A vulgar elite brasileira

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Nem todas as elites são produtivas para a sociedade; algumas atuam como agentes de crescimento, enquanto outras concentram-se em extrair privilégios e enriquecer às custas do Estado, fenômeno conhecido como rent-seeking. Neste contexto, a elite brasileira enquadra-se, historicamente, na segunda categoria, caracterizando-se por práticas que não estimulam inovação nem competitividade, mas sim manutenção de vantagens obtidas por compadrio, regulamentações e incentivos estatais.

Tradicionalmente, a sociedade brasileira sempre foi dominada por grupos que buscam renda fácil e privilégios, em vez de investir em educação, tecnologia ou produtividade. As elites dos países desenvolvidos promovem desenvolvimento: criam empregos, fomentam inovação, fortalecem instituições e estimulam competitividade. Já as elites de baixa da periferia do capitalismo concentram-se em obter vantagens políticas e econômicas que não dependem do mérito ou do desempenho de mercado. No Brasil, prevalece uma elite rentista que prospera mediante incentivos governamentais, como subsídios, barreiras regulatórias e contratos favorecidos, um modelo que, ao longo do tempo, distorce os incentivos econômicos e perpetua a desigualdade.

Para entender o fenômeno, eu relaciono a elite brasileira à teoria do rent-seeking, conforme estudada por economistas como Gordon Tullock e Anne Krueger. Nesse conceito, grupos privilegiados procuram extrair riqueza por meio da manipulação de regras ou políticas públicas, em vez de gerar valor real. No Brasil, esse comportamento se manifesta em práticas como monopólios protegidos, concessões governamentais, isenções fiscais seletivas e legislações que favorecem setores específicos em detrimento da concorrência. Essas práticas têm efeitos sistêmicos negativos, reduzindo produtividade, desestimulando o investimento e consolidando privilégios de poucos em detrimento do bem-estar geral da sociedade, principalmente, dos menos assistidos.

Contextualizo as causas institucionais e culturais para a predominância de elites rentistas no Brasil. Entre elas estão: instituições políticas frágeis, alta complexidade regulatória, baixa accountability e a cultura política voltada para o curto prazo. A educação estabelecida como projeto de fracasso, como bem colocava Darcy Ribeiro, e o populismo do discurso extremamente frágil intelectualmente, principalmente em temas de cientificidade, contribuem para a manutenção desse modelo, ao criar cidadãos alienados.

Acemoglu & Robinson, autores de Por Que as Nações Fracassam, defendem que instituições inclusivas promovem desenvolvimento econômico, enquanto instituições extrativistas concentram poder e riqueza em uma elite restrita. Para os autores, o Brasil exemplifica o caso de um país com instituições extrativistas parciais: regras que favorecem certas elites e desencorajam concorrência e inovação.

Em síntese, uma crítica à elite brasileira contemporânea, caracterizada como “nobre rentista”: aparentemente respeitável e bem posicionada, mas essencialmente dedicada a manter sua posição por meios que não geram progresso coletivo. A recuperação do Brasil exige não apenas reformas econômicas, mas uma transformação cultural e institucional, fortalecendo o Estado de direito e promovendo instituições que recompensem a criação de valor real.

O baixo desempenho global do país não decorre apenas de fatores externos ou históricos, mas também da predominância de uma elite rentista, cuja lógica de extração de privilégios compromete o crescimento sustentável e perpetua desigualdades. Grupos pequenos, altamente coordenados, que detêm recursos humanos, financeiros e de conhecimento, capazes de influenciar e moldar as instituições e as leis e o Congresso, determinam o desenvolvimento humano e econômico do país, orientando comportamentos individuais e coletivos por meio das oportunidades e restrições impostas pelas instituições. As elites de alta qualidade (não é o caso brasileiro) criam valor para a sociedade: investem em inovação, produtividade e crescimento sustentável. As elites de baixa qualidade, por outro lado, operam em modelos de negócios baseados na extração de valor, buscando benefícios próprios às custas da sociedade, principalmente dos mais pobres.

A predominância das elites rentistas brasileiras ao fenômeno do rent-seeking busca privilégios estatais, proteções regulatórias e contratos favorecidos em vez de competir nos mercados. Isso se mostra em práticas como monopólios protegidos, barreiras regulatórias, concessões governamentais seletivas e isenções fiscais privilegiadas. O resultado é que boa parte da riqueza gerada não provém da criação de valor econômico, mas do favorecimento político. Para o cidadão comum, isso se traduz em produtos e serviços mais caros e de qualidade inferior.

A explicação para a manutenção das elites rentistas no Brasil envolve tanto fatores institucionais quanto culturais. A fragilidade das instituições políticas e regulatórias, combinada com um sistema eleitoral arcaico, é responsável por criar incentivos perversos: eleitores acabam escolhendo entre elites de direita preocupadas em manter seus privilégios, em detrimento da sociedade.

Outro fator crítico é a falta de ensino de qualidade que reduz a capacidade do país de formar cidadãos críticos, capacitados intelectualmente, empreendedores e aptos a participar efetivamente de mercados competitivos e do debate político, económico e social.  A nobre elite rentista passa a ser um grupo respeitável e sofisticado, visto como o ideal a ser atingido pelos menos favorecidos.  A transformação do país depende de mudanças estruturais e culturais consideráveis, incluindo reformas institucionais, fortalecimento do Estado para a promoção de educação de qualidade e incentivos para que as elites atuem na criação de valor, em vez de apenas extrair riqueza da sociedade e dos menos favorecidos. O país sempre foi um “paraíso do rent-seeking”. Desde o período colonial, estruturas econômicas e políticas favoreceram elites que buscavam privilégios em vez de competitividade. Ao longo dos séculos, essa cultura consolidou-se, criando padrões de comportamento que continuam a influenciar a política, a economia e a sociedade brasileira atual.  

A crítica à “nobre elite rentista” brasileira, portanto, não é um ataque a indivíduos específicos, mas a um padrão sistêmico de organização do poder. Um padrão que combina educação insuficiente, discurso público empobrecido, fragilidade institucional e incentivos econômicos distorcidos. Enquanto esse arranjo persistir, reformas superficiais produzirão apenas ajustes marginais.

A recuperação do país depende da substituição progressiva de instituições extrativistas por instituições inclusivas, no sentido proposto por Acemoglu e Robinson: regras estáveis, concorrência aberta, proteção de direitos de propriedade, igualdade perante a lei e ampliação real de oportunidades. Isso exige tempo, coordenação e, sobretudo, capital humano qualificado.

Ou seja, a educação como projeto de fracasso e o populismo intelectualmente frágil não são fenômenos isolados; são engrenagens de um mesmo mecanismo de reprodução de poder. A superação desse ciclo demanda não apenas indignação retórica, mas redesenho institucional deliberado e investimento consistente em formação intelectual de alta qualidade. Sem isso, o país permanecerá aprisionado a um equilíbrio de baixa produtividade, alta desigualdade e crescimento medíocre, sustentado por elites que prosperam não pela criação de riqueza, mas pela sua apropriação.

Consistentes com a manutenção de instituições extrativistas. Quando a escola não forma indivíduos com capacidade analítica, domínio lógico-matemático, compreensão histórica crítica e letramento científico robusto, ela não apenas falha pedagogicamente, ela cumpre uma função sistêmica: limita a mobilidade social, reduz a capacidade de fiscalização do poder e enfraquece a competição por posições de liderança.

A precariedade educacional brasileira não é acidental; ela está funcionalmente alinhada a uma estrutura de poder que depende de assimetrias cognitivas. Sociedades com elevado capital humano tendem a exigir maior accountability institucional, transparência orçamentária, avaliação de políticas públicas baseada em evidências e racionalidade técnica na formulação legislativa. Já sociedades com baixa formação crítica tornam-se terreno fértil para retórica simplificadora, soluções mágicas e narrativas emocionalmente mobilizadoras, mas intelectualmente frágeis.

É nesse ponto que o populismo discursivo desempenha papel central. Quando o debate público se desloca da racionalidade argumentativa para o apelo simbólico, identitário ou moralista, temas de alta complexidade, como política fiscal, desenho regulatório, reforma administrativa, política industrial, governança federativa ou metodologia científica, passam a ser tratados de forma superficial. O resultado é um ambiente político em que a qualidade das decisões perde relevância frente à capacidade de mobilização emocional.

O enfraquecimento da cientificidade no discurso público é grave. A desvalorização do método científico, da análise empírica e da avaliação baseada em dados compromete a capacidade do Estado de formular políticas eficazes. Quando a evidência empírica é substituída por opiniões rasas ideológicas, a crença pessoal ou conveniência política, o ciclo de políticas públicas torna-se errático, ineficiente e frequentemente capturado por grupos de interesse, costumas no Brasil.

A ausência de uma cultura científica ampla facilita a disseminação de desinformação.  Essa vulnerabilidade cognitiva amplia o poder de elites que operam por meio de narrativas “convenientes”, principalmente pelas redes sociais, obscurecendo relações de captura regulatória, subsídios regressivos e benefícios concentrados. A manutenção de uma elite rentista vive desse ambiente. O rent-seeking prospera quando os custos difusos das políticas são invisíveis à maioria e os benefícios concentrados são politicamente organizados. Grupos pequenos e altamente coordenados, com acesso a recursos financeiros, jurídicos e comunicacionais, conseguem influenciar legislação, moldar regulamentações e direcionar políticas públicas em seu favor. Já a maioria, que arca com os custos pulverizados dessas decisões, carece de informação, organização e instrumentos institucionais para reagir.

A educação deficiente contribui diretamente para essa assimetria organizacional. Sem formação econômica básica, grande parte da população não compreende os mecanismos de transferência implícitos em subsídios, regimes tributários diferenciados ou barreiras regulatórias. Sem formação institucional, não entende como funcionam agências reguladoras, processos legislativos ou mecanismos de controle. Sem formação científica, não consegue avaliar a consistência técnica de propostas públicas.

O populismo, por sua vez, fornece o brilho narrativo que legitima o arranjo. Ele cria antagonismos simplificados, “povo versus elite”, “mercado versus Estado”, “técnicos versus cidadãos”, que obscurecem a complexidade real das estruturas de poder. Paradoxalmente, muitas vezes o discurso populista que se apresenta como anti-elite termina por fortalecer elites rentistas já estabelecidas, ao deslocar o debate da reforma institucional para disputas simbólicas.

Essa dinâmica produz um círculo vicioso institucional. Instituições parcialmente extrativistas geram baixa competição e baixa produtividade. Baixa produtividade reduz crescimento econômico sustentado. Crescimento limitado restringe investimento em capital humano de qualidade. Educação precária perpetua baixa exigência institucional. E assim se retroalimenta o sistema.

Além disso, há um componente cultural relevante. Ao longo da história brasileira, consolidou-se uma percepção de proximidade entre poder político e privilégio econômico. O sucesso frequentemente não é associado à inovação disruptiva, à eficiência produtiva ou à meritocracia competitiva, mas à capacidade de acesso a redes de influência, contratos públicos, incentivos fiscais e proteção regulatória. Esse padrão molda expectativas individuais e coletivas. Jovens talentosos, em vez de direcionarem energia para empreendedorismo produtivo ou pesquisa científica, podem perceber maior retorno em carreiras que ofereçam proximidade com o Estado e suas estruturas distributivas.

O resultado macroeconômico é um desvio de alocação de talentos. Em vez de capital humano ser direcionado para atividades de alta produtividade marginal, ele é absorvido por atividades de intermediação política e jurídica voltadas à captura de renda. Esse fenômeno reduz o dinamismo inovador e compromete o potencial de crescimento de longo prazo.

A crítica não é apenas moral; é estrutural. Trata-se de um problema de incentivos. Quando o sistema recompensa a extração de valor mais do que a criação de valor, agentes racionais adaptam seu comportamento a essa estrutura de recompensas. Reformas pontuais, isoladas e desarticuladas tendem a falhar porque não alteram o equilíbrio institucional. Superar esse modelo exige uma transformação educacional, institucional e cultural. No plano educacional, é imprescindível priorizar alfabetização plena, domínio matemático, pensamento crítico, metodologia científica e educação cívica baseada em funcionamento institucional concreto. No plano institucional, é necessário ampliar a transparência, fortalecer mecanismos de accountability. A previsibilidade jurídica e a estabilidade regulatória são condições para deslocar incentivos do rent-seeking para o investimento produtivo.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

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Luiz César Silva
Pós-doutorando em Economia pela Universidade do Porto; Doutor em Administração Pública pela Universidade do Minho (Portugal), Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro – Escola de Governo – FJP, Especialista em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e Economista pela Universidade Católica de Petrópolis – UCP. É Professor de Administração e Gestão Pública no Instituto Politécnico de Bragança, Escola de Administração Pública, Comunicação e Turismo de Mirandela (EsACT-IPB). Lecionou no Departamento de Relações Internacionais e Administração Pública da Universidade do Minho. Atualmente, é membro do Comitê Científico da revista “Public Administration Research: Canadian Centre for Science and Education”.

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