O mundo e sua desumanidade

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O mundo no qual passamos a viver não é apenas o da deterioração do clima e das outras ameaças para as novas gerações que vão habitar o planeta. O ambiente internacional mostra-se a cada dia mais irrespirável, os conflitos fazem parte do cardápio geopolítico e anunciam-se mais radicais para o futuro.

Em 2026, continuam os infindáveis conflitos armados. Esta semana, em 27 de fevereiro, dia em que escrevo este texto, o Paquistão declarou guerra aberta contra o Afeganistão e bombardeou Cabul, após meses de tensão na fronteira. A guerra na Ucrânia, que acaba de completar quatro anos sem data para terminar, destaca-se como a mais grave crise humanitária da Europa desde a Segunda Guerra Mundial. As estimativas do número de civis que já morreram nesse conflito variam entre oito mil, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) e vinte mil, de acordo com o que informa o governo ucraniano. Milhões de pessoas foram forçadas a abandonar suas casas e a economia global está a acusar os graves impactos de uma guerra em pleno território europeu.

Junto com a tragédia no Oriente Médio, onde ocorre um genocídio praticado pelas forças armadas de Israel e que já fez, em Gaza, mais de 40 mil mortos, os diversos conflitos regionais espalhados pelo mundo acenam para o que muitos veem como o prenúncio de uma Terceira Guerra Mundial. Outros dizem que ela já está em curso.

As ameaças

Uma frase atribuída a Albert Einstein reza que, se houver uma guerra nuclear, a próxima será com paus e pedras, pois as civilizações seriam reduzidas ao estado primitivo.

Os riscos de uma Terceira Guerra Mundial são complexos e calculados pelos diversos fatores interligados.

A existência de armas nucleares em diversos países, como Estados Unidos, Rússia, China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte, representa o risco de um conflito global. Um erro de cálculo ou um ataque nuclear acidental poderia desencadear uma guerra que seria devastadora.

As tensões geopolíticas em diversas regiões, como no Oriente Médio, Ásia Oriental e Europa Oriental, podem facilmente escalar para conflitos de maior escala, envolvendo potências internacionais.

A crescente dependência de tecnologias digitais torna os países vulneráveis a ataques cibernéticos sofisticados, com graves consequências económicas e sociais, e até levar a um conflito militar.

O crescimento de ideologias extremistas de direita, com ingredientes de populismo e nacionalismo, pode levar a um aumento da militarização e a uma política externa agressiva, fazendo crescer o risco de conflitos entre países.

Os grupos terroristas internacionais, a exemplo do Estado Islâmico, podem utilizar armas de destruição em massa, nucleares ou químicas, com grande número de mortes disseminando o terror e conduzindo a uma retaliação militar.

A escassez de recursos naturais, como água e alimentos, causada pelas mudanças climáticas, pode levar a conflitos internacionais na disputa por esses recursos, com o consequente risco de uma guerra global.

O desenvolvimento de armas autônomas e letais, impulsionado pela inteligência artificial, pode levar a uma nova corrida armamentista e aumentar o risco de uma guerra acidental ou não intencional.

A proliferação de notícias falsas e propaganda online manipula a opinião pública e gera desconfiança entre países, dificultando a resolução pacífica dos conflitos.

Conflitos espalhados

Embora a guerra na Ucrânia e a tragédia da Palestina dominem as manchetes, outros conflitos continuam em diferentes regiões, como no Oriente Médio, onde a guerra civil na Síria que, ao contrário do que diz a imprensa hegemônica, ainda não terminou. Já dura mais de dez anos e provocou uma crise humanitária com milhões de refugiados e deslocados internos. No Iêmen, uma guerra civil brutal alimentada por intervenções estrangeiras causa fome, doenças e devastação.

O continente africano é palco de vários conflitos armados, como na região do Sahel onde grupos jihadistas lutam contra governos e forças internacionais. No Sudão do Sul, a guerra civil entre facções rivais mergulhou o país na pobreza e na violência.

O Sahel é uma vasta região na África que separa o deserto do Saara, ao norte, das savanas tropicais mais úmidas ao sul (conhecidas como Sudão). O termo vem da palavra árabe sāḥil, que significa “costa” ou “margem”, que classifica a região como uma “orla” de vegetação que bordeja o mar de areia do deserto. Estende-se do Oceano Atlântico ao Mar Vermelho, ou seja, 5.400 km. Atravessa o Senegal, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger, Nigéria, Chade, Sudão e Eritreia.

Na Asia, a guerra civil no Afeganistão, após a tomada do poder pelo Talibã em 2021, gera instabilidade e insegurança. A disputa territorial entre China e Índia na região de Caxemira também é motivo de preocupação.

No México, a guerra contra o narcotráfico se intensifica, com grupos criminosos disputando territórios e aterrorizando a população. Na Colômbia, o conflito entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) ainda não terminou, apesar do acordo de paz de 2016.

As consequências

Um documento das Nações Unidas enumerou as consequências de todos esses conflitos:

Mortes e sofrimento humano: Milhares de pessoas são mortas e feridas em conflitos armados todos os anos. A guerra causa traumas psicológicos, fome, doenças e a perda de casas e bens materiais.

Crise humanitária: Os conflitos geram milhões de refugiados e deslocados internos, que precisam de abrigo, comida, água potável e cuidados médicos. A crise humanitária coloca em risco a vida de milhões de pessoas, especialmente crianças e mulheres.

Instabilidade política e econômica: Os conflitos armados fragilizam os países, dificultam o desenvolvimento econômico e social e podem levar à radicalização e ao extremismo.

Impacto global: As guerras e conflitos armados têm repercussões em todo o mundo, como o aumento do preço do petróleo e dos alimentos, a proliferação de armas e o risco de pandemias.


Foto de capa:Soldados paquistaneses patrulham perto da passagem de fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão em Chaman, em 27 de fevereiro de 2026, após combates transfronteiriços noturnos entre os dois países.| Abdul BASIT / AFP

Sobre o autor

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Celso Japiassu
Autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965).

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