Os anos de 2024 e 2025 foram oficialmente os mais quentes da história. O verão de 2025/2026 já apresenta ondas de calor mais longas e mais intensas no Hemisfério Norte. E o inverno é de cheias torrenciais junto com recordes de frio no Hemisfério Sul. São temperaturas que afetam o bem-estar geral, a saúde pública e causam prejuízos à agricultura, que alimenta as populações. As cidades argentinas de Bahía Blanca e Mar del Plata foram atingidas por tempestades intensas, com ventos e chuvas torrenciais que causaram destruição e deixaram milhares de pessoas desabrigadas. Assim como em Portugal, onde comboios de tempestades com nomes cristãos abalaram o país, inundaram cidades e tiraram vidas.
Na Amazônia brasileira os níveis dos rios caíram a recordes históricos, afetando o abastecimento de água, a navegação e o atendimento de saúde em comunidades ribeirinhas. A estiagem provocou a morte de animais e o colapso de ecossistemas. Em seguida à estiagem sobrevieram enchentes avassaladoras afetando 530 mil pessoas em 40 dos 62 municípios do Estado do Amazonas. O Rio Negro, em Manaus, a capital, atingiu 30 metros, numa época em que águas já estariam baixando.
Em julho do ano passado, a região de Texas Hill Country, no estado do Texas, um dos mais negacionistas dos EUA, foi palco de uma das piores tragédias climáticas de sua história, causada por enchentes repentinas no Rio Guadalupe. Cerca de cem pessoas morreram, incluindo mais de 20 crianças que estavam num acampamento de férias. Bairros inteiros foram inundados, com centenas de casas destruídas.
Os trágicos incêndios na Grécia, na Itália e em Portugal no verão passado, são um sinal de que não está longe a paisagem de uma Europa árida e desértica. A seca, que era um fenômeno típico nos países do Sul europeu, alastra-se hoje para o Centro e o Norte, países nórdicos e do Leste do continente. Aponta-se um crescente déficit de humidade no solo mesmo quando chove. Ou então os solos enxarcados favorecem as cheias.
A catástrofe ronda o planeta. Enquanto as autoridades mais conscientes não escondem sua preocupação e o seu medo do que está por vir. “A era do aquecimento global acabou, disse o secretário geral da ONU Antônio Guterres. Começou a era da ebulição global”. Os termômetros já acusam mais de cinquenta graus centígrados em algumas regiões do planeta. O recorde de calor do mês de julho de 2024 foi assinalado como o mais dramático de que se tem notícia desde que se começou a fazer registros da temperatura na Terra. Os dados foram confirmados pelo Copernicus, programa de observação da terra da União Europeia.
Bolsonaro
Em todos os encontros oficiais para tratar do clima, nos editoriais da imprensa, em todas as discussões sobre o assunto e mesmo diante da opinião pública internacional, o Brasil, durante o governo Bolsonaro, foi condenado como um grande vilão, um dos maiores responsáveis pela ameaça à vida no planeta. A Europa chegou a ameaçar com a rejeição do acordo comercial com o Mercosul, depois mais de vinte anos de negociações, por causa da posição do Brasil diante dos problemas do meio ambiente. A condenação tem como causa não apenas a destruição das florestas, dos rios e dos pântanos criadores, mas também pela indecente posição do governo Bolsonaro diante de um problema que o mundo inteiro considera muito grave porque se refere à própria sobrevivência das espécies, entre elas a humana. Em 2019, na Cimeira do Clima, em Madrid, o Brasil bloqueou a edição do documento final com as resoluções do encontro, que só foi publicado após longa discussão. Os representantes brasileiros, liderados pelo então Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, recusavam-se a aceitar parágrafos que falavam do uso da terra e da poluição dos oceanos. Tiveram de ser pressionados pelos outros países presentes para finalmente assinarem o documento. Desde a posse do Governo Lula, respira-se uma atmosfera de distensão nos foros internacionais.
Os negacionistas, aqueles mesmos que creem na terra plana, que são contra as vacinas e alinham-se à extrema direita política, negam as ameaças climáticas.
As horas que faltam
Algumas vezes já mencionei aqui um relógio que não informa as horas (https://climateclock.net/). Exibe uma contagem decrescente e avisa quanto tempo resta para o ponto de não retorno, quando de nada adiantará qualquer esforço para evitar a destruição do mundo tal como a humanidade o conheceu até agora. Porque talvez não exista mais a humanidade.
O relógio da Union Square mostra o tempo que resta ao planeta. Se forem mantidas as emissões de carbono nos níveis de hoje, dentro de poucos anos a temperatura vai subir 1,5 graus Celsius e tornará insustentável a vida na Terra. A ONU declara que as alterações climáticas representam uma emergência sem precedentes. Nunca a destruição foi tão rápida e a comunidade internacional está falhando no combate a essa crise. Os últimos cinco anos foram os mais quentes de toda a lembrança humana e a temperatura média aumentou quase 1 por cento. A Organização Mundial de Meteorologia – OMM – acredita que, na trajetória atual, o mundo caminha para um aumento de temperatura de 3 a 5 graus Celsius até o final do século.
O relógio do fim do mundo já foi reproduzido em Berlim, Seul, Roma, Glasgow e Paris. Gan Golan e Andrew Boyd, responsáveis pelo projeto, pretendem incluir outras grandes cidades porque a humanidade não deve esquecer a ameaça sob a qual está vivendo. Eles dizem que o tempo marcado não significa o prazo para fazer alguma coisa. Pelo contrário, dizem que a ação deve ser imediata pois as alterações climáticas já estão presentes.
O degelo
A Expedição Mosaic, que explorou o Ártico durante 389 dias a bordo do quebra-gelo alemão Polarstern, defrontou-se com uma surpresa: faltava gelo no Polo Norte. O líder da expedição, Markus Rex, disse que “se as alterações climáticas continuarem como estão, em algumas décadas teremos um Ártico sem gelo no verão”. E acrescentou que viu apenas uma calota derretida, fina, com lagos a perder de vista. Voltou com uma certeza: “o Ártico está dez graus mais quente que há vinte e cinco anos”.
Já Antje Boetius, diretor do instituto alemão Alfred-Wegener, que coordenou a expedição, disse que a placa de gelo polar tem metade da espessura que tinha há 40 anos.
O Conselho de Direitos Humanos da ONU publicou seu relatório destacando que os países mais pobres serão os mais afetados pela fome e pelas doenças que se intensificarão com as mudanças climáticas.
O Acordo de Paris, um protocolo em que 194 países se comprometem a reduzir a emissão de gases poluentes, foi assinado em 2015 e está sob ameaça de fracasso quando o segundo maior emissor de gases poluentes, os Estados Unidos, responsáveis por quase 18% da poluição mundial, retiraram sua assinatura em 2020, no governo Trump, voltaram a assinar com o governo Joe Biden e tornaram a se retirar neste segundo mandato Trump.
O tempo se esgota para a possibilidade de vida num planeta Enlouquecido.
Foto de capa: MetSul Metereologia





