípios de direito penal a Paulo Gonet, Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Carmen Lúcia e Cristiano Zanin. O que não falta são jurisconsultos no jornalismo crí-crítico brasileiro contemporâneo. Mas a “análise” de Carvalho é tão contundente e detalhada que prescinde de outros exemplos. Analisemos sua tese.

    Há vários elementos na “Manchete sem Fatos & Fotos” de Carvalho. A primeira delas é que o STF não sabe julgar. Segundo o jornalista, Alexandre de Moraes, relator do processo do assassinato de Marielle, julga por aparências e conveniências políticas. Very interisting, indeed. A família Bolsonaro e todos os golpistas de 8 de janeiro têm 2000% de concordância. Que golaço de tricicleta carpada do Bangu! Pena que foi contra, né? É a esquerda acusando o STF de incompetência, acobertamento e ideologia. SHOW! Naquela linha: não importa se é oportuno ou não. O que importa é brilhar!

    Segundo elemento: Carvalho critica o fato de terem condenado “apenas” um Ministro do Tribunal de Contas do RJ (nomeado pela ALERJ); um ex-Deputado Federal (irmão do Ministro); o ex-Chefe da Polícia Civil do RJ e um Major da Polícia Militar. E pergunta: onde estão os Bolsonaros? … No limite, emerge a questão: será que a PF, o Procurador Geral da República, e a primeira turma do STF não os estariam acobertando os Bolsonaro? … Que pergunta inteligente e oportuna, não é mesmo?

    Ao invés de comemorar um julgamento histórico, que traz à luz as conexões profundas e estruturais entre as milícias cariocas e o Estado do RJ, entre o crime organizado e agentes públicos que deveriam zelar pela lei, o foco é desviado para um suposto “acobertamento” da Grande Famiglia. Um acobertamento que – very interisting indeed two: the mission! – estaria sendo realizado pela mesma turma do STF que condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. PLISS!

    Vamos aos fatos! O voto de Alexandre de Moraes detalha as relações do assassino confesso de Marielle Franco – Ronnie Lessa – com as milícias do RJ e, destas, com os irmãos Brazão e seus “negócios imobiliários” ilegais. Mais: resgata o protagonismo de Marcelo Freixo e Marielle Franco no combate aos “negócios imobiliários” da famiglia Brazão. E expõe, a partir de testemunhos diversos (que corroboraram a delação de Ronnie Lessa), como foi sendo arquitetado o plano de assassinato de alguma das lideranças do PSOL que se contrapunham a esses negócios a partir de suas representações na Câmara de Vereadores do RJ e na ALERJ. Mais: mostra como o alvo inicial do atentado seria Marcelo Freixo; descartado por sua “excessiva visibilidade”. Mostra como e quando foi feita a “opção por Marielle”, e os critérios adotados para tanto: mulher, negra, homossexual, de origem humilde, “mera vereadora”, sem expressão pública nacional. Mostra o choque de todos os envolvidos com a repercussão nacional e internacional – inesperada pelos mandantes e executores – do assassinato de Marielle. E apresenta as conversações entretidas pelos agentes julgados e condenados, após o crime, com vistas a ocultar provas e silenciar delatores potenciais.

    É possível que existam outros meliantes envolvidos nesse crime bárbaro? … Em especial: é possível que a família Bolsonaro tivesse ciência do crime? Inclusive, antes dele ter vindo a ocorrer? Que apoiasse a ação? Ou, pelo menos, que tenha colaborado no acobertamento dos réus? Claro que sim! … Ronnie Lessa – o assassino – é amigo de longa data do ex-Presidente e atual presidiário Jair Bolsonaro. Lessa é vizinho dos Bolsonaro no Condomínio Vivendas da Barra, no RJ. Lessa colaborou na captura de Jorge Luís dos Santos, que assaltou Bolsonaro em 1995, levando sua moto e uma pistola. O criminoso foi identificado, preso em uma operação relâmpago e apareceu “suicidado” dois dias após sua prisão. Segundo Bolsonaro, seu filho 04 – Jair Renan – teria namorado a filha do amigo e vizinho Ronnie Lessa. Pelo menos, essa foi a explicação dada para as “confusões” de Ferreira Mateus, ex-porteiro do Condomínio Vivendas da Barra, hoje “desparecido”. Segundo Mateus, no dia do assassinato de Marielle, o ingresso de Élcio de Queiroz (co-autor do crime) no condomínio teria sido autorizada pelo “senhor Jair”.

     Sem dúvida, esses elementos são, no mínimo, intrigantes. E mereceriam uma investigação detalhada. Mas a condenação dos irmãos Brazão como mandantes do crime, de Lessa e Queiroz como executores e de Rivaldo Barbosa por acobertamento não impede o aprofundamento das investigações. Pelo contrário: as estimula. Oxalá venham novas delações da parte dos condenados. Uma sentença – mesmo havendo transitado em julgado – não impede que haja revisão criminal. Se novas – e contundentes – provas forem apresentadas.

    O que realmente importa é o fato de ter vindo à luz as relações promíscuas entre o crime organizado e lideranças políticas do Estado do Rio de Janeiro. O julgamento e condenação de Domingos Brazão e de Rivaldo Barbosa é, também, o julgamento e condenação daqueles deputados que colocaram o primeiro no Tribunal de Contas do RJ e das lideranças políticas que colocaram o segundo na chefia da Polícia Civil desse Estado.

    Esse julgamento é um marco histórico; é uma verdadeira “revolução copernicana” no plano judicial e político nacional. A Polícia Federal, a Procuradoria Geral da República e o STF estão enfrentando os derradeiros resquícios do “coronelismo” e da “política dos governadores” no país. Como Victor Nunes Leal tão bem explicou em seu clássico Coronelismo, Enxada e Voto, o fundamento desse sistema político encontra-se no controle da polícia e do judiciário estaduais pelos governadores e seus poderosos aliados nos municípios e distritos eleitorais. Para Nunes Leal, o extermínio desse sistema de poder teria de passar pela imposição da supremacia (policial, investigativa, jurídica e política) do Estado Nacional sobre as Unidades da Federação. E foi a isso que assistimos no julgamento do caso Marielle. …

    Esse é um marco histórico na luta contra a impunidade e contra a promiscuidade de estruturas públicas regionais com o crime organização. Mas há quem ache isso pouco. … Que vergonha alheia que dá! Dessas e de tantas outras praticadas pela “esquerda grilo falante do mundo”. A sorte é que não se morre disso!


    Foto de capa: Eduardo Baptistão

    Sobre o autor

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    Carlos Águedo Paiva
    Economista, Doutor em Economia e Diretor da Paradoxo Consultoria Econômica.

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    Carlos Águedo Paiva

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