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Para Miguel e Benício… Crianças… Com todo carinho, respeito e afeto!

Na 5ª feira, por essa Itumbiara, por essa beira de rio, acordamos, todos nós, assustados, sobressaltados, impactados pela crueza, pelo horror e torpor de um pai – Talles Machado – e que em um extremo absurdo, desmedido e indizível de desequilíbrio, ódio e insanidade, em função de assim dita, traição, mata, sacrifica os dois filhos pequenos e indefesos e como ato derradeiro dessa e que já é a pior tragédia familiar da história dessa cidade, se mata.

Reparem… Foi momento muito doloroso, de muito sofrimento e angústia individual e coletiva.

A cidade, em pleno e ativo dia de trabalho, se amorfina, se amiuda, fica quieta, discreta, sentida. Isso fora visto, percebido no seu trânsito, no fluxo de pessoas, na baixa frequência dos movimentos da cidade e que marca a vida urbana e, sobretudo, no olhar sempre franco e sincero de seu povo… Um povo simples, trabalhador e caipira.

Em um parafraseio de Zuenir Ventura, foi “dia que não terminou”.

Vejam bem… Esse infame e inacreditável dia está aqui, presente, vivo, quente, ardente, impetuoso e invasivo como um espectro demoníaco a tomar de assalto nosso juízo, nossas lembranças, recordações e sensibilidades.

Já habita, já reside em nós um fantasma, uma sombra… É o vulto frio e sombrio da injustiça, da covardia, da vilania familiar e da indignação impotente, reduzida, capada de ação.

Eis o duro e penoso fardo e que estamos, aceitemos isso ou não, condenados a carregar, a arrastar pelo resto de nossas vidas.

O crime de Talles é o crime de um povo, de um tempo, de uma tradição, de uma cultura “macho-centrada”, de um cotidiano feito, montado e forjado a partir disso e que estudiosos e estudiosas classificam como “patriarcado”.

Essa dimensão não é abstração, não é uma retórica analítica, uma hermenêutica de fundo sociológico e antropológico a investigar as facetas do nosso machismo terceiromundista.

É real como fenômeno e se espraia, se lança por todas as dimensões da vida humana, gera formas próprias de afeto, percepção, interação e alienação.

Isso… O multi-mundo do patriarcado dá forma para seus próprios e específicos padrões de alienação.

Por sinal, essa alienação é cultivada, por exemplo, na cultura do “agro” e tão potentemente desenvolvida em Itumbiara e por todos os vales, chapadas e planícies do sul goiano; está na decadência musical de certo “sertanejo” que objetifica, coisifica mulheres, está na política local e institucional e que nunca e jamais tratou ou discutiu a “conditio” feminina em espaços urbanos/rurais do agronegócio.

Talles é um assassino brutal, impiedoso e nos manda recados. Nos mostra de fio a pavio de que o machismo nosso e de cada dia não tem limites, não respeita condições, laços sanguíneos ou de afetos e que nesse momento, segue sendo alimentado, fermentado e em breve, estará pronto para novas investidas.

O Brasil é um dos maiores assassinos de mulheres do mundo… Mata mais do que qualquer país africano, do que o “temido e odiado” Irã e bem mais do que qualquer nação árabe.

Matamos tantas e tantas mulheres que novas leis femininas e feministas estão surgindo… Um novo urbano, em função dessa tragédia cultural e cotidiana, desponta. Daí, são criados batalhões femininos, viaturas “Maria da Penha”, ônibus de exclusivo uso feminino; em grandes cidades como Curitiba, São Paulo ou Rio de Janeiro, já existem parcelas de trens e metrôs destinadas às mulheres.

Por que? Porque matamos…

Matamos sem parar! Matamos de manhã, de tarde, de noite e mesmo quando não matamos… Matamos !

Matamos pela indiferença, pelo descaso e pela ignorância ante a um flagelo continental e que tem devastado com qualquer possibilidade civilizada de convivência.

Ora… Um “fora” da namorada e ela está morta; o rapaz vaidoso quer paquerar a moça e na recusa, ele lhe atinge com quinze facadas; o outro chega em casa bêbado e, sem pestanejar, estrangula a esposa e que apenas dormia.

Matar é cultura! Mulher é motivo porque não traz motivo para ser morta a não ser o fato único de ser mulher.

A tragédia que envolve Itumbiara está longe de ser contada, traduzida ou demonstrada e pessoalmente, sinto que essa desgraça ficará sem explicação por um bom tempo…

Faço e sugiro o que aprendi na minha vida profissional e acadêmica e busco, quem sabe, fazer a “genealogia desse sangue”… Proponho irmos na pista que nos leva às origens, ao ventre dessa construção cultural, dessa convenção e que todos, de uma maneira ou de outra, garantimos forma, ossatura, musculatura e fizemos andar.

É justamente nesse processo que iremos verificar todo um largo e complexo ordenamento ético e moral de fundo católico e lusitano, branco, de classe média, alimentado e soerguido pela posse, sobretudo, de terras, recursos naturais e recursos públicos e…

Voilà …

…Aí está um padrão cultural e societário assentado, todo ele assentado no risco, na propriedade, inclusive de vidas humanas e, claro, na morte.

Ao fim e como não poderia deixar de ser, essa tríade fatal, corrosiva e mortífera fora alimentada, vitaminada e energizada pelo neofascismo hodierno e que, como bem sabemos, fincou, afundou uma das suas patas fetidas no agronegócio brasileiro.

O monstro está presente e, por sinal, não dispensa da vida de nossas crianças, por isso… Protejam as crianças, resguardem vossos filhos; saibam, aprendam a conduzir conflitos e diferenças; ponderem em vossas certezas, equilibrem vossas posições, oposições e intervenções.

De novo… Protejam as crianças porque, ao que tudo indica, esse engenho cultural de muito ódio e ressentimento segue girando e sem prazo para ser desligado.

A esse respeito, estamos todos vendo o que está sendo plantado e estimulado nas redes sociais acerca da mãe das crianças assassinadas, Sarah… E que precisará de muita ajuda!

Certo é que essa coisa cultural de sal, fel e muito ódio precisa ser desmantelada!

E já!


Foto de capa: Reprodução/Redes sociais

Sobre o autor

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Angelo Cavalcante
Economista e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara. E-mail : angelo.cavalcante@ueg.br

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