A vida sob incertezas

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Texto do seu parágrafo (7)

Marlise Fernandes era uma camponesa adolescente, no início dos anos 1980, quando foi apresentada à Revolução Cubana. A futura líder do Movimento gaúcho das Margaridas encantou-se com a história do país e com a dos jovens guerrilheiros, que expulsaram da Ilha o ditador Fulgêncio Batista.  Ernesto Che Guevara, Fidel Castro e Camilo Cienfuegos entraram para a sua pequena galeria de heróis. Aos 17 anos, ela se prometeu viajar a Cuba. A promessa só foi cumprida recentemente. O que ela viu na Ilha foi “muito impactante”.  “Já no aeroporto José Marti se nota que os cubanos vivem sem luxo, de forma precária.” Ela confessa que chorou ao encontrar um país empobrecido, à beira do abismo social, político e econômico. Mas também teve momentos de grande alegria, proporcionados pela empatia dos cubanos, excelentes anfitriões.

Nas conversas com taxistas, funcionários de hotéis, restaurantes e museus ouviu o que todos os que têm viajado a Cuba, nos últimos tempos, têm ouvido: o país passa pelo pior momento desde a vitória dos revolucionários. Vive um pesadelo que não se compara ao Período Especial Em Tempo de Paz, vivido no início dos anos 1990, com o fim da União Soviética, a grande parceira comercial da Ilha, por 30 anos. O governo, então, liderado por El Comandante Fidel Castro, conclamou os cubanos a apertarem os cintos que, naquela época, ainda tinham. Apesar da falta de recursos, Fidel decidiu manter os investimentos em assistência social, saúde e educação. Na atual crise, as crianças estudam em casa, as prateleiras dos mercados estão vazias, as ruas estão cheias de lixo, as unidades de saúde e os hospitais sofrem com a falta de remédios.

Marlise conta que muitas das pessoas com as quais conversou afirmaram que a crise atual não se deve exclusivamente ao bloqueio econômico, mantido pelos Estados Unidos, desde 1962, e agravado pelo presidente Donald Trump, que impede a Venezuela de seguir fornecendo petróleo a Cuba e ameaça taxar os países que o fizerem. Para estes cubanos, a crise se deve muito à reforma monetária, realizada em 2021, que se revelou uma catástrofe e provocou aumento da inflação. Outro fator que contribuiu para as dificuldades de agora foi a queda registrada no turismo, a partir da pandemia. A situação só tem piorado com os apagões e a falta de combustível, que paralisa o país e aumenta o preço dos alimentos.

O que chamou muito a atenção de Marlise foram as reclamações de que não há mais  igualdade entre os cubanos. Queixam-se que uma parte da população é privilegiada e rica. “O serviço de táxi – diz Marlise – é uma concessão do Estado. Os taxistas recolhem para os cofres do país um X sobre o que ganham com seus carros antigos, dos anos 1950, necessitados de cuidados constantes.” O taxista que explora mais do que um carro encontra-se, na visão de seus colegas, num patamar de riqueza maior dos que possuem apenas um carro. O mesmo olhar recai sobre os que têm empresas de obras com cinco ou mais empregados.

As famílias de médicos também são descritas como privilegiadas. O privilégio começaria no acesso à Faculdade de Medicina.  Marlise conta: “Eles se perguntam por que uns são escolhidos para a Faculdade de Medicina e outros, não. Criticam o envio de médicos para o exterior, o que seria um privilégio, porque eles podem enviar dinheiro para suas famílias, que passam a ter mais recursos do que a média dos cubanos. E também reprovam a política de enviar médicos para outros países, porque eles fazem falta nos hospitais e nos postos de saúde da Ilha”.

Dados do OCDH – Observatório Cubano de Direitos Humanos, publicados pelo O Globo, revelam que sete entre 10 cubanos deixam de fazer pelo menos uma refeição diária, por falta de dinheiro ou por não encontrarem alimentos disponíveis. Outras informações estarrecedoras do Observatório: apenas 3% da população consomem, sem restrições, remédios existentes nas farmácias, 74% vivem com uma renda mensal equivalente a cerca de R$ 338,00, 78% querem emigrar ou aceitam a ideia de deixar Cuba, sendo os Estados Unidos o destino preferido de 30% deles.

Entre os interlocutores de Marlise (trabalhadores do setor turístico, acostumados a servir especiarias da culinária cubana aos turistas, enquanto almoçam apenas sopa por dois dias seguidos), há duas percepções importantíssimas: 1. não tem revolução que resista à falta de energia e de combustível e 2. se Fidel Castro (completaria 100 anos no dia 13 de agosto) estivesse vivo não estariam enfrentando o atual quadro de derrocada econômica, que traz de volta a insegurança alimentar. Acreditam que El Comandante saberia negociar com o presidente norte-americano. Falta confiança na atual administração revolucionária. Apesar disto, a maioria não aceita a possibilidade de intervenção dos Estados Unidos. Sentem-se fortes para enfrentar mais um novo e mais drástico Período Especial em Tempo de Paz.

Marlise voltou, como diz, com “um aperto no coração”, temendo que Donald Trump e seu grande incentivador e apoiador de um ataque a Cuba, Marco Rubio, decidam invadir a Ilha. “Isto seria um morticínio, um genocídio.” Até agora, no entanto, a estratégia de Trump e Rubio é provocar fome e revolta entre os cubanos, na esperança de que os próprios cubanos provoquem a mudança de regime na Ilha, que vive o socialismo desde 16 de abril de 1961, quando Fidel se referiu, pela primeira vez, ao caráter socialista da Revolução Cubana. Não importa para Trump, Rubio e seus seguidores quantos morram de fome, de desnutrição ou por falta de remédios.

A compaixão pelos cubanos, demonstrada por Marlise, não faz parte dos sentimentos dos gusanos nem de políticos como a deputada Maria Elvira Salazar, republicana da Flórida, que postou na sua conta do X: “É de partir o coração pensar na fome de uma mãe, em uma criança, que precisa de ajuda imediata. Este é precisamente o dilema brutal que enfrentamos como exilados: aliviar o sofrimento no curto prazo ou libertar Cuba para sempre”.

A verdade é que este dilema não existe para o grupo de Trump. Como diz a jornalista mexicana Daniela Pastrana, em um vídeo que circula nas redes sociais, o governo norte-americano quer aplicar em Cuba a mesma política empregada contra os moradores de Gaza: destruir hospitais, sistemas de transporte, escolas e serviços básicos. A diferença está na forma usada para aniquilar a Ilha. Contra Gaza foram usadas armas, enviadas a Israel. Contra Cuba, o aumento do bloqueio econômico, que já dura mais de 60 anos. Pela ordem, assinada por Trump, em 29 de janeiro, o país caribenho não pode receber petróleo. O país que se atrever a desobedecer o Imperador sofrerá sanções.

Em meio à incerteza do que acontecerá no próximo segundo, autoridades e imprensa incitam os cubanos a resistirem a mais esta prova a que estão sendo submetidos pelos Estados Unidos, pedem apoio internacional, falam sobre o desejo e esperança de que a paz seja mantida e lembram a afirmação do  presidente Miguel Díaz-Canel de que Cuba está aberta ao diálogo “com respeito pela nossa independência e soberania”.

Em entrevista ao francês L’Humanité, de 14 deste mês, Marlene Vazquez Pérez, diretora do Centro de Estudos José Martí, confirma que o país está vivendo “uma situação verdadeiramente alarmante e dolorosa”. “Ninguém nega que as privações sejam dolorosas, mas isso não significa que estejamos prontos para aceitar interferência estrangeira.” Segundo ela, “o povo cubano, em sua grande maioria, apoia sua pátria, sua nação, sua revolução e está ciente do que significou seu triunfo em 1959. O povo também sabe que não podemos esperar nada dos Estados Unidos além de agressão, traição, desprezo e racismo”.

No cubano Granma, de 17 passado, a Uneac – União de Escritores de Artistas de Cuba publicou um chamado à intelectualidade nacional e mundial para que ajudem os cubanos a se manterem firmes contra a “agressão inumana” do governo Trump. “Estar em Cuba hoje é defender a paz e o direito de todos os povos, por menor que sejam, ao exercício pleno de sua soberania”,  afirma a Uneac.

O discurso de paz e resistência não impede que, direta ou indiretamente, falem sobre a necessidade de se preparar para um ataque como o ocorrido na Venezuela. Se isto acontecer, a previsão é de resistência, de ir à luta, mesmo sabendo que as Forças Armadas dos Estados Unidos são consideradas as mais poderosas do mundo.

Numa de suas capas recentes, o cubano Juventud Rebelde estampou parte do poema Carta de una madre cubana a una madre norteamericana, de Jesús Orta Ruiz, sobre as consequências de uma suposta guerra entre os dois países:

Madre de ojos azules,

madre de Norteamérica:

 mis hijos son pacíficos,

trabajan, cantan, sueñan,

aman bajo la verde

sombra de sus palmeras.

Robert, tu joven rubio,

¡qué feliz se sintiera

jugando al béisbol con mi alegre Juan

de cabellera negra!

Sin embargo, los turbios mercaderes

que a tu pueblo gobiernan

quieren que Robert asesine a Juan

bajo su propio cielo, sobre su propia tierra.

Mi Juan es noble,

pero cuando le ofenden su bandera

salta como un león,

y sus palomas luchan como fieras.

De madre a madre te lo digo:

dile a tu hijo que no venga.

Los piratas que tocan esta Isla

se quedan en sus costas,

y vivos no se quedan.

Tú llorarías sin orgullo

lágrimas de vergüenza.

Por el contrario yo,

si Juan muriera,

como la madre de un patriota

tendría una orgullosa pena.

 (…)

Te prometo que Juan jamás será agresor.

Lo enseñé a respetar soberanas enseñas.

Pero si Robert viene y le dispara,

Juan tiene, mother Mary, derecho a su defensa

 (…)

De madre a madre te lo advierto:

Dile a tu hijo que no venga.


Foto de capa: Luiza Silva

Sobre o autor

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Núbia Silveira
Jornalista.

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