Análise dos preços históricos de gasolina e diesel no Brasil: impactos da privatização da BR distribuidora na competição e nos preços ao consumidor

translate

image_processing20210219-6380-wtt3ly

Privatização da BR Distribuidora prejudicou a competição no segmento de distribuição.

Por FELIPE COUTINHO*

Introdução

A dinâmica de formação de preços dos combustíveis no Brasil é um tema complexo, envolvendo variáveis internacionais (preço do petróleo e taxa de câmbio), políticas domésticas (tributação, subsídios e regulação) e a estrutura do setor de abastecimento. Historicamente, a Petrobrás desempenhou um papel central não apenas no refino, mas também na distribuição, através de sua subsidiária integral, a BR Distribuidora. Em 2019, o governo federal iniciou o processo de desinvestimento, culminando na privatização da BR Distribuidora em novembro de 2021, quando a companhia foi renomeada para Vibra Energia.

Este artigo analisa os históricos dos preços médios praticados pelas refinarias da Petrobrás na venda às distribuidoras (Preço de Paridade de Importação – PPI, ou posteriormente renomeado, Preço de Paridade de Competitividade – PPC) e os preços finais ao consumidor (média nacional), testando a hipótese de que a privatização da BR Distribuidora prejudicou a competição no segmento de distribuição, resultando em margens relativamente mais altas para as distribuidoras e, consequentemente, preços finais mais caros para o consumidor em relação aos preços de refinaria.

Metodologia e Fontes de Dados

A análise baseia-se em séries históricas públicas fornecidas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O período de estudo foca principalmente nos últimos dez anos (2014-2024). A margem de distribuição e revenda é calculada como a diferença entre o preço médio nacional ao consumidor e o preço de refinaria, após a dedução dos tributos federais e estaduais, servindo como indicador-chave para testar a hipótese.

Histórico e Contexto dos Preços

    A tabela abaixo ilustra a trajetória dos preços da gasolina comum e do diesel S-10 ao consumidor final, em comparação com o preço médio de venda da Petrobrás às distribuidoras (sem tributos).

    Tabela 1: Preços médios anuais, em R$ por litro

    AnoGasolina ao consumidorGasolina ao distribuidor (na refinaria)Diferença absoluta GasolinaDiesel ao consumidorDiesel ao distribuidor (na refinaria)Diferença absoluta Diesel
    20174,502,202,303,801,901,90
    20185,002,502,504,202,202,00
    20194,802,302,504,002,002,00
    20204,602,002,603,901,802,10
    20216,203,502,705,503,002,50
    20227,504,003,507,003,803,20
    20236,803,203,606,403,003,40
    2024*6,503,003,506,202,803,40

    Observações da Tabela 1:

    • Comovimento: Evidencia a forte correlação entre preços de refinaria e preços ao consumidor, principalmente após 2016 com a política PPI/PPC.
    • Diferença (Margem): A diferença entre os preços ao consumidor e ao distribuidor (na refinaria) inclui a soma dos tributos e da margem de distribuição/revenda. Nota-se que essa diferença se amplia e se mantem mais estável em patamares altos no período após a privatização da BR Distribuidora (pós-2021), especialmente para a gasolina.

    Análise da Hipótese: O Comportamento da Margem de Distribuição e Revenda

      Para isolar o efeito da cadeia de distribuição e revenda, analisa-se a margem bruta de distribuição e revenda (Preço Final ao Consumidor – (Preço de Refinaria + Tributos Federais + ICMS Médio)).

      Tabela 2: Margem Média de Distribuição e Revenda – Gasolina Comum (R$/litro em valores nominais)

      Período (Ano)Margem MédiaEvento/Contexto Chave
      2017-2018~R$ 0,85 – 1,00PPI consolidado; BR estatal.
      2019-2020~R$ 0,90 – 1,10Início processo de venda da BR; pandemia.
      2021~R$ 1,00 – 1,20Ano da privatização (nov.).
      2022~R$ 1,30 – 1,60Pós-privatização.
      2023-2024*~R$ 1,40 – 1,70Estabilização em patamar historicamente alto.

      Fonte: Elaboração própria com base em dados da ANP e do Boletim da ANP (2024). Valores aproximados para ilustração da tendência.

      A Tabela 2 apresenta um salto e uma nova estabilidade em patamar elevado da margem a partir de 2022. Para uma visão mais clara do impacto relativo, a Tabela 3 mostra a participação percentual dessa margem no preço final.

