Da REDAÇÃO
Análises do New York Times e dados do Financial Times indicam que o trumpismo degrada instituições democráticas em ritmo mais rápido do que regimes autoritários clássicos
As análises publicadas nesta semana no The New York Times pelos colunistas Ezra Klein e David Brooks, quando lidas em conjunto com o artigo analítico publicado no Financial Times, assinado por John Burn-Murdoch, compõem um diagnóstico inquietante: o governo Donald Trump não apenas enfraquece normas democráticas, como o faz em um ritmo historicamente acelerado, superior ao observado em experiências clássicas de regressão autoritária.
Longe de se tratar apenas de retórica inflamada ou de estilo pessoal, o que emerge dessas análises é um modelo de poder que corrói sistematicamente os fundamentos da democracia liberal por dentro, preservando suas formas institucionais enquanto esvazia sua substância normativa
A democracia não cai: ela é corroída
Ezra Klein sustenta que o problema central do trumpismo não está na violação explícita da Constituição, mas na neutralização prática dos freios e contrapesos que tornam a Constituição operante. O Executivo testa limites simultaneamente: politiza o Departamento de Justiça, ataca a imprensa, deslegitima decisões judiciais e trata o Congresso como obstáculo ilegítimo ao exercício do poder.
A democracia, nesse quadro, permanece formalmente intacta — eleições ocorrem, tribunais funcionam, a imprensa existe —, mas perde capacidade real de conter o Executivo. Trata-se de um processo de desgaste contínuo, em que normas informais, autocontenção e compromisso institucional são substituídos por conflito permanente e lógica plebiscitária.
O Financial Times: dados, ritmo e interpretação política
O artigo de John Burn-Murdoch no Financial Times é central para compreender a gravidade desse processo porque vai além da simples visualização de dados. Combinando séries históricas do V-Dem (Varieties of Democracy), da Freedom House e de outros indicadores comparativos, o autor desenvolve uma análise interpretativa sobre a intensidade e, sobretudo, a velocidade do retrocesso democrático nos Estados Unidos.
Burn-Murdoch demonstra que o caso norte-americano foge ao padrão histórico esperado para democracias consolidadas. O que distingue o trumpismo não é apenas a direção do movimento — o declínio democrático —, mas o seu ritmo excepcionalmente acelerado, resultado de ataques simultâneos e coordenados a múltiplos pilares institucionais: imprensa, Judiciário, burocracia estatal, eleições e mecanismos de accountability.
Sua conclusão é clara: mesmo sem ruptura constitucional explícita, a democracia pode ser corroída de forma rápida quando normas informais são sistematicamente violadas por quem ocupa o poder. Essa aceleração torna o processo mais difícil de conter e mais complexo de reverter.
Mais rápido que Orbán, Erdoğan e Chávez
O aspecto mais alarmante dos dados do Financial Times é o ritmo. Em termos comparativos, o declínio democrático nos EUA ocorre mais rapidamente do que nos primeiros anos de governos autoritários eleitos, como Orbán na Hungria, Erdoğan na Turquia ou Chávez na Venezuela.
A comparação não sugere que os Estados Unidos tenham se tornado uma ditadura, mas revela algo talvez mais perturbador: democracias consolidadas podem degradar-se rapidamente quando normas informais são destruídas de dentro do sistema. Ao contrário de regimes mais frágeis, a força institucional acumulada dos EUA permite que o processo avance sem ruptura abrupta — e, justamente por isso, com menor resistência inicial.
David Brooks e a ruptura do pacto cívico
Se Klein enfatiza a mecânica institucional, David Brooks foca a dimensão moral e cultural da crise. Para ele, Trump governa pela lógica da lealdade pessoal, do ressentimento e da humilhação do adversário. Esse estilo não apenas enfraquece instituições, mas rompe o pacto cívico que sustenta a convivência democrática.
Brooks alerta que o presidente exerce um papel pedagógico negativo: ao desprezar regras, normaliza o abuso. Quando o chefe do Executivo transforma o Estado em instrumento de perseguição política e desacredita sistematicamente eleições, imprensa e tribunais, ensina à sociedade que a democracia é apenas um obstáculo a ser contornado.
Os dados do Financial Times ajudam a traduzir essa crítica moral em evidência empírica: queda acelerada da confiança institucional, aumento da polarização extrema e enfraquecimento da accountability democrática.
Um alerta global
A convergência entre Klein, Brooks e Burn-Murdoch aponta para um fenômeno mais amplo: a regressão democrática contemporânea raramente ocorre por golpes clássicos. Ela avança por dentro, com eleições mantidas e instituições formalmente em funcionamento, mas sob ataque contínuo e deslegitimação permanente.
Para a América Latina, onde experiências de autoritarismo competitivo são conhecidas, o caso norte-americano funciona como alerta inverso: nem mesmo democracias antigas e institucionalmente robustas estão imunes quando líderes eleitos decidem corroer sistematicamente normas, instituições e valores republicanos.
Estado degradado
Trump não inventou o autoritarismo contemporâneo, mas os dados indicam que ele aperfeiçoou sua velocidade. A leitura combinada de Klein, Brooks e do Financial Times revela que o maior risco não é um colapso espetacular da democracia dos EUA, e sim sua normalização em estado degradado — com eleições esvaziadas, instituições intimidadas e conflito permanente como método de governo.
A história recente mostra que, quando esse processo se consolida, reverter a erosão democrática torna-se mais difícil do que impedi-la.
Ilustração da capa: Trump corroi democracia nos EUA – Imagem gerada por IA ChatGPT.
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Donald Trump; Democracia; Estados Unidos; Autoritarismo; Trumpismo; Financial Times; New York Times; Crise Democrática; Política Internacional




