Quando a permanência no centro do poder se transforma em isolamento
Há momentos em que uma trajetória individual deixa de ser apenas biografia e passa a representar um impasse institucional. O que hoje envolve o ministro Dias Toffoli não é apenas uma controvérsia jurídica, nem um ruído político passageiro. É a exposição de um esgotamento. E, quando um ministro do Supremo Tribunal Federal passa a operar sob questionamento contínuo, o problema deixa de ser pessoal. Torna-se estrutural.
Toffoli sangra — e sua permanência no centro da Corte parece cada vez mais difícil de sustentar.
Do operador político ao magistrado sob cerco
A história de Toffoli no Supremo sempre esteve marcada por controvérsias. Indicado por Lula em 2009, após trajetória como advogado do PT e da AGU, sua nomeação já nasceu sob o signo da politização. Mas, ao longo dos anos, o ministro buscou construir uma identidade institucional própria, transitando entre posições distintas e tentando afirmar-se como figura de equilíbrio dentro do tribunal.
O problema é que o Supremo mudou. E o ambiente político também.
Nos últimos dez anos, o STF deixou de ser apenas instância constitucional para se tornar epicentro da disputa política nacional. A Lava Jato, o impeachment de Dilma, a prisão e posterior libertação de Lula, os embates com o bolsonarismo e as investigações sobre ataques à democracia ampliaram exponencialmente o protagonismo da Corte.
Nesse cenário, ministros deixaram de ser apenas intérpretes da Constituição e passaram a ser atores permanentes do conflito político.
Toffoli nunca conseguiu escapar completamente dessa ambiguidade.
O peso das decisões passadas
Parte da situação atual decorre da própria trajetória do ministro. Decisões controversas, articulações internas pouco transparentes e movimentações que sempre flertaram com a lógica da conciliação política acabaram por desgastar sua imagem tanto à direita quanto à esquerda.
Para setores progressistas, pesam lembranças de momentos considerados excessivamente lenientes com forças conservadoras. Para setores conservadores, o incômodo reside na anulação de decisões da Lava Jato e na reconfiguração de entendimentos que afetaram diretamente lideranças políticas.
O resultado é paradoxal: Toffoli tornou-se alvo em múltiplas frentes.
Em política, a pior posição é não ter base estável de sustentação.
A insustentabilidade como fenômeno institucional
O ponto central não é avaliar se as críticas são justas ou desproporcionais. O que importa é observar que a autoridade de um ministro do Supremo depende, em grande medida, da percepção de estabilidade institucional ao seu redor.
Quando essa percepção se deteriora, a permanência no cargo pode tornar-se formalmente garantida, mas politicamente fragilizada.
O Supremo vive um momento de hiperexposição. Cada voto, cada despacho, cada decisão passa a ser imediatamente incorporada à narrativa polarizada que domina o país. Nesse ambiente, ministros deixam de operar apenas com base na técnica jurídica e passam a atuar sob permanente escrutínio político.
Toffoli tornou-se símbolo desse processo.
Sua posição hoje parece insustentável não apenas por acusações específicas, mas porque o modelo de atuação que representava — um certo pragmatismo de bastidor, uma busca por mediação informal — perdeu espaço em um ambiente institucional cada vez mais tensionado.
O Supremo sob tensão
A fragilidade de um ministro não é um fato isolado. Ela sinaliza algo maior: a dificuldade de o STF manter simultaneamente protagonismo político e autoridade jurídica incontestada.
Quanto mais a Corte se torna árbitro de disputas centrais do sistema político, maior o risco de desgaste individual de seus membros. A exposição permanente corrói o capital simbólico que sustenta a legitimidade do tribunal.
Quando um ministro sangra, a Corte inteira sente o impacto.
E aqui reside o verdadeiro problema: não se trata apenas da situação pessoal de Toffoli, mas do modo como o Supremo foi alçado à condição de ator central da vida nacional. Essa centralidade cobra um preço.
Mais do que reagir a crises pontuais, talvez tenha chegado o momento de o próprio Supremo aprofundar seus mecanismos de transparência. Não como gesto defensivo, nem como concessão à pressão política, mas como estratégia ativa de fortalecimento institucional. Em democracias maduras, autoridade não se sustenta apenas na prerrogativa formal do cargo — sustenta-se, sobretudo, na confiança pública. E confiança, no século XXI, exige níveis crescentes de abertura: critérios mais claros para decisões monocráticas, maior previsibilidade processual, comunicação menos opaca com a sociedade e uma pedagogia institucional capaz de explicar não apenas o que se decide, mas porque se decide. Quanto maior o poder de uma Corte constitucional, maior deve ser sua disposição para ser compreendida.
Transparência não enfraquece tribunais; ao contrário, é o que impede que eles sangrem em silêncio.
Entre permanência e erosão
Formalmente, nada obriga um ministro do STF a deixar o cargo diante de pressões políticas. A vitaliciedade existe exatamente para proteger a independência da Corte. Mas há situações em que a permanência se transforma em fator adicional de desgaste.
Se a confiança pública se deteriora de forma contínua, o custo institucional pode ultrapassar o custo individual.
Toffoli parece hoje encarnar esse dilema: permanecer é seu direito; mas a pergunta que se impõe é se sua permanência fortalece ou enfraquece a estabilidade do tribunal.
O que está em jogo
O Brasil atravessa um período de radicalização política prolongada. A extrema direita segue mobilizada. A eleição de 2026 se aproxima sob forte polarização. O Judiciário continuará no centro das disputas.
Nesse contexto, qualquer fragilidade interna no Supremo é rapidamente explorada por forças que desejam deslegitimar a própria instituição.
A situação de Toffoli tornou-se insustentável porque deixou de ser apenas um caso individual. Tornou-se combustível para a narrativa de crise permanente.
E, quando a narrativa de crise se consolida, a autoridade institucional começa a sangrar junto com o ministro.
A ferida aberta
Toffoli sangra. Mas a pergunta que deve orientar o debate não é apenas sobre seu destino pessoal.
A questão central é se o Supremo conseguirá atravessar mais este momento preservando sua autoridade constitucional ou se continuará pagando o preço de ter assumido um protagonismo que o sistema político não foi capaz de sustentar.
Quando o árbitro entra definitivamente no jogo, ele deixa de ser apenas juiz. E passa a ser parte da disputa.
É aí que a insustentabilidade deixa de ser individual — e se torna estrutural.
Foto de capa: © Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil





