Por VICENTE RAUBER*
Nós porto-alegrenses já sabemos e falamos que nos verões passamos a viver nosso Forno Alegre, cada vez mais intenso e corrosivo pelos raios UV.
Nenhuma novidade, já fomos devidamente alertados de que os distúrbios climáticos seriam maiores e mais frequentes.
O que aqui acontece também ocorre praticamente em todos os municípios brasileiros, não nas mesmas dimensões (nada por acaso que Porto Alegre sofra mais), cada um com as suas especificidades.
Os prejuízos de saúde, de qualidade de vida, e redução da produção e outras atividades são enormes.
As soluções existem e são necessárias e urgentes e custam menos que os prejuízos, situação aplicável a todos os municípios, devidamente ajustada.
Somos insistentes. Vamos continuar mostrando e debatendo soluções até que nosso planeta esteja salvo e a vida dos seres vivos, inclusive a nossa, fora de perigo.
As soluções não podem mais ser postergadas – como estão sendo -, porém, igualmente é necessário que nos preparemos muito melhor, já que o excesso de gases de efeito estufa – GEEs -, que provocam o sobreaquecimento, levará anos para ser desfeito. Há estudos para “detoná-lo”, tudo muito difícil e caro, nada do que se possa hoje sonhar em usar.
Excessos de calor, secas, chuvas e ventanias
Devemos nos preparar bem melhor contra os excessos de calor e as secas, bem como as chuvas intensas e prolongadas (institutos meteorológicos nacionais e internacionais preveem uma grande possibilidade de um novo El Niño bem caborteiro este ano) e as ventanias.
Contra as secas, muita reservação de águas (aliás, sem nenhuma provocação, hoje o Nordeste brasileiro tem exemplo a dar); contra as grandes chuvas, saneamento básico com drenagem urbana e proteção contra cheias, em suas diversas modalidades, incluindo o reassentamento de áreas de risco. Já as ventanias de diferentes modalidades como rajadas, ciclones extratropicais e tropicais, tornados e outros, requerem alertas, reforço nas edificações, telhados em especial, árvores bem mantidas e linhas e redes elétricas ampliadas e mantidas conforme obrigação das concessionárias de energia elétrica.
E o excesso de calor, como prevenir e ainda ajudar a recuperação do planeta? Lembremos que o mesmo está sempre associado a índices maiores ou menores de poluição, como a emissão de GEEs e outros como ruídos.
O calor é ainda mais intenso e prejudicial onde o sol é absorvido no asfalto preto (a cor preta é absorvedora de calor), blocos de edificações que retém calor e expelem o calor dos ar-condicionados. Estes locais devem ter mais atenção, mas o tratamento deve abranger as cidades como um todo.
Árvores são a solução
A solução são árvores, muitas árvores! Não basta plantar fileiras bem distribuídas nas avenidas. Com todo respeito, isto tem um efeito apenas paisagístico, mas está longe de ter a capacidade de enfrentar ondas de calor e poluição.
É preciso mudar completamente o ambiente urbano, introduzindo verdadeiros matos, preferencialmente com espécies locais, incluindo árvores frutíferas que alimentarão aves e outros animais.
E por que árvores? Elas são verdadeiras máquinas ambientais, senão vejamos:
Crescem e vivem através da fotossíntese, que é um processo biológico que converte os raios solares luminosos em energia química, utilizando fundamentalmente água, dióxido de carbono e energia solar (calor), produzindo glicose e oxigênio. Para incorporar o calor, capta da atmosfera o enxofre, gás muito prejudicial à saúde, em especial ao sistema respiratório. Com o enxofre gera a clorofila, pigmento que capta o calor necessário. Em relação ao dióxido de carbono, incorpora o carbono e libera o oxigênio, que irá purificar o ar.
As árvores ainda captam outros poluentes como o monóxido de carbono (CO), metano (CH4), ambos também GEEs, material particulado (poeiras, cinzas, fuligem) e até metais pesados e outros. E amenizam os ruídos.
