Se não crês em ti mesmo, em que acreditarás? Kobe Bryant.
Eu disse aqui em RED, quando falei de minha casa na praia, que Cidreira e eu mesmo sofremos do mesmo mal, baixa autoestima. Sempre achamos que os outros são melhores do que nós. Giorgio Nardone, no prefácio que faz ao livro de Roberta Milanesi, El engañoso miedo a no estar a la altura: estrategias para reconocer el propio valor (Herder Editorial, 2022) menciona um provérbio japonês que diz que “o medo de não sermos bons o suficiente nos faz dar um passo a cada dia”, sugerindo que esse medo pode ser um incentivo para nossa melhora. É um livro também de autoajuda, ok? Não sei se é bem assim quando pensamos numa praia ou em nós. Além disso, como menciona Nardone no prefácio, essa é uma máxima da cultura japonesa, onde o senso de disciplina e compromisso da sociedade é característica principal. Na praia de Cidreira, onde estou agora, sentir-se inferior às demais, como Capão, Xangri-lá ou Torres, é uma condição que acontece algumas vezes. Mas quando acontece, é sempre debilitante. É como se Cidreira tivesse fracassado como praia. As praias sempre ensinam um pouco sobre como nós somos. E são como um espelho cristalino de nossa sociedade.
A praia de Cidreira é muito distante dos mitos gregos que ousavam ir além de seus limites para realizar seus feitos. Estamos mais para o homem praiano ocidental que poderíamos imaginar a partir de Friedrich Nietzsche. Ele o apontava acomodado na vida confortável que construiu para si: sem uma vontade de crescer e desenvolver-se como pretendem os neoliberais de Camboriú, a cidade parece que parou no tempo. Mas a questão é: e precisa avançar mais? Sem prédios e arranha-céus em frente à praia, que apenas produzem sombra e demandam esforços hercúleos no saneamento, Cidreira mantém sua essência, mas por isso, desistiu de se desenvolver? Claro que não, pois a cada verão mais pessoas se aventuram nos empreendimentos locais. Embora não construam grandes prédios, os moradores estão presentes com seus novos pequenos comércios, lutando pela sobrevivência.
O mal hábito de comparar praias entre si
Por isso, quando comparamos praias entre si, quando surge uma discussão nas rodas de conversa sobre as qualidades e defeitos de nossas praias, o medo de não estar à altura das demais nos aflige. É uma espécie de patologia coletiva, um limitador de nosso próprio entendimento do que seja uma praia, um mal-estar que se constrói a partir de uma expectativa, um medo que se sente porque se vive ao redor e muito próximo de praias que encarnam o ideal de consumo do século XXI. Estou aqui apenas transpondo para minha experiência praiana algumas ideias do que Roberta Milanesi chama de Psicologia Breve, é verdade. A autora é psicóloga, psicoterapeuta e reside em Milão. A cidade é pior que Cidreira, porque não tem praia, mas os seus habitantes são felizes por contarem com o Idroscalo, uma espécie de lago artificial nos arredores a que chamam de Mar de Milão. Por instantes me senti superior em Cidreira e confesso que se tive o impulso de ignorar a obra porque a autora se defende como coaching, algo que abomino, por esse motivo decidi me arriscar com Milanesi, pois além de uma formação respeitável, ela me sugeria um roteiro de questões que valia a pena seguir e tive pena de alguém escrever bem e morar numa cidade sem mar. A minha tem. Então vejamos.
Primeiro, eu também confesso que sou um intelectual inseguro. Eu já escrevi mais de 26 livros, pesquisei, editei e os levei ao público por autopublicação; mesmo assim, penso que não sou um grande pesquisador, afinal, os realmente grandes autores estão em grandes editoras sérias e consagradas, como Fabrício Carpinejar e Martha Medeiros, não é mesmo? Eu sei que isso tem mais relação com o modo como se estrutura o mercado do livro no Brasil do que algum talento privilegiado que eu tenha ou não. Eu cheguei a escrever, tamanha minha insegurança, após receber um elogio do professor José Vicente Tavares ao meu último livro Porto Alegre: das origens à predação neoliberal (Clube dos Autores, 2026), quase um amplo agradecimento acompanhado de um pedido de desculpas. Ele havia dito que a obra é “brilhante”. Assim, um único adjetivo e já fiquei comovido. Não é para ser tanto, pensei, já me desculpando. Por isso, talvez tenha recorrido a Milanesi. Provavelmente eu preciso de terapia.
Minha pouca autoestima
Eu conheço inúmeros intelectuais como José Vicente Tavares, que são excepcionais no que fazem; eu, ao contrário, convivo com a sensação de não ser bom o suficiente e de não ser totalmente capaz de exercer meu ofício como se tivesse vindo ao mundo com uma falta, algo que me impede de fazer parte do panteão da intelectualidade, que é composta por inúmeros profissionais que julgo acima de mim e que parecem estar em crescimento. Sou historiador, doutor em Educação, mas eu me apresento apenas como ensaista, não é mesmo? Sinto-me sempre “menos que os outros” em minha área, e tenho sempre a sensação de pavor quando imagino, em pesadelos, sendo descoberto como “alguém que só faz relações da realidade que vive com aquilo que lê”.
Penso que isso seria uma espécie de dedo acusador em minha direção, mas não é exatamente isso que devemos fazer? Sei que acabei não correspondendo a um ideal de minha geração – estudar, fazer pós-graduação e se tornar professor universitário (o fui, mas temporariamente), o que muitos colegas meus fizeram com sucesso. Eu segui um caminho diferente, atuando em educação não escolar através de uma instituição pública, onde criei um projeto de ação educativa. E continuei pesquisando. O padrão imposto a minha geração era torna-se professor universitário, mas eu escolhi outro caminho ou só tive condições de seguir outro, assim como outros colegas excepcionais que conheci. É da vida.
É o mesmo com as praias, não? Moramos nela, mas temos medo de que ela não corresponda as expectativas dos outros. Com as pessoas, mas também com os lugares, existem padrões sociais impostos cada vez mais elevados ao mesmo tempo em que cada praia tenta fazer o seu próprio caminho. Com as redes sociais, você posta na praia, o que intensifica desproporcionalmente a necessidade de aparentar e o medo de ser julgado pelo lugar em que você está. As praias têm uma imagem pública como as pessoas, mas elas não são pessoas: elas são territórios, ou na melhor definição, paisagens. E Cidreira possui inúmeras paisagens tão belas como as demais praias para mostrar. Ou para fazer postagens no Instagram, ainda que eu não entenda ainda por que tantas pessoas dão tanto valor a isso. Melhor é escrever para as pessoas lerem. Pena: as pessoas só querem estar numa praia para fazer fotos.
Uma praia com pouca autoestima
O problema é quando você diz que tem casa em Cidreira e ouve seu interlocutor responder “Parabéns, mesmo assim”. Como “mesmo assim?”. Esse comentário já representa um julgamento que sugere que você vive em uma praia inferior em comparação com as outras, que são mais impressionantes devido aos seus condomínios luxuosos, ao comércio incessante, as ruas cheias de carros e pessoas que lembram as capitais e seu frenesi comercial onde os ricos ostentam seu poder. Você ouve um julgamento exterior, e não importa quantas vantagens você mencione sobre Cidreira, elas nunca serão suficientes para convencer quem é “de fora”. Isso não acontece com aqueles que moram aqui, é o contrário. Você sempre compara Cidreira com as grandes praias, identificando mais defeitos nelas, como “trânsito caótico” e “muito barulho”, do que nas características de Cidreira. O problema fica pior quando o julgamento vem de dentro de si próprio. Eu me lembro de, primeiramente, ter procurado uma casa em outras praias por achá-las melhores do que Cidreira. Eu mesmo vivi essa espécie de complexo de vira-latas praiano, e havia vivido nela na adolescência, mas adulto, sempre que procurava por imobiliárias, vinha a questão: “onde? Tramandaí, Capão ou Xangri-lá”, como se nosso litoral tivesse apenas três praias. E, meu juiz interior, julgava como essas pessoas enquanto procurávamos casas. Mas eu acabei mudando.
Essa visão era uma forma injusta de avaliar as praias. Não importa o que seus moradores façam; praias ditas “menores”, mas igualmente agradáveis, não figuram entre as cinco mais procuradas: ninguém diz “Oba, vou comprar uma casa em…. Quintão!” como se dissesse com orgulho “Vou comprar uma casa em Xangri-lá”. A imagem do lugar que você irá adquirir sua casa o precede, já está pronto no imaginário social, você é apenas um feliz ou infeliz destinatário da imagem. Não importa as reformas recentes das ruas de Cidreira, a preocupação do Prefeito em adquirir novos equipamentos, ou os novos empreendimentos que surgem nas principais avenidas do balneário; não importa o que seus moradores façam por sua praia, pois nada disso a fará suficiente ou melhor do que as outras. Esse sentimento de que você vive numa praia inadequada não é seu, é produzido pelas relações de imagem que servem a um mercado em expansão que lucra com os produtos que oferece em determinados balneários. O fato de a especulação imobiliária no litoral estar presente é apenas mais uma forma de reversão do capital e o problema é justamente esse, o de levar o modelo predatório urbano para as praias.
O medo das grandes praias
Mas se as pequenas praias tem medo de serem avaliadas, as grandes praias temem serem desmascaradas como tal, que descubram que, por trás de sua imagem de sucesso, há enormes problemas a resolver. Não tenho dúvida que quem tem esse medo é, em primeiro lugar, Camboriú. Aqui no Sul, atribuímos altas qualidades desejáveis a praias praticamente contiguas umas as outras. Capão aparenta ser uma praia muito melhor do que Cidreira, mas podemos apreciar tanto Cidreira quanto Capão se educarmos nosso olhar e soubermos onde estão suas riquezas e paisagens significativas. E nada é mais igualitário nessa suposta disputa de imagem do que o mar, que está presente de maneira igual para todas as praias. O que é necessário para se viver bem à beira-mar, além do próprio mar?
É desta revelação que as praias ditas nobres têm medo. Contudo, para quem mora em Cidreira, especialmente nos primeiros anos, você se sente inseguro ao apresentar essa praia como sua, temendo o sorriso irônico dos amigos e, em resumo, receando que eles olhem e perguntem se, de fato, você está em uma praia, questão eu coloquei no ensaio passado. Mas se você nem sempre pode buscar auxílio na psicanálise para um sentimento coletivo, não pode colocar sob o olhar de um analista um conjunto populacional, apenas o individuo, ainda assim é aqui que você tem as experiências em que você é humilhado, taxado de menor, e que são transferidas para a vida adulta em situações como esta. Somos desqualificados na infância como nos sentimos desqualificados na vida adulta, e projetamos isso nos lugares onde estamos. É como se a praia fosse algo seu que, assim como você, se sente incapaz de corresponder às expectativas. Mesmo em sua memória, as imagens de outras praias que você visitou se tornam mais marcantes, não porque sua infraestrutura seja superior, mas porque o que realmente as define é superior: a água cristalina e os peixes visíveis do alto.
A autoestima praística
Se a autoestima é a consideração que um indivíduo tem de si mesmo, como afirma Milanesi, eu entendo que os moradores de uma praia possuem pouca autoestima quando têm pouca consideração pelo lugar onde vivem. A autoestima pode ser positiva, como nos casos de Balneário Camboriú, onde seus moradores se sentem parte do que há de melhor em termos de urbanização de uma orla de praia, com seus arranha-céus à beira-mar; ou pode ser negativa, como no caso dos moradores de Quintão, que se sentem abandonados pelos poderes públicos. Mas nem uns nem outros tem esse sentimento indefinidamente, já que os problemas de urbanização da praia famosa tendem a tornar a sua experiência negativa, como eventuais atendimentos de pedidos de moradores de Quintão têm resultados positivos. Essa capacidade que temos de avaliar as praias em que moramos comparando-as entre si é sujeita a muitos erros, exatamente porque não vemos elas como as relações que estabelecemos com o mundo, com os outros. Nela, o imaginário do consumo capitalista da praia impera. Temos mostrado em nossos ensaios em RED o modo de predação da cidade. O que sugerimos é que as praias consideradas “da moda” são justamente as que seguem à risca o receituário da predação capitalista, transformando-se numa forma de destruição da praia. Interpretamos o valor de nossa praia com as referências impostas pelo modo de vida capitalista, que ele indica como o melhor, e não nos damos conta que essa subjetividade tem como único objetivo reforçar a própria acumulação, nunca a experiência de vida. Se trata de um modo de funcionamento da subjetividade capitalista que nos aliena exatamente do que uma praia deve ser, um espaço de fruição coletiva dos recursos naturais mais abundantes: o mar.
O que fazer?
Quando estamos com autoestima baixa, vamos ao psicanalista. Mas quando os moradores de uma praia têm autoestima baixa, o que fazer? Aqui, é claro, a praia é mais do que a realidade física; é o composto pela sociedade que habita a praia, esta sim, que pode ou não considerar Cidreira uma praia de valor. É natural que consideramos com alta estima, pois moramos nela; mas não é incomum aqueles que a desvalorizam: “é, ta cada vez pior por causa da “gentinha”, diz meu treinador, referindo-se a classes populares de “cultura duvidosa” que vem para a praia, fazem arruaça e brigas, produzem muita sujeita e depois vão embora. É verdade que isso é na alta temporada, mas também revela uma forma do preconceito estrutural com os pobres, já que ouço o barulho infernal também das casas dos ricos, mas eu também não posso deixar de considerar esta subjetividade como produzida pela indústria cultural, essa sim, responsável por um mercado de consumo musical de caráter duvidoso e que forma, portanto, um gosto duvidoso. Sim, eu também não gosto de música bate-estaca. E isso talvez me faça um pouco arrogante e antidemocrático, mas o que fazer?
O valor que atribuímos às nossas praias repercute diretamente na forma como as experimentamos e nas relações que temos com nossos vizinhos. Na psicanálise, procuramos as razões para o modo como a insegurança se manifesta na vida em sociedade, especialmente no convívio em uma praia. A autora enumera algumas estratégias que a mente tem para nos fragilizar. E eu as vejo quando penso que os moradores de Cidreira a consideram uma praia menor. A primeira estratégia é a relação que nos leva a superestimar ou subestimar alguma coisa. Se tememos que nossa praia perca na comparação com outras, também tememos a crítica que os moradores de outras praias podem fazer à nossa, o que pode nos levar a reagir com tristeza ou com raiva. Isso significa que superestimamos o que os outros dizem e subestimamos o que nós pensamos. Eu gosto de Cidreira pelo que ela é, e não a rejeito pelo que as outras praias são. Pensar nas praias dos outros antes das possibilidades da minha própria praia é que é o problema.
Relativismo praiano
A segunda relação é a que diz “sinto que Cidreira é inferior, portanto, isso é real.” Esse argumento acontece por uma força da subjetividade que não é apoiada em fatos. Você é tomado por uma sensação que provém de diversas origens e, nos termos de MIlanesi,“é como se nos puséssemos algumas lentes deformantes que alteram nossa percepção fazendo-nos acreditar em tudo aquilo que a confirma e não naquilo que as desmente.” Você vê a Cidreira tendo suas ruas pavimentadas, as áreas onde havia muita caliça junto ao mar serem cobertas de areia e cuidadas, mas ainda assim, acredita que só as demais praias estão melhorando e que a sua está parada.
Para a autora, esses mecanismos de funcionamento da rejeição terminam por desencadear o que ela chama de “profecias auto cumpridas”, quer dizer, você olha ao redor e não dá valor as discretas transformações da cidade e termina por acreditar na sua baixa autoestima praiana. Se você acredita que Cidreira não é uma praia tão significativa quanto Camboriú, tenderá a não valorizar as iniciativas que contribuem para seu desenvolvimento. O mesmo destino espera aquele que, sentindo-se inferior, se reduz e recusa de antemão a ideia de ser apenas mais uma praia, propiciando que se cumpra exatamente o que teme. Minha ideia é que as praias são diferentes, exatamente como são diferentes as pessoas. Eu chamo isso de relativismo praiano.
A evitação
Estruturamos nossa visão de pária das praias como a de nós mesmos. É como a percepção enganosa que tenho de mim mesmo, afinal, eu mesmo muitas vezes me sinto inferior aos demais. Esses mecanismos que fazem com que seja criada uma percepção enganosa do que é a praia de Cidreira, são chamados de mecanismos disfuncionais, diz Milanesi “justamente porque fazem com que o sujeito sofra porque ele involuntariamente cria as condições de seu sofrimento”. Se uma pessoa acredita que não está à altura das demais, uma população de uma praia do litoral gaúcho também pode acreditar nas diferenças que as separa das demais. A autora ainda enumera outra expressão ou reação à baixa autoestima que podemos ver na realidade praiana: a evitação. Você tem casa na praia de Cidreira, mas você evita ir. Não adianta não ir à praia pária para se seguir seguro indo em outra; você está apenas confirmando que o senso geral que diz que sua praia é inferior as demais. Somos os juízes implacáveis de nós mesmos e dos lugares que habitamos; não se trata apenas de estar atentos aos sinais enviados pelos outros, mas de buscarmos em Cidreira aquilo que os outros acusam nossa praia de ter: o medo de viver em um lugar inadequado para a nossa geração.
Mas talvez ainda haja uma maneira de enxergar essa baixa autoestima sob uma nova perspectiva. Em Decepcionar é um prazer (Herder, 2026), Laurent de Sutter nos provoca com um argumento no mínimo curioso. Ele parte da frase que dá título ao livro e que teria sido dita pelo filósofo Gilles Deleuze ao crítico Michel Cressole depois de ficar cansado de responder as acusações maliciosas, insinuações insidiosas e duplos sentidos que ele fazia sobre sua obra. A ideia de Deleuze é fazer uma provocação no sentido dado pelos juristas romanos, o do procedimento para levar um caso jurídico a ser resolvido pelo povo, permitindo que este julgasse coletivamente. Ao dizer a Cressole na sua cara que “decepcionar é um prazer”, Deleuze pretendia encenar “algo como um julgamento sobre uma forma de pensar que ele considerava indigna ou preguiçosa, baseada em expectativas”. Se Deleuze pretendia frustrar as expectativas de Cressole por considerar seu pensamento ruim demais, o mesmo pode ser dito em relação àqueles que consideram criticam Cidreira por não a considerem praia. Para quem mora em Cidreira, neste sentido, “decepcionar é um prazer”, pois ela decepciona aqueles que a julgam como uma praia menor, pois não é, como se ela também dissesse “que pensamento preguiçoso o seu, por acaso você me… conhece?
Não é comparar, é exercer poder
Como Sutter bem apontou, nunca foi uma questão de crítica a Deleuze, assim como de crítica a praia de Cidreira: sempre foi uma questão de poder. Quando vemos a construção de um discurso que reduz o horizonte de uma praia em benefício de outra, o que devemos é nos perguntar sobre a profundidade do seu significado. O exemplo do autor apresenta os efeitos da lógica da insignificância para um famoso filósofo, mas o aplicamos também a nossa praia. No seu sentido, a nossa lucidez está, justamente como ele afirma, em denunciar o discurso comparatista que considera algumas praias melhores do que outras. “Porque é assim que a expectativa funciona: ao projetar algo no futuro como possível destino, o que ela realmente sugere é a invalidação do passado, num movimento que é basicamente um bumerangue ressentido. A pessoa lúcida é aquela que sabe o que esperar”, diz Sutter. Não, Cidreira não precisa ter o mesmo desenvolvimento econômico de Camboriú, pois possui sua própria história. Seus moradores não são ressentidos. Eles sabem o que esperar de sua praia.
Penso em coisas que valorizam a praia de Cidreira para mim. Ela foi a praia de Paixão Cortes, uma referência nacional e com quem tive uma relação como morador de Cidreira, visitando-o e debatendo suas pesquisas. Ou penso no Guri de Uruguaiana, que mora em Cidreira, ou do cantor Humberto Gessinger, que tem casa na praia vizinha, Pinhal. Prefiro-os a ter como referência a algum jogador brasileiro famoso que tem casa em Camboriú e chega de helicóptero. De onde vem a posição da luta contra expectativas? Ela é, segundo Sutter, parte essencial do pensamento de Sêneca; na sua visão, a pessoa realizada recusa ceder às expectativas e devemos nos treinar para resistir a elas, pois, realizadas ou não, inevitavelmente levam o indivíduo à infelicidade. “A única coisa que depende de nós é aceitar que não podemos esperar tudo, educarmo-nos para não contar com as coisas imaginárias, resistir ao reflexo ingênuo de que podemos ganhar algo com algo que ainda não ocorreu. Devemos nos preocupar apenas com que existe quando existe”, diz o filósofo. O autor segue rigidamente a arte estoica de administrar a vida, onde não há lugar para a decepção. Não devemos pensar em algo que não aconteceu, pois não precisamos esperar nada de Cidreira além do que ela é. Aqueles que vivem em Cidreira resistem às expectativas, pois já são felizes porque ela é, numa expressão, sua praia. Seus moradores não esperam pela construção de grandes prédios, nem uma vida frenética de praia dominada pelo capital. Não podemos esperar tudo de uma praia, pois buscamos apenas a tranquilidade.
Por uma ética praiana
Não, não tenho expectativas; não estou numa praia menor simplesmente porque Cidreira não me decepcionou. Nunca depositei mais em Cidreira do que ela me ofereceu; é aqui que escapamos da lógica de nos deixar decepcionar e de sermos decepcionados. Sempre quis apenas uma praia tranquila para viver e ela é. A conclusão é que, como diz Milanesi, somos vítimas de expectativas que existem apenas em nossas mentes. A proposta radicalmente revolucionária na comparação entre praias é, na verdade, fugir da comparação, das expectativas e da frustração. Não podemos deixar que o modelo de desenvolvimento capitalista de outras praias dite o que Cidreira deve ou não ser. Devemos, isto sim, decepcionar as expectativas, forma de escapar dessa lógica que tende a homogeneizar também a vida na praia; e, nesse sentido, como diz Sutter, decepcionar seria um prazer.
Por isso viver na praia também exige uma atitude ética. Como coloca Corine Pelluchon em seu livro Ética da Consideração (Herder, 2024), a questão é porque temos tanta dificuldade em mudar nossos estilos de vida quando nosso modelo de desenvolvimento tem um notável impacto ecológico e social destrutivo. Sonhamos em um estilo de vida agitado junto ao mar que imita o dos grandes centros urbanos; no entanto, esse estilo já tem um efeito perverso em nossas vidas nas cidades. Por que deveríamos levá-lo para nossas praias? Ela se interessa por nossas motivações concretas e emoções que nos impulsionam a agir; eu reflito sobre as motivações concretas que nos levam a desistir de Cidreira, que deixa de ser uma praia de descanso e calma, onde os dias passam tranquilamente, para ser o que não é, uma praia agitada e voltada para o consumo. Não querer esse destino é tomar uma posição de valorização do que temos junto ao mar exige uma atitude ética, que Pelluchon chama de “ética da consideração”. Eu chamo isso de ética praiana. Valorizar a praia onde se está, desprezar os impulsos que o capital tenta impor em nossa subjetividade. Ela se inspira em antigas tradições morais para fundamentar sua ética da consideração, a humildade e a vulnerabilidade, exatamente os valores que me fazem valorizar minha vida em Cidreira: uma existência modesta, com certeza, e até vulnerável – nem todos os serviços estão disponíveis – mas uma praia boa de morar como tantas outras. Isso é minha transcendência, movimento que permite meu vínculo com meus vizinhos, meu pertencimento a uma praia e, portanto, um lugar onde meu conhecimento de seu valor é ponto de partida de uma vida feliz.
Foto de capa: Secretaria do Turismo, Esporte e Lazer





