Desde seu primeiro mandato Trump tem repetido que a OTAN é obsoleta e que não faz sentido se os europeus não aumentarem os gastos militares. Nos bastidores, já disse que os EUA vão sair formalmente da aliança.
Em dezembro de 2024, novamente eleito, disse em entrevista que consideraria deixar a OTAN se os EUA não obtivessem um “acordo justo” e se os aliados não “pagassem suas contas”.
Em comícios, afirmou que não defenderia aliados “inadimplentes” e chegou a dizer que encorajaria a Rússia a “fazer o que bem entendesse” com países que não cumprissem as metas de gastos.
Uma história de ações muitas vezes desastradas, como foi a criminosa intervenção na Líbia, mas apontada como a mais bem sucedida aliança militar jamais realizada, a Organização do Tratado do Atlântico Norte-NATO/OTAN completa em 2026 77 anos tendo a comemorar fracassos, mas também o retumbante sucesso de ter derrotado a União Soviética e feito desaparecer o Pacto de Varsóvia, sua contrapartida organizada pelo bloco socialista para enfrentá-la.
Criada durante a Guerra Fria, reunindo além dos Estados Unidos, que a lidera até hoje, o Canadá e os países da Europa, ganhou novo fôlego com o ressurgimento da Rússia como potência e ator global no jogo da geopolítica mundial. O Ocidente sentiu-se ameaçado quando os Estados Unidos se sentiram ameaçados. A competição pela hegemonia entre as nações pode vir a afetar a qualquer momento o precário equilíbrio de uma paz que está sendo permanentemente ameaçada.
A paz sem paz
Quando a OTAN foi fundada, em 1949, o mundo sentia os efeitos da Segunda Guerra Mundial e penetrava num clima de tensão permanente que George Orwell chamou de “guerra fria”. Uma paz em que não há paz, definiu. Ao contrário das guerras “quentes”, não tem conflitos bélicos, não conduz à paz e nem reconhece a honra de guerreiros. O verdadeiro objetivo da OTAN foi o de conter a influência e a expansão soviéticas na Europa depois da conflagração em que a URSS saiu vencedora. Inaugurou-se um tempo das “guerras por procuração”, grandes conflitos regionais em que cada um dos lados era apoiado por uma das duas superpotências. O confronto direto foi evitado pelo enorme poder de destruição nuclear dos estoques atômicos mantidos pelos países que lideravam os dois blocos e o temor de que um conflito direto trouxesse a aniquilação total. Em alguns momentos a sobrevivência da humanidade ficou por um fio. Bastaria um descuido, um engano ou um líder ensandecido para ocorrer o horror de uma catástrofe nuclear.
A luta entre as potências caracterizou-se pela guerra psicológica, campanhas de propaganda, espionagem organizada, embargos econômicos e pela corrida espacial. Nenhum país deixou de ser envolvido nesse conflito. O Brasil, entre outros países, purgou uma ditadura de 20 anos promovida pelos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria.
O campo de batalha
A Europa foi o principal campo de batalha dessa guerra estranha. Antes de entrar nas chamadas operações fora de área, a primeira delas no Afeganistão, a OTAN foi à guerra ao intervir no território da antiga Iugoslávia.
Os partidos comunistas da Europa haviam se fortalecido após a Segunda Guerra, a ponto de o primeiro-ministro francês advertir o presidente americano Harry Truman, em 1946, de que os comunistas poderiam chegar ao poder não só na França como também em outros países europeus. O temor era de que o movimento comunista se expandisse de tal forma que viesse a ameaçar os valores capitalistas e avançar sobre as sociedades ocidentais. O historiador Eric Hobsbawm discorda e diz que a União Soviética tinha saído da guerra enfraquecida e estava longe de ser uma nação expansionista.
O analista de defesa britânico Michael Clarke afirma que a OTAN é a maior aliança que o mundo já viu, mas que hoje, com 32 países membros, tem muito menos força do que quando tinha apenas metade desse tamanho. Trata-se de uma análise que foi feita sem considerar o conflito na Ucrânia, que veio a fortalecer a aliança. Sua expansão, na opinião do ex-secretário geral Jens Stoltenberg, cujo mandato durou de 2014 a 2024, é um fator altamente positivo e a sua ação de disseminar a democracia e o estado de direito “é um sucesso histórico”.
O presidente Putin fez um alerta ao Ocidente para não ultrapassar “as linhas vermelhas” que protegem os interesses de segurança nacional da Rússia. A invasão da Ucrânia deve ser vista nesse contexto. Antigos países ocupados pelas tropas do Exército Vermelho, caso das repúblicas bálticas da Estônia, Letônia e Lituânia, e de antigos membros do Pacto de Varsóvia, como a Polônia, já se encontram sob influência da OTAN. A adesão da Ucrânia significaria o completo cerco da Rússia.
OTAN x Pacto de Varsóvia
Tanto a Otan quanto o Pacto de Varsóvia foram criados dentro do contexto da guerra fria, levando os países de cada bloco a se organizarem em acordos de cooperação militar para, se for o caso, enfrentarem-se em campos de batalha inimagináveis. O compromisso era de que, no caso da agressão a um dos membros, tratar-se-ia de uma agressão a todos, embora tanto a Otan quanto o Pacto de Varsóvia fossem também um instrumento de ataque e de invasões territoriais. Na linguagem militar, o ataque é sempre interpretado como defesa. São diversos os exemplos desse tipo de interpretação: Afeganistão, Iugoslávia, Líbia, Iraque, Golfo de Aden, ataques com mísseis na Síria e a própria invasão da Ucrânia. Em todos esses casos, na maioria sob pretexto de salvaguardar a vida ou a liberdade das populações, predominaram os interesses geopolíticos da Europa e, principalmente, dos Estados Unidos.
*Celso Japiassu é autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965).
Foto de capa: A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO/OTAN) completa em 2026, 77 anos, tendo a comemorar fracassos, mas também o retumbante sucesso de ter derrotado a União Soviética | Reprodução / @secgennato