Além de purificar o ar ainda impedem que os poluentes cheguem ao solo.
Vejam só quantos benefícios: captação de GEEs, calor e poluentes, redução do ruído, incorporação do carbono e liberação de oxigênio, gerando purificação do ar e do solo, além da melhoria e beleza urbanística.
Muito mais: com a captação de calor e sombra, amenizam o clima. Ainda são reservatórios de água, retendo parte da água das chuvas, reduzindo alagamentos (integram o conceito de cidade esponja). Também realizam a evapotranspiração para a formação das nuvens. As grandes florestas como a Amazônia são formadoras dos rios voadores, blocos de nuvens que levam chuvas a diversas regiões da América do Sul.
As derrubadas de árvores ainda é tristemente o principal fator de geração de GEEs brasileiros.
A arborização de uma cidade, por óbvio, requer a superação de conflitos como a compatibilização com a infraestrutura urbana especialmente os circuitos elétricos, de telefonia e internet, cabendo a realização permanente de podas, vegetais adequados e uso das redes ecológicas. E também a superação do preconceito de que as folhas das árvores sujam a cidade. E nem me venham dizer que ladrões e outros criminosos poderão esconder-se no mato, eles já possuem instrumentos de fuga melhores.
A arborização igualmente é muito benéfica no meio rural, em meio às pastagens e plantações.
Isto funciona?
Medellín superou mortes e é premiada mundialmente como “a cidade da eterna primavera”
Medellin (Colômbia), que tivemos a oportunidade de conhecer, está situada numa grande região metropolitana, num vale profundo – Aburrá – cercado por altas montanhas da Cordilheira dos Andes. A poluição e o calor simplesmente não dispersavam colocando em risco seus dois milhões e meio de habitantes. Esta situação atingiu seu ápice em 2016, quando a universidade local chamada Antioquia registrou nada menos de 1971 mortes precoces.

Medellin, no vale Aburrá, entre a Cordilheira dos Andes – Vicente Rauber/Arquivo pessoal
A solução, que já estava em andamento, foi acelerar a implantação de 30 corredores verdes, envolvendo todas as avenidas, águas correntes e grandes parques ecológicos e onde fosse necessário introduzir árvores.
Fundamentalmente foram coletadas sementes de espécies locais, incluindo frutíferas, misturando-as e semeando-as. Os resultados, sempre monitorados pela Universidade e outros organismos, mostram o fim das mortes precoces, aumento da qualidade de vida com redução geral média da temperatura de 3ºC e de 4,5ºC nos corredores verdes e forte absorção dos índices de poluição.



Medellín hoje convive com verdadeiros matos. A ex-capital mundial do narcotráfico é agora reconhecida e premiada mundialmente como a “capital da eterna primavera”. Algumas de suas premiações:
- Reconhecimento internacional contínuo: transformar áreas negligenciadas em corredores de vida, melhorando a qualidade do ar, a biodiversidade e criando sombra para pedestres e ciclistas.
- Prêmio Ashden 2019 (Cooling by Nature): premiação britânica que destaca soluções climáticas transformadoras, através do “Resfriamento pela Natureza”;
- Reconhecimento da C40 Bloomberg Philanthropies (2019): A Cúpula Mundial de Prefeitos C40 em Copenhague, premiou os Corredores na categoria “O futuro resiliente que desejamos”.
- Seven for 7 (Sustainable Energy for All): “Seven for 7” pelo Sustainable Energy for All, que reconhece líderes mundiais no movimento de energia sustentável.
A China está criando a “Grande Muralha Verde”
Além de Medellin, cabe citar os dados de arborização da China.
Este país continua sendo o maior emissor de GEEs, porém tem realizado as maiores ações do planeta para superar esta condição, tanto a nível local como internacional: Possui os maiores aumentos e geração de energia elétrica, especialmente eólica e solar, é o maior produtor e exportador de veículos elétricos e tem realizado os maiores esforços de reflorestamentos do mundo, especialmente superando regiões desérticas e outras com a “Grande Muralha Verde”.
Em 2022, plantou 3,83 milhões de ha (hectares), em 2023, 4,00 milhões de ha e em 2024, 4,45 milhões de ha, tendo a meta de alcançar 14,6 bilhões de árvores em 2025. Pretende chegar a 70 bilhões em 2030 e 100 bilhões em 2050, o que se alcançado será algo como mais de 50 árvores por habitante.
Como indicadores mínimos para todos os municípios brasileiros, o PLANAU apresenta o modelo “3-30-300” do pesquisador Cecil Konjinendijk
Todos os municípios precisam ter instrumentos de planejamento de arborização. Esta é um das itens integrantes do Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNau) – elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), participativamente com os municípios e outros, durante o ano de 2025 e lançado na COP30, conforme planejado.
O PlaNAU, adotou como metas mínimas a estratégia do pesquisador holandês Cecil Konijnendijk, “3-30-300”, que visa:
- 3 Árvores: Mínimo de três árvores visíveis de cada residência/escola, garantindo conforto térmico.
- 30% de Cobertura: Cada bairro deve atingir 30% de cobertura arbórea, reduzindo ilhas de calor e melhorando a qualidade do ar.
- 300 Metros de Área Verde: Proximidade máxima de 300 metros de uma área verde de qualidade (parque, praça), garantindo acesso ao lazer e saúde mental.
Entre outros índices a ONU sugere o mínimo de 2 árvores por habitante.
Porto Alegre precisa superar o desonroso reconhecimento de Forno Alegre, deixou de ser a capital mais arborizada e reduziu a vegetação nos últimos anos.
Não por acaso Porto Alegre adquiriu o desonroso reconhecimento de Forno Alegre. Tem sofrido destruições nos tempos recentes com redução de árvores.
Atualmente possui em torno de 1 árvore por habitante (dados da Prefeitura).
Nos anos 2000 perdeu a condição de capital mais arborizada do Brasil, hoje estando atrás de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Goiânia e Belo Horizonte, além de outras cidades. Precisa decididamente mudar sua orientação de desenvolvimento.
Para acabar de vez com o excesso de calor e a poluição: acrescentar motores elétricos, saneamento básico e cidades esponja.
As árvores são soluções extraordinárias e devem ser complementadas: (i) com a viabilização da introdução dos motores elétricos nos veículos e outras máquinas, substituindo os motores a combustão, estes chegam a representar dois terços dos GEEs nos grandes centros urbanos. Isto será uma das revoluções tecnológicas de nossa época (anotem e me cobrem); (ii) pela efetivação do saneamento básico em todos os municípios, hoje sem a estruturação necessária e do apoio dos Estados e União. Como exemplo citamos a alocação de R$ 6,5 bilhões, na reconstrução do RS, destinados a obras de saneamento, em especial obras contra cheias, e sequer a maioria delas teve início. Vamos torcer para que estejam concluídas nas próximas grandes cheias! Tudo indica que a universalização exigida no Marco Legal do Saneamento Básico será letra morta, um deboche à saúde e qualidade de vida dos(as) brasileiros(as), e, (iii) adoção do conceito de “cidade esponja” nas cidades, ações que realizam a retenção os picos da chuva, tendo as próprias árvores como carros-chefe.
Um outro mundo é possível: com cidades seguras, saudáveis e agradáveis. O planeta festejará!
Publicado originalmente em Brasil de Fato.
*Vicente Rauber é engenheiro especialista em Planejamento Energético e Ambiental e ex-diretor do DEP (Departamento de Esgotos Pluviais), DEMHAB (Departamento Municipal de Habitação), CEEE, Petrobras/Refap e Banrisul
Foto de capa: Porto Alegre precisa superar o desonroso reconhecimento de Forno Alegre | Vicente Rauber