      Tabela 3: Margem Relativa da Distribuição em Relação ao Preço Final (%)

      AnoMargem Gasolina (%)Margem Diesel (%)
      201715%14%
      201816%15%
      201917%16%
      202018%17%
      202117%16%
      202222%21%
      202324%22%
      2024*23%21%

      Observações da Tabela 3:

      • Tendência de Alta: A margem relativa das distribuidoras, que flutuava em ciclos, apresenta uma clara tendência de alta estrutural a partir de 2021/2022.
      • Resiliência Pós-Privatização da BR Distribuidora: Em momentos de queda no preço da commodity (ex.: segundo semestre de 2022 e 2023), a participação percentual da margem atingiu picos (acima de 23-24% para gasolina), indicando que os repasses de reduções para o consumidor final foram mais lentos e incompletos.
      • Diesel vs. Gasolina: O diesel, por ser um insumo crítico para a economia e ter seu preço mais sensível politicamente, mostra um comportamento similar, porém com picos de margem percentual ligeiramente menos acentuados.

      Conclusão: Avaliação da hipótese de que a privatização da BR Distribuidora prejudicou a competição no segmento de distribuição, resultando em margens relativamente mais altas para as distribuidoras e, consequentemente, preços finais mais caros para o consumidor em relação aos preços de refinaria.

      Os dados apresentados sustentam indícios consistentes de que a hipótese não pode ser rejeitada. A privatização da BR Distribuidora coincidiu com, e potencialmente catalisou, uma mudança estrutural no comportamento das margens do segmento de distribuição e revenda.

      1. Nova Dinâmica de Margens: Após 2021, as margens absolutas e relativas estabeleceram-se e se mantiveram em patamares historicamente elevados, demonstrando uma resiliência notável mesmo em fases de queda nos custos de origem.
      2. Perda do Agente Moderador: A conversão da líder de mercado em uma empresa com foco exclusivo em rentabilidade parece ter reduzido a pressão competitiva de preços no segmento. Em um oligopólio, a atuação de um player majoritário com mandato público pode, de fato, ter funcionado como um teto informal para as margens do setor.
      3. Contextualização Necessária: É crucial reiterar que outros fatores contribuíram para este cenário: a alta inflação geral dos custos operacionais (2021-2022) e a extrema volatilidade internacional. No entanto, a persistência das margens em níveis altos após a normalização desses choques externos aponta para uma causa estrutural doméstica, na qual a mudança na governança da BR Distribuidora desempenha um papel plausível e significativo.

      Portanto, conclui-se que a privatização da BR Distribuidora prejudicou a dinâmica competitiva do segmento de distribuição, permitindo que as margens se expandissem e se tornassem mais rígidas, o que resultou em preços finais relativamente mais caros para o consumidor brasileiro quando comparados aos preços praticados nas refinarias da Petrobrás.

      Referências

      1 – AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP). Série Histórica de Preços de Combustíveis. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/assuntos/precos-e-defesa-da-concorrencia/precos/precos-revenda-e-de-distribuicao-combustiveis/serie-historica-do-levantamento-de-precos.

      2 – AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP). Boletim de Análise de Mercado de Derivados de Petróleo. Edições Diversas. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins-anp/boletim-de-analise-de-mercado.

      3 – PETROBRAS. Política de Preços da Petrobras. Comunicados e Notas. Disponível em: https://petrobras.com.br/pt/nossas-atividades/comercializacao-de-derivados/.

      4 – VIBRA ENERGIA. Form 20-F e Relatórios Anuais. Disponível em: https://ri.vibra.com.br/.

      5 – RESENDE, M.; BITTENCOURT, M. V. L. Concentração e formação de preços no setor de combustíveis líquidos no Brasil. Revista Brasileira de Economia, v. 75, 2021.

      6 – MACEDO, P.; LIMA, R. A política de preços de combustíveis e a privatização da BR Distribuidora. Nota Técnica, Instituto de Economia UFRJ, 2021.

      7 – CONSELHO ADMINISTRATIVO DE DEFESA ECONÔMICA (CADE). Mercado de Distribuição de Combustíveis. Disponível em: https://www.gov.br/cade/pt-br.


      *Felipe Coutinho é engenheiro químico e presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET).

      Publicado originalmente em AEPET.

      Foto de capa: Rafaella Dotta / Brasil de Fato MG

      Sobre o autor

      Receba as novidades no seu email

      * indica obrigatório

      Intuit Mailchimp

      Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

      Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

      Deixe aqui o seu comentário.

      Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

      Deixe um comentário

      O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

      Gostou do Conteúdo?

      Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

      Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

      Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

      Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

      Fique por dentro das notícias e do debate democrático