Frade franciscano, militante das causas populares e dirigente histórico do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Frei Sérgio Antônio Görgen morreu nesta terça-feira (3), aos 70 anos, em decorrência de um infarto. Ele faleceu em sua casa, no Assentamento Conquista da Fronteira, em Hulha Negra, na Região da Campanha do Rio Grande do Sul. Reconhecido como um dos principais articuladores da luta camponesa no país, Frei Sérgio construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com os pobres, a soberania alimentar e a democracia.
A morte do religioso provocou manifestações de pesar de lideranças políticas, movimentos sociais e organizações populares. Em nota, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a perda e destacou a presença constante de Frei Sérgio durante o período em que esteve preso em Curitiba, no contexto da Operação Lava Jato. Segundo Lula, o frade foi fundamental para ajudá-lo a atravessar “com força e esperança” um momento que classificou como injusto. O presidente também ressaltou a vida exemplar do religioso, marcada por luta, sacrifícios e coerência com os ensinamentos cristãos.
Natural do Rio Grande do Sul, Frei Sérgio era frade da Ordem dos Frades Menores (OFM) e dedicou mais de cinco décadas à organização social e política de populações do campo. Em 1996, foi um dos fundadores do Movimento dos Pequenos Agricultores, criado em meio às secas e à ausência de políticas públicas voltadas à agricultura familiar. Também teve atuação decisiva no fortalecimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com o qual manteve relação histórica de militância e formulação política.
Entre 2002 e 2006, Frei Sérgio exerceu mandato como deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT) no Rio Grande do Sul, levando ao Parlamento pautas ligadas à reforma agrária, à agroecologia e aos direitos dos trabalhadores rurais. Mesmo após o fim do mandato, seguiu atuando como articulador político e referência intelectual dos movimentos populares.
Sua trajetória foi marcada por formas radicais de protesto, como as greves de fome, utilizadas como instrumento de denúncia e pressão política. Ao longo da vida, participou de ao menos cinco, em diferentes contextos: na luta por crédito agrícola nos anos 1990, contra a Reforma da Previdência em 2017 e em defesa da democracia e da libertação de Lula, em 2018, em Brasília.
Sobrevivente do massacre da Fazenda Santa Elmira, ocorrido em 1989, Frei Sérgio assumiu a missão de registrar e preservar a memória da violência no campo. O episódio, marcado por repressão policial durante uma reintegração de posse no interior do Rio Grande do Sul, tornou-se um divisor de águas em sua vida. A partir dele, passou a escrever livros e artigos que denunciam a criminalização dos movimentos sociais e defendem a agricultura camponesa como projeto estratégico para o país.
Autor de obras como Trincheiras da Resistência Camponesa e A Gente Não Quer Só Comida, Frei Sérgio articulava reflexão política, espiritualidade e ação concreta. Para ele, fé e compromisso social eram inseparáveis. Em entrevistas, costumava afirmar que o Evangelho não se vive apenas dentro das igrejas, mas no enfrentamento das injustiças do mundo.
Além da militância no campo, Frei Sérgio teve papel importante na comunicação popular. Em 2018, esteve à frente da fundação do Brasil de Fato Rio Grande do Sul, apoiando a construção de um jornalismo comprometido com a democracia e com a voz dos movimentos sociais. Colegas e jornalistas destacam sua capacidade de diálogo e sua visão estratégica sobre o papel da comunicação na disputa de narrativas.
Em nota de despedida, o MPA definiu Frei Sérgio como um “profeta da resistência camponesa”, cuja vida foi inteiramente entregue ao povo do campo. “Seu legado de soberania alimentar e dignidade permanece vivo em cada semente crioula plantada neste solo”, afirmou o movimento.
Frei Sérgio Görgen deixa um vazio profundo nas lutas sociais brasileiras, mas também um legado que atravessa gerações. Para os movimentos populares, sua memória segue como força, mística e inspiração. Como repetem militantes do campo em todo o país: Frei Sérgio vive na luta do povo.
Imagem destacada: Reprodução das redes sociais





Uma resposta
Sua dedicação à causa da terra, sua posse, sua produção, sua função social, aliada à religiosidade, sua energia, coerência e entusiasmo, farão muita falta…
Obrigada por tanto, Frei Sérgio! Siga nos iluminando, no campo e na cidade…