Com a intenção aparente de ajudar o Governo a superar o vexame da péssima organização da COP 30, criei, em janeiro último, a revista Mutirão Solar, cujo propósito real era elevar o nível da discussão política no Brasil e trazer ao debate o imperativo de limpar o País da sujeira e da corrupção que campeiam em todas as instâncias da República, do Legislativo, Executivo e Judiciário até a Sociedade Civil. De forma explícita, a revista era uma espécie de desculpas às delegações externas pelo vexame da desorganização da COP. E eu pretendia vê-la circular em todo o planeta.
Nem o Ministério do Meio Ambiente nem a Secom se interessaram em pôr a revista em circulação em escala mundial. Preferiram seguir adiante com o ridículo “Mapa do Caminho”, com que a ministra Marina pretendeu empurrar goela abaixo das delegações estrangeiras ao evento as concepções ingênuas brasileiras sobre questões ambientais. Eu, contudo, segui com o projeto de fazer da revista um instrumento político focado nas eleições deste ano. Publiquei o numero zero com objetivos exclusivamente de divulgação, mas esbarrei num obstáculo intransponível para editar a de número 1, destinada sobretudo a política, economia e geopolítica: dinheiro!
Faltaram-me, e ainda faltam, míseros R$ 4 mil para a produção e edição da revista. É incrível, mas percebi, consultando e pedindo empréstimos a amigos e conhecidos, que ninguém tem dinheiro no Brasil, a não ser os milionários do sistema financeiro especulativo. Isso constitui o resultado inequívoco da política dos três patetas que formam o Conselho Monetário Nacional – Fernando Haddad, na Fazenda; Simone Tebet, no Planejamento, e Gabriel Galípolo, no Banco Central. Os três sob a autoridade maior de Lula, que segue a doutrina de dona Lindu: não gastar mais do que se ganha!
Ora, dona Lindu, mãe de Lula, era uma respeitável dona de casa de Pernambuco e não poderia instruir o filho sobre como administrar o Estado e o Governo. Muito provavelmente ninguém nunca lhe poderia ter dado aulas sobre política monetária e fiscal e, especialmente, que o Estado emite dinheiro e pode tomar crédito da sociedade – isto é, sempre pode gastar mais do que arrecada em impostos, o que aconteceu, por exemplo, na pandemia. O que ela poderia ensinar a Lula estava confinado à vida doméstica. Mesmo nisso, sua visão não ia muito longe. Se uma família não pode gastar mais do que ganha, para o que existe o sistema de crédito?
Em novembro de 2025, o endividamento das famílias com o Sistema Financeiro Nacional (SFN) alcançou 49,8% da renda anual! Além disso, segundo pesquisas, em 2025 quase 80% das famílias tinham dívidas, sendo que 13% delas sem condições de pagá-las, em grande parte devido às políticas monetária e fiscal dos três patetas. Havia, ainda, um número significativo de dívidas vencidas por mais de 90 dias. Então, como essas políticas estúpidas se tornaram recorrentes, o Governo estendia sua mão generosa aos devedores de tempos em tempos, não propriamente para socorrê-los, mas para socorrer os bancos credores para troca de crédito podre contra a inadimplência.
Voltemos, porém, à Mutirão Solar. Eu, pessoalmente, tenho créditos de mais de R$ 200 mil com empresas onde tento trabalhar, dos quais poderia destinar os R$ 4 mil para o pagamento da produção do n.1 da revista. Entretanto, essas empresas há mais de dois anos não conseguem fechar negócios porque o mercado financeiro está lacrado pela política monetária (Selic a 15%) e pela política fiscal restritiva (equilíbrio fiscal). Por isso, não me pagam. Como não me pagam, estou com quatro meses de aluguéis atrasados. Tudo em função da política econômica estúpida dos três patetas.
Se Lula tem culpa nisso é porque confia em assessores neoliberais ignorantes em questões monetárias e fiscais. Haddad não é um economista de raiz, é um cientista político e um filósofo. Todo mundo que conhece o ambiente universitário sabe que é na graduação que se adquire o conhecimento real em qualquer disciplina, e não no mestrado. O mestrado em economia, que Haddad fez, não vai ao fundo da matéria. Isso se nota pelos conceitos neoliberais que emite. Já Tebet também não é uma economista, mas advogada e política. Entre os três patetas, apenas Galípolo é economista, mas está neutralizado pelo sistema bancário rentista.
O sinal mais claro de que o País está afundando é o estreitamento da produção devido à falta de liquidez no mercado real, em nome da estabilização da inflação. Por isso meus credores não me pagam, e eu me torno um devedor. Se isso não for revertido, nos tornaremos cada vez mais uma economia de papel. Vejam o que aconteceu com o banco Master: em lugar de financiar a produção, limitava-se a trocar papéis especulativos com outras instituições do sistema financeiro. Quando as contas foram abertas, verificou-se que não havia garantias de ativos reais. O banco explodiu e levou com ele outros parceiros na especulação, como o BRB.
A ideologia que está por trás da política econômica brasileira baseia-se em dois fetiches. Um sustenta que elevar os juros contribui para a estabilização dos preços; o outro que uma política fiscal de déficit restringido tem igual efeito. Ambos favorecem exclusivamente a especulação: o primeiro, de forma direta, porque juros altos significam pavimentar o terreno para a migração do investimento produtivo para o rentismo; enquanto o outro, de forma indireta, ao concentrar a liquidez no próprio setor público, favorece os juros altos e aperta ainda mais a liquidez do mercado.
Por trás desses fetiches existe um entendimento extremamente precário sobre a natureza da inflação. Como se sabe desde Adam Smith, inflação é um desequilíbrio entre demanda e oferta no mercado real. Quando, por algum fator, o equilíbrio é rompido, antes de mais nada é preciso saber sua causa. Se for por falta de oferta em relação à demanda, é preciso estimular os setores produtivos da economia. O mesmo acontece se a razão do desequilíbrio é o aumento da demanda em relação à oferta. Nas duas hipóteses, os empresários precisam encontrar no sistema financeiro condições adequadas de financiamento para o aumento do investimento e da produção.
Acontece que, no Brasil, essas condições favoráveis não existem. As taxas de juros estão nas alturas e o aperto fiscal reforça essa tendência. Com isso as empresas migram para o setor financeiro especulativo, onde se ganha dinheiro de forma muito mais fácil, líquida e com menor risco. Diante disso, o destino do País é ver se multiplicarem eventos como o do Master, com estreitamento cada vez maior do mercado interno para o setor produtivo, salvando-se apenas algumas empresas que produzem para o mercado externo.
Lamento que essas questões cruciais para o futuro do País sejam pouco debatidas, ou debatidas de forma distorcida, principalmente pelos neoliberais. Por isso não desisti de pôr a revista Mutirão Solar em circulação regular, com uma frequência de 15 em 15 dias, logo que tiver em mão os R$ 4 mil para a produção da de n.1. A partir daí, quando entrar na fase comercial, a revista se tornará autossustentável, e entraremos firmes na preparação da campanha eleitoral do fim do ano, um dos objetivos a que é destinada.
Como gostaria de acelerar esse processo, e tendo em vista as dificuldades que eu e meus parceiros estamos tendo para arranjar o dinheiro necessário para isso, peço a todos os cidadãos e cidadãs que leem este artigo que contribuam para a produção da revista n.1. Tenham a certeza de que, indignados como estamos com a política econômica comandada pelos três patetas, faremos da revista um instrumento para converter Lula a mudar a política econômica rumo ao nacional desenvolvimentismo, a fim de afastarmos o risco de o País cair em mãos da extrema direita.
As contribuições para a revista podem ser dadas através do pix 16142268734, e prestaremos conta delas ao fim de cada semana, através das redes sociais. Eventuais sobras serão destinadas à organização dos comitês do “Mutirão Eleitoral Jovem”, que é outra iniciativa que vamos adotar com vistas a uma mobilização nacional contra a corrupção e a degradação social e política do País, e em favor da constituição de uma maioria progressista no Congresso, tudo coincidindo com o período eleitoral.
Foto de capa: André Telles / BNDES





