CORRESPONDENTE POLÍTICO | 12,4 bilhões em seres humanos

translate

1_590e1f77_a7f2_4675_b270_b7893e4362a2-542362

Por RUDOLFO LAGO*, do Correio da Manhã

A reportagem de Beatriz Matos na página 6 desta edição do Correio da Manhã traz à luz o foco que não se vê na cobertura de nenhum outro veículo de imprensa na cobertura do Banco Master. Para além de ser ou não o maior escândalo financeiro da história brasileira nos últimos tempos, para além de envolver altas autoridades nas principais escalas dos três poderes, um esquema assim, quando acontece, envolve pessoas. Prejudica cidadãos brasileiros usados para garantir o lucro de alguns poucos. A partir das histórias de professores da rede pública estadual de ensino na Bahia e de um policial militar no DF, Beatriz Matos humaniza o reflexo do esquema. Mas há ainda outros pontos a contar nessa história.

Quem entregou esses cadastros?

Para atribuir contabilmente falsos empréstimos aos professores baianos ou ao policial militar do DF, os integrantes do esquema precisaram ter acesso aos seus cadastros. Ao seu nome completo, CPF, à conta vinculada. Alguém, portanto, que operava tais cadastros é que os repassou. Todos os falsos empréstimos a que chegou Beatriz em sua reportagem estão vinculados ao CredCesta, cartão que permitia empréstimo consignado.

Augusto Lima e Vorcaro foram sócios

O CredCesta surgiu a partir da Bahia | Foto: Divulgação

O cartão CredCesta surgiu na Bahia, quando Augusto Lima venceu a licitação para comprar a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal). Augusto Lima e Daniel Vorcaro, o dono do Master, foram sócios. Ambos foram alvo e tiveram a prisão preventiva decretada na primeira fase da Operação Compliance Zero. Em seu depoimento à Polícia Federal, Vorcaro mesmo afirma que foi Augusto Lima quem estruturou dentro do Master a expansão do crédito consignado, que teria se tornado, como mostra Beatriz na reportagem, o principal produto do banco.

Envolvimento de associações

As investigações apontam para o possível envolvimento de associações de servidores. Pode ter sido a partir dessas associações que aconteceu o acesso aos cadastros. Na Bahia, mencionam-se a Associação dos Servidores Tècnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia (Asteba) e a Associação dos Servidores de Saúde e Afins da Administração Direta do Estado da Bahia (Asseba).

Professores

Mas os professores estaduais da cidade de Vitória da Conquista ouvidos por Beatriz Matos vítimas da fraude dos empréstimos não são filiados nem à Asteba nem à Asseba. O acesso, portanto, aos seus cadastros, deu-se por outros meios. A própria Secretaria de Educação? Outras associações? Que caminhos?

Risco alto

Impressiona o grau de risco do esquema. Em Vitória da Conquista, a descoberta decorreu de um professor ter ido em busca de um empréstimo real. Ao consultar sua situação, o banco verificou que ele já teria um empréstimo, vinculado ao CredCesta. O professor não pedira empréstimo nenhum.

Verificação

Ao comentar isso com colegas, outras situações semelhantes apareceram. Uma incrível quantidade de professores da rede pública estadual em Vitória da Conquista tinha em seu nome empréstimos que não pediram, não receberam e sobre os quais nada pagavam de parcelas. Quantos são os casos assim?

Blindagem

Toda essa história, portanto, tem ainda pontas que precisam ser desvendadas. E que mostram o tamanho da teia que tudo envolve. Teia que, talvez, explique o grau de blindagem política que, mesmo com toda a evolução do escândalo, ainda se procura claramente preservar. Blindagem que envolve Centrão, oposição e governo.

CPMI

Ao pedir a instalação de uma CPMI para investigar o Banco Master, as deputadas Heloisa Helena (Rede-RJ) e Fernanda Melchiona (Psol-RJ) obtiveram 32 assinaturas no Senado e somente 35 assinaturas na Câmara. E questionam por que tais assinaturas não avançam. Por que não avançam na base do governo.

Na base

Há um número grande de ausência de apoio dentro do Centrão. Mas o que intriga mais às deputadas da Rede e do Psol é por que razão também não aderem à investigação os parlamentares da base do governo, às quais também pertencem os partidos delas. Terá isso a ver com o que ainda pode aparecer?


*Rudolfo Lago é jornalista do Correio da Manhã / Brasília, foi editor do site Congreso e é diretor da Consultoria Imagem e Credibilidade.

Publicado originalmente no Correio da Manhã.

Foto de capa: Um esquema que envolveu professores da rede pública | Conder-BA

Sobre o autor

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático