Por CARLOS WAGNER*
Na manhã da última terça-feira (3), estava colocando as mercadorias no porta-malas do carro, no subterrâneo de um supermercado, em Porto Alegre (RS), quando recebi uma ligação. Ouvi apenas três palavras: “Frei Sérgio morreu!” Respondi: “O quê?” Ainda atônito, nos minutos seguintes recebi mais três ou quatro ligações com a mesma mensagem. Do supermercado até a minha casa, com trânsito normal, dá uns 10 minutos de carro. Durante o percurso, lembrei-me que poucos dias antes, em 29 de janeiro, frei Sérgio havia completado 70 anos. Não me lembro de tê-lo ouvido alguma vez reclamar de uma doença. À minha mente veio a lembrança do ano de 1979, no interior de Não Me Toque, pequena cidade agrícola no norte do território gaúcho. Eu iniciava a minha carreira de repórter no jornal O Interior, de Carazinho, município agroindustrial da região. E Sérgio Antônio Görgen, o frei Sérgio, completava os seus estudos para se tornar um frade franciscano, da ordem religiosa fundada por São Francisco de Assis no século XIII, baseada em três pilares: a pobreza, a caridade e o evangelho. Tinha ido ao encontro do frei porque soube que uns jovens religiosos, ligados à Teologia da Libertação, andavam conversando com os agricultores da região. Resumindo em poucas palavras, a Teologia da Libertação é uma corrente teológica da Igreja Católica, nascida na América Latina, que prega a libertação dos oprimidos. Na época, o Brasil era uma ditadura militar, a imprensa era censurada e pessoas eram presas e desapareciam por qualquer motivo que o regime julgasse um perigo para a sua existência. Até eu, que na época era um foca (repórter iniciante), sabia que tinha que ver o que estava acontecendo.
Descobri o local de um dos encontros e fui até lá. Não era nada de mais. Tratava-se de uma estratégia usada por jovens religiosos que consistia em promover almoços nas comunidades rurais e aproveitar que estavam todos reunidos para fazer as suas pregações sobre liberdade “ao pé do ouvido dos agricultores”. Fiz a matéria sobre o almoço. Não falei sobre a pregação ao pé do ouvido. Entrei na garagem de casa e ainda não tinha desligado o motor do carro quando consegui uma ligação com o frei Wilson Zanatta, 64 anos. Ele morava com frei Sérgio na comunidade Padre Josino, formada por frades franciscanos e capuchinhos, no assentamento Conquista da Fronteira, em Hulha Negra, na fronteira com o Uruguai. No ano passado, eu e o repórter fotográfico Emílio Pedroso jantamos e dormimos na casa dos freis. Estávamos escrevendo o livro A História Perdida das Benzedeiras Gaúchas, e fomos lá entrevistar Zanatta, que trabalha no resgate de ervas medicinais usadas para fazer chás. Sem dar tempo para frei Zanatta dizer qualquer coisa, perguntei o que tinha acontecido. “Eu estava na cozinha preparando o café da manhã”, começou. “Ouvi ele me chamar, estranhei a voz. Parecia abafada. Encontrei-o na porta do banheiro com a camisa banhada de suor. Ele reclamou que estava sentindo um mal-estar no estômago e caminhou em direção ao quarto. Deitou-se na cama e pediu um chá. Fiz, levei, ele tomou, mas continuou se sentindo mal. Voltei para a cozinha para fazer um novo chá. Ao retornar ao quarto, notei que ele estava com o rosto muito branco. Fiz as manobras para tentar reanimá-lo. Não deu resultado. Estava morto. Morreu tranquilo como sempre desejou.” Havia 30 anos que os dois freis se conheciam e viviam em comunidades religiosas. Depois do relato de frei Zanatta, a minha ficha caiu. Recordei que depois daquele nosso encontro lá no interior de Não Me Toque eu segui o meu rumo, fazendo reportagens, e frei Sérgio continuou envolvido com os movimentos sociais. Nossos caminhos voltaram a se cruzar em outubro de 1985, quando colonos ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam a Fazenda Annoni, uma gleba de 9 mil hectares à beira da uma estrada que liga Passo Fundo a Ronda Alta, no norte do Rio Grande do Sul. Estive lá durante as primeiras semanas da ocupação. Todos os dias aconteciam enfrentamentos entre os acampados e a Brigada Militar, como é chamada a polícia militar gaúcha. Um dia, eu e outros jornalistas estávamos no alto de um barranco de uns cinco metros de altura. Lá embaixo, onde passava uma estrada de chão batido, policiais militares e sem-terra se engalfinhavam em mais uma escaramuça quando, no auge da briga, apareceu um frei franciscano de batina e Bíblia na mão e conseguiu acalmar os ânimos. Assim que reconheci o religioso, gritei para os colegas jornalistas: “É o frei Sérgio”.
Nos primeiros anos, a nossa relação era de fonte com repórter. As coisas acabaram evoluindo porque me especializei em conflitos agrários e frei Sérgio era um grande conhecedor da matéria. Acabamos ficando amigos. Mas sempre repeti para ele: “Frei, não confia em jornalista”. Ao que ele respondia: “É o que sempre digo para os teus colegas, e te cito”. Muitas horas passamos e muitas cuias de chimarrão e goles de vinho tomamos ao redor de um fogão conversando sobre política e movimentos sociais. A diferença do conhecimento do frei Sérgio para outros estudiosos do assunto é que ele era testemunha do que relatava. Foi assim no Massacre da Fazenda Santa Elmira. No dia 11 de março de 1989, a fazenda, no município de Salto do Jacuí, foi ocupada por 500 famílias do MST. Na tentativa de retirada dos sem-terra houve um imenso tiroteio, que envolveu até o uso de aviões, e depois uma luta corpo a corpo entre os ocupantes e as tropas da Brigada Militar. Eu estava lá, fiz matéria e nunca tinha visto coisa igual. As reportagens que fiz são relatos e depoimentos de colonos e soldados envolvidos no conflito. Frei Sérgio estava dentro da fazenda, ao lado dos colonos, foi ferido por uma coronhada dada no seu rosto pelos policiais militares e acabou preso. Mais tarde, escreveu o livro O Massacre da Fazenda Santa Elmira, publicado pela Editora Vozes. Os relatos são de incrível realidade. É um livro que recomendo para os jovens repórteres.
Para arrematar a nossa conversa. Certa vez, eu estava na Annoni e pedi uma carona para o frei Sérgio. Era um dia de verão muito quente. Entrei no carro e perguntei como se ligava o ar-condicionado, ao que ele respondeu: “Não tem”. Perguntei sobre o rádio. “Não tem”, repetiu. Comentei: “Pô, mas não tem nada nesse carro?”. Ele explicou: “Sou franciscano, não posso ter esses luxos”. Não resisti e fiz uma piada: “Mas tem motor, né?” Zanatta recordou que, no discurso que fez por ocasião da comemoração do seu último aniversário, frei Sérgio fez um resumo dos rolos em que se envolveu ao longo da sua vida. “Foi como se soubesse o que iria acontecer”, disse frei Zanatta.
*Carlos Wagner é repórter.
Publicado originalmente no blog Histórias Mal Contadas.
Foto de capa: Sérgio não conhecia as lutas sociais de ouvir falar, ele era um dos lutadores | Reprodução




