Por JORGE BARCELLOS*
Comecei a escrever este texto quando li no dia 16 a reportagem de Pedro Trindade e Duda Romagna, do site G1, disponível aqui, que o coronel Cláudio Feoli, comandante-geral da Brigada Militar (BM), afastou os 18 policiais militares envolvidos na abordagem que resultou na morte do produtor rural Marcos Nornberg. O agricultor foi baleado dentro de sua propriedade na zona rural de Pelotas, no sul do RS, na madrugada de quinta-feira (15). Um IPM – Inquérito Policial Militar – foi instaurado pela Corregedoria Geral da Corporação e armas foram apreendidas. Diz a reportagem: “Feoli avaliou que a colisão de percepções no momento da abordagem foi fatal e classificou o caso como ‘um grande mal-entendido com desfecho trágico’. O proprietário acreditava que estava sendo roubado, enquanto os policiais interpretaram a situação como uma agressão por parte de criminosos que controlavam a localidade, disse. O delegado César Nogueira afirmou que a Corporação não tinha conhecimento prévio da operação da BM e classificou o número de policiais e viaturas como ‘incomum’. A operação foi planejada após a BM receber um informe da Polícia Militar do Paraná. A informação, repassada por dois homens presos no estado vizinho, indicava com alta precisão a propriedade de Nornberg como um depósito de armas e veículos roubados.”
Eu me angustio
Como já tratei de violência policial em RED, disponível aqui, eu via com angústia as primeiras notícias do caso de violência policial de Pelotas repetirem o caso que tratei. A razão provém do fato de que sou servidor público aposentado, como os policiais são servidores públicos também, só que da ativa. Naquele ensaio, trato, como hoje, de reconhecer que nem toda a corporação é assim e que a maioria são bons policiais que buscam cumprir seu dever. Eu me angustio porque é preciso criticar os servidores públicos envolvidos na ação e eu temo que isso possa reforçar o coro neoliberal que prega o fim do serviço público; sempre receio que criticar os erros do serviço público seja o caminho mais curto para iniciar a privatização deste ou daquele serviço. Pois é o contrário: precisamos sempre de mais políticas públicas, mais servidores públicos, mais qualificação e mais recursos. Mas a reportagem de Zero Hora deste final de semana, disponível aqui, traz novas informações que apontam para a execução do agricultor. O fato me confirma mais uma vez a máxima que apontei no artigo anterior, na fala do encarregado de investigar naquela época a morte de Valdemar Both, de 53 anos, por policiais da Brigada Militar (BM), durante atendimento de uma ocorrência de suposto crime ambiental no interior de Santa Maria: “A gente não é treinado para dar tiro na perna. A gente não é treinado para dar tiro de advertência. A gente é treinado para dar dois tiros no tórax. E é isso que a gente faz”, disse o encarregado do caso ao RBS Notícias em 3 de julho de 2025.
É que até então eu entendia que o caso de Pelotas se tratava de uma situação polêmica porque misturava erro policial, morte de uma pessoa inocente e a tensão que esse gesto provoca na sociedade. Se um morador que vive no interior em sua casa, distante de tudo e de todos, pode ser vítima de violência policial, é porque qualquer cidadão em qualquer lugar e hora também pode. E isso é assustador. Com um ano eleitoral a caminho, é mais lenha na fogueira da agenda de combate à violência e sabemos que, direita e esquerda, têm projetos diferentes para isso. De forma geral, a esquerda e a direita divergem nas propostas para combater a violência policial no Brasil porque, enquanto a esquerda prioriza reformas humanistas, a direita enfatiza a persistência de ações contra a violência. De um lado, a desmilitarização, de outro, a autonomia policial. O paradigma em disputa é a realidade carioca, onde, entre 2007 e 2022, foram registradas 629 chacinas decorrentes de ação policial no estado do Rio de Janeiro. Diz reportagem do site Esquerda Online que “A violência policial é a única política pública que chega aos moradores de favelas e periferias, e por onde passam as ações policiais deixam um rastro de sangue.”, disponível neste link.
A violência chega ao interior
O problema é que não estamos falando de uma região conflagrada na guerra contra as drogas, como as favelas do Rio de Janeiro, onde também moram cidadãos trabalhadores que são vítimas de balas perdidas. Estamos falando da pacata vida de um pequeno produtor rural do interior de Pelotas. Não são vielas e ruas ocupadas pelo tráfico onde só passam veículos como o “caveirão”, algo que ficou comum na vida daquelas periferias, é uma fazenda tão isolada e comum como tantas outras na região. A reportagem de Humberto Trezzi e Frederico Feijó destaca que o produtor rural foi atingido por um tiro quando já estava caído: quando deram o tiro fatal em Nornberg, ele já estava caído ao lado da esposa. A possibilidade de execução, segundo a reportagem, é confirmada pelo resumo do laudo da necropsia a que ZH teve acesso que comprovaram disparos de curta distância. Diz a reportagem: “A perícia também concluiu que os disparos foram efetuados a curta distância, evidenciado pelas tatuagens de pólvora observadas na face e no pescoço da vítima. Quanto à dinâmica, os projéteis apresentaram trajetórias predominantemente da direita para a esquerda, de frente para trás e de cima para baixo. O fato de ser de cima para baixo indicaria que Nornberg estava caído quando levou o tiro fatal. A chamada “tatuagem” é provocada por disparos à queima-roupa”. Leio a matéria e penso: como foi possível que se produzisse em nosso estado uma imagem de tamanha brutalidade policial? Felizmente, ao contrário do que geralmente ocorre nos termos de Jappe que citarei adiante, as autoridades tomaram as decisões que lhes cabiam para evitar a articulação que visa não responsabilizar os autores: eles foram retirados da atividade, foram instaurados inquéritos e iniciou-se o processo de responsabilização. É o que afasta o nosso estado da legitimação da necropolítica, a política de morte adaptada pelo estado, onde a violência não é a exceção, é a própria regra.
Por que a própria polícia deve ter interesse em combater erros como esse? Para não ser confundida com bandido. Não foi exatamente isso que a primeira reportagem do G1 registrou no depoimento da esposa da vítima? Diz a reportagem: “A viúva de Marcos, Raquel Nornberg, achou que estava diante de bandidos, em razão da truculência e do linguajar usado pelos policiais na abordagem. [Ela diz] ‘A gente achou que era bandido, a gente jamais imaginou que era polícia. Abriram meu roupão, debocharam de mim, mandaram eu me ajoelhar em cima do lugar que estava cheio de caco de vidro [estilhaçados após tiros atingirem uma janela]. Foi uma brutalidade. O tempo inteiro eu achei que eram bandidos’, conta. Raquel afirmou que só percebeu que se tratava de uma ação policial ao ver os uniformes, mas que a brutalidade a fez duvidar: ‘Não consigo entender que a polícia faça uma ação dessas e trate pessoas do bem como criminosas. É uma dor que tu não tens noção.’”
E se tivéssemos um Enamed das polícias?
Penso no problema na mesma semana em que o governo divulga os resultados do principal mecanismo que avalia estudantes de medicina e os cursos no Brasil, o Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), aplicado anualmente pelo Inep/MEC desde 2025. Os cursos recebem conceitos de 1 a 5 com base no rendimento dos alunos, estabelecendo quais os cursos críticos, os com risco de suspensão, e quais são os excelentes. Na última edição, 107 cursos ficaram com notas entre 1 e 2, o que é ruim e muito ruim, três deles no Rio Grande do Sul. Ainda que as corporações de universidades da área tenham tentado barrar a divulgação, o Enamed revelou-se um instrumento importante para aferir a qualidade dos formandos e cursos de formação.
Olho o caso de Pelotas e vejo o argumento de Feoli, que avaliou que a colisão de percepções no momento da abordagem foi fatal e que classificou o caso como “um grande mal-entendido com desfecho trágico”. Mal-entendido aqui é sinônimo de erro, e o erro policial, como o erro médico, pode ser fatal. O Enamed foi construído para evitar o erro médico. Na medicina, a forma de buscar a redução do erro é a busca por qualificação e avaliação. Até onde pesquisei, o problema é que no Brasil não existe um exame nacional unificado e padronizado como o Enamed para avaliar de forma contínua e coletiva a proficiência de policiais em serviço ou a qualidade dos cursos de formação policial. As avaliações são por concurso para ingresso, promoções, mas não há um mecanismo nacional equivalente à Enamed. Isso não significa que as provas objetivas, os testes de aptidão física ou outros exames usados para selecionar candidatos sejam insuficientes, e eu mesmo não nego seu valor. Mas eu gostaria propor uma discussão: uma padronização nacional poderia vir a auxiliar a formação de policiais para evitar que tragédias como a de Pelotas se reproduzam em nossa sociedade? Entendo que a proposta é algo que pesquisadores e autoridades da área, mais especializados do que eu, podem responder.
É bom a centralização da avaliação ou não?
É que entendo que o Enamed, pelos resultados que obteve, é uma proposta importante. Ainda que existam diretrizes nacionais para a formação de policiais no Brasil similares às DCNs, Diretrizes Curriculares Nacionais, o problema é que sua aplicação é menos uniforme e centralizada. Pesquisei na internet e encontrei a Matriz Curricular Nacional para Profissionais de Segurança Pública instituída em 2003 pelo Ministério da Justiça, que orienta conteúdos mínimos em direitos humanos, uso da força e polícia comunitária para polícias militares, civis e federais. Ela define eixos como formação humanística, técnico-operacional e gerencial, com ênfase em democracia e cidadania, aplicada em cursos de formação de oficiais e soldados. Ela foi reforçada pela Lei 13.675/2018, a Política Nacional de Segurança Pública, mas sua implementação varia por estado, sem exame nacional. Esse é o problema.
No dia seguinte à matéria de G1, o site publicou nova reportagem de autoria de Duda Romagna, sobre a morte do agricultor apontando que restavam ainda quatro pontos a serem esclarecidos no caso de Pelotas: 1) A origem da pista falsa, o que significa saber o porquê a informação repassada indicava com tanta precisão a casa, o que, na interpretação da jornalista, sugere erro de inteligência, pista falda deliberada ou falha na interpretação do georreferenciamento; 2) a razão por que não foi comunicada a Polícia Civil de uma operação de grande porte e 3) apuração da conduta dos policiais, para saber se houve ou não procedimentos corretos em confronto, bem como análise do conteúdo das câmeras de segurança. Eram estas as questões em andamento até meados da semana passada.
As falhas da inteligência policial
Nessa semana, antes da reportagem de ZH, eu havia perguntado à IA Perplexity o que teria acontecido que levou ao erro policial em Pelotas. Ela apontou para as seguintes “Falhas de Inteligência Policial: 1) Falta de validação cruzada: A denúncia de dois jovens presos em Guaíra (PR), com suposta geolocalização apontando o sítio como “depósito de armas”, não foi verificada com dados locais da BM ou da Polícia Civil, ignorando protocolos de inteligência colaborativa. 2) Ausência de vigilância prévia: Sem monitoramento remoto ou drone, a equipe invadiu à noite sem identificar o proprietário ou caseiro, escalando tensão desnecessariamente em zona rural vulnerável e 3) Compartilhamento interestadual precário: Dependência de informação verbal do PM-PR, sem integração via sistemas como Sinesp ou Infoseg, reflete fragmentação que privilegia ação rápida sobre precisão, comum em PMs”. Eu não sei quanto a você, mas a resposta da IA me parecia um caminho importante de investigação para as autoridades encontrarem os acertos e erros da corporação. Qual é o problema dessa visão? Tanto a IA, como eu ou você, não estávamos lá. Por isso, as imagens de câmera dos policiais são mais importantes do que o recurso da IA, pois permitem reconstruir, mais do que protocolos, uma situação real. E pela reportagem de ZH, as previsões de IA coincidem com as dos jornalistas: não houve confirmação da informação, nem levantamento de informações, nem observação de campo para verificar presença de atividade criminosa, nem aviso à Polícia Civil. “Na pressa de capturar a suposta quadrilha, os policiais não esperaram o dia amanhecer – o que seria aconselhável, para reduzir a possibilidade de ocorrerem equívocos”.
É verdade que os servidores teriam avisado que eram da polícia, mas a reportagem diz que a confusão ficou maior porque alguns não estariam uniformizados “por integrarem o serviço reservado da BM. Isso contribuiu para que o dono da casa pensasse que se tratava de assaltantes. Os policiais reagiram ao tiro disparado pelo produtor rural. Até por isso, alegam legítima defesa. Só que teriam cometido excessos”, diz a reportagem. Os “excessos” de que fala a autoridade, a morte do agricultor, atende pelo nome de execução. A forma como nomeamos as coisas também exercem poder. Judith Butler, em obras como Problemas de gênero e Despossessão, argumenta que os nomes ou termos que atribuímos às coisas – seja ao corpo, ao gênero ou aos atos sociais – não são neutros ou descritivos, mas performativos: eles constroem a realidade que aparentemente quer apenas nomear, regulada por discursos de poder que tornam certas coisas inteligíveis e outras não. Invocar “excesso” invoca legitima defesa e legitimidade estatal; invocar execução subverte isso, pois questiona o monopólio da força policial. É neste ponto que concordo com a tese da esquerda: se desmilitarizada, tais “excessos” não aconteceriam. Por isso é preciso desnaturalizar o “excesso” para reconstruir a vítima sua agência plena: era um agricultor inocente. A família tem direito ao luto como toda a sociedade, e os autores devem ser zados.
A repercussão da execução foi ampla. Jarbas Tomaschewski, Coordenador Editorial e de Projetos do A Hora do Sul, de Pelotas, publicou um artigo, onde analisa a morte do produtor rural. Ele reitera a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de 11 de abril de 2024, que responsabiliza o Estado pela morte de cidadãos em operações policiais. “A Corte definiu que a existência de uma perícia sem conclusão sobre a origem do disparo, por si só, não deve retirar a obrigação de indenizar. Para não ser responsabilizado, o Poder Público deve demonstrar que seus agentes não provocaram a morte ou os ferimentos. Tomaschewski ouviu o promotor de Justiça aposentado e professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), José Fernando Gonzalez, que se disse perplexo: “O Estado existe, a Segurança Pública, para nos proteger e não para nos matar. Tudo está errado no episódio. E culpou o fluxo da informação pelo incidente: “Informação de um bandido que contou uma coisa para um policial militar no Paraná. E esse policial militar do Paraná contou para alguém aqui…”
O medo policial ruralizou-se
Qual é a consequência desta ação policial? Levou para o interior a sensação de medo absoluto vivida nas grandes cidades. “A população rural hoje vive o fantasma da insegurança, com medo do assalto, da desproteção, porque infelizmente o nosso país é um país violento. Então, se você tiver que ter medo também do Estado, aí nós estamos numa situação dramática. E as pessoas passam a ter medo do Estado porque, com todo o respeito à Polícia Militar, isso que aconteceu está num grupo de erros que são inadmissíveis. Acho que os erros podem ser reconhecidos, mas existem os erros possíveis, os erros razoáveis, os erros toleráveis e os erros que são como esse, 100% inadmissíveis. Não é possível que isso aconteça.”Gonzalez também apontou para a importância dos policiais se identificarem [não havia, até a reportagem de ZH do fim de semana, certeza disso]. “Agora, se você chega às três da madrugada para entrar na casa de alguém e vai arrombando tudo, não é um procedimento padrão de polícia. Tem que se identificar. O fato de a pessoa estar com uma arma dentro da casa é direito dela. Ela tem que se defender. Se pegou a arma, evidentemente é porque não houve uma identificação conveniente de quem estava do lado de fora. E essa busca policial, repito, não pode acontecer às três horas da madrugada, porque a Constituição Federal veda isso. Nem com mandado do juiz. Então, são muitos erros.” As acusações de Gonzalez são graves. Cabe aos envolvidos e às autoridades manifestação.
A importância dos vídeos
Reportagem de Guilherme Sperafico ao Jornal Correio do Povo, já afirmava que a família apostava nas imagens gravadas no local para esclarecer como ocorreu a abordagem policial. E estava certa. Segundo Sperafico, “Eles ainda estão tentando se recompor”. A reportagem relata entrega ao advogado de vídeos gravados por celulares e imagens do sistema de segurança da propriedade. “O que se tem agora são imagens produzidas pelos próprios familiares durante o desfecho do fato. A Raquel ficou cerca de uma hora e meia detida dentro da residência e, durante e após esse período, familiares conseguiram registrar algumas cenas”. E continua: “As gravações do sistema de monitoramento, que já haviam sido entregues à Polícia Civil, mostram o entorno da casa no momento da abordagem, incluindo a forma como os policiais ingressaram no local. Só havia uma câmera externa, mas ela permite visualizar os policiais, a forma como chegam na propriedade e como entram na casa. Como a câmera tem captação de som, ela traz outros elementos que também serão analisados”, disse, sem entrar em detalhes.
Quando comecei a escrever este texto, eu ainda estava no aguardo da resposta que perturba o leitor: o que de fato aconteceu? Com as novas informações, estamos mais próximo da verdade: uma sucessão de erros que levou a uma execução. Sou como o leitor, quase leigo em termos de conhecimento de políticas de segurança; e, meu contato com policiais propriamente dito, se no ensaio anterior, se resumia ao bom atendimento e cortesia num momento de fiscalização, agora se resume ao contato com um adestrador de minha collie, como disse no ensaio da semana passada. Meu adestrador é policial; ele é responsável pelos cães da corporação e vive os dilemas de ser servidor público no estado: a dedicação ao trabalho frente a pouca valorização, a falta de infraestrutura e os problemas de uma equipe reduzida. Só posso ser solidário ao seu trabalho: aos policiais que produziram uma execução, não.
Isso é coisa do Brasil. Só que não.
Pensamos que tais fatos só acontecem porque estamos no Brasil, mas não é bem assim. Anselm Jappe, em seu texto “A violência policial na França surpreende?” (disponível em https://aterraeredonda.com.br/a-violencia-policial-na-franca-surpreende/) mostra que no mundo todo vê-se a presença da violência policial. Na França, um país culturalmente surpreendente, a violência também faz parte das suas policias. Ele diz: “A primeira imagem da violência, assim que se chega na estação de trem ou no aeroporto da França, é a polícia. Nunca vi tantos policiais na França como agora, especialmente em Paris […] E que policiais! um ar de brutalidade e arrogância que desafia qualquer comparação. Ao fazermos a menor objeção – por exemplo, em verificações de identidade e revistas de bagagem antes de entrar no trem, nunca vistas – sentimos que estamos à beira da prisão, da agressão e da acusação de ‘resistência às forças da ordem’, e que reagimos com indignação ao sabermos dos crimes da polícia através da mídia. Há momentos em que você prefere, olhando em retrospecto, ter exagerado. Não é o caso aqui.” Tanto na França como no Brasil, o problema é o mesmo. Por isso, ele busca situar o problema num nível mais profundo: a assimetria da relação entre o policial e o não policial.
Ele diz que na França, mas também no Rio de Janeiro, a violência policial e o racismo andam de mãos dadas, já que as estatísticas mostram que os negros são as vítimas preferenciais da violência. Nesse caso, sequer os analistas poderão dizer que o caso de Pelotas foi produto do racismo, já que a vítima era branca e trabalhadora. Não, a violência já não é uma questão de racismo, mas isso apenas recoloca como Jappe vê o problema: “Embora não seja verdade que “todo mundo detesta a polícia” (na realidade, uma parte da população a adora e nunca se cansa dela, e os programas dos partidos de direita e extrema direita se reduzem basicamente à promessa de reforçar a polícia e deixá-la completamente livre para atuar), parece certo que ‘a polícia odeia todo mundo’”. Jappe se referia aos coletes amarelos agredidos em manifestações francesas da época que eram, afinal, indubitavelmente gauleses, como me refiro à vítima policial. Ela seria a nossa versão desse ódio? Espero que não. O problema não é o racismo que está em toda parte, inclusive entre os franceses e que os policiais franceses afirmam que ocorre em todas as categorias profissionais, mas o fato de que um policial tem mais condições de extravasar seu racismo ou qualquer outro sentimento que um corretor de seguros – que, como diz Jappe, só faria piadas imbecis – e isso é um ponto de reflexão. Mesmo Jappe considerando o elevado número de policiais de direita e extrema direita, ele afirma que o policiamento não se limita a esses fatos extremos, seus problemas não se resumem a um melhor treinamento e a expulsão das maças podres da corporação “Almas puras podem acreditar que, com treinamento policial mais longo, passando de oito para doze meses, tudo seria diferente. Ou ainda, que bastaria um treinador dizer que não se deve bater em um negro da periferia sem motivo para que eles deixassem de fazê-lo. Aumentar a “diversidade” da corporação também é proposto como solução. No entanto, os policiais na Nigéria costumam ser ainda menos delicados com seus cidadãos do que seus colegas franceses! E, nesse caso, nem pode ser uma questão de racismo.”
Um poder assimétrico
Por isso, Jappe atribui o problema da violência ao nível profundo da assimetria da relação entre o policial e o não policial. Ele diz: “A explicação é fácil: pegue alguém, arme-o até os dentes, coloque-o em uma corporação na qual sempre se defendam os colegas sem discutir, deixe-o chamar reforços ao menor sinal de problema, decida que o fato de não lhe obedecer de imediato constitui um delito de ‘resistência às forças da ordem’ ou de ‘desacato ao funcionário público’ – ainda que se trate apenas de responder em tom diferente de ‘respeitoso’.” Assegure que praticamente qualquer tratamento infligido ao cidadão pelo policial seja atendido pelos seus colegas, e depois pelos superiores; que os relatórios feitos na camaradagem ou claramente falsificados sejam corriqueiros, enquanto a vítima é acusada e condenada, mesmo contra todas as evidências. Providencie ainda – na probabilidade muito pequena de o policial ser investigado, quando há imagens inegáveis – que ele seja julgado primeiro por seus próprios colegas (a “polícia policial”) e quase sempre absolvido. Por fim, mesmo na probabilidade ainda menor de seu caso chegar aos tribunais, ele será absolvido ou receberá uma pequena pena, voltando rapidamente ao trabalho. Assegure-se também de que, em caso de condenação, mesmo leve, ele receba solidariedade incondicional de seus colegas e que os sindicatos da polícia – eles sim em “processo de radicalização” – organizem manifestações nas ruas (sem autorização prévia), que parte das forças políticas o transforme em mártir e arrecade dinheiro para sua defesa. Assim, como pode surpreender que muitos policiais não resistam à tentação de cometer prevaricações impunemente?”
A violência é estrutural
Com essa descrição, Jappe nos quer apontar para o fato de que o problema está na cultura estrutural das corporações. Por isso a atuação firme do Estado na investigação e na responsabilização dos culpados importa. “Relações assimétricas levam facilmente ao abuso, envolvendo muitas vezes sentimentos e relações de sadismo latente, desejo forte de onipotência. Não é preciso que todos os policiais sejam valentões sádicos: se não são muitos mas se agem com impunidade (até com a aprovação dos superiores), eles dão o tom para os demais.” Tanto no Brasil como na França, pessoas são mortas por policiais por motivos injustificáveis: de uma simples discussão verbal a um mal-entendido, a vítima pode ser um cidadão. Diz a reportagem de Zero Hora que “um dos policiais teria comentado sobre a vítima algo como “mexeu a cabeça”, antes de dar o disparo fatal, segundo Raquel, sua esposa. Não é a mesma coisa? Diz Jappe: “Pode-se dizer ‘me deixe em paz, idiota’ para todo mundo. Mesmo quando dito ao patrão, no máximo se corre o risco de demissão. No caso da polícia, porém, arrisca-se a vida”. No Brasil, basta mexer a cabeça.
Já vivemos um mundo polarizado pelo ódio político, mas como diz Jappe, “Porém, quando se lhe conferem armas, cúmplices e a garantia de ‘estar coberto’, têm-se um problema”. Penso nisso quando lembro o argumento de Leonardo Boff. Para ele, ainda vivemos os efeitos da Era Jair Bolsonaro: “O legado pior e mais perverso deixado pelo presidente fujão e ladrão de presentes oficiais, doados por autoridades de outros Estados, além de inúmeros outros crimes políticos, foi este: atiçar o ódio e a violência desbragada nas relações sociais”. Leio de novo em Zero Hora que uma gaúcha, no Nordeste, praticou racismo e o próprio Boff enumera inúmeros casos que comprovam que a violência e o ódio emergiram de maneira intensa nas relações sociais. Continua Boff: “o povo deu-se conta de que assim não se pode viver e conviver. Elegeram, pela terceira vez, alguém, um representante da senzala social: Luiz Inácio Lula da Silva. Seu governo se confronta com uma tarefa ingente: reconstruir uma nação devastada no seu corpo e no seu espírito. As raízes desse desumanismo estão ainda aí e estarão sempre, pois, são parte de nossa condição. Mas as mantemos sob controle. O povo e a nação optaram pela luz contra a sombra, pelo amor contra o ódio, pelo sim-bólico contra o dia-bólico.”
Por isso, a assimetria estrutural prevista por Jappe não pode vingar. A disposição das autoridades de investigar é bem-vinda; o afastamento dos policiais, obrigatório; o acompanhamento público, urgente. Os policiais não podem viver de um paradigma hobbesiano distorcido: o PM não pode se ver como o soberano em guerra permanente contra um inimigo interno, que justificaria, inclusive, invasões noturnas sem mandato e execuções; é preciso reconhecer que o poder disciplinar da corporação, que transforma cidadãos em suspeitos como sugere Michel Foucault em Vigiar e Punir, pode ser fatal. O sítio em Pelotas era um espaço vulnerável, e priorizar a letalidade sobre o diálogo é errar em algo básico: as pessoas não podem ser reduzidas a meios, um alvo a ser atingido. Por isso, uma accountability externa é uma opção e a reflexão, mais uma vez, obrigatória, sobre como nossas instituições policiais devem agir em situações de violência. Como fazer com que nossas polícias também tenham, entre seus princípios, uma ética do cuidado?
*Jorge Barcellos é graduado em História (IFCH/UFRGS) com Mestrado e Doutorado em Educação (PPGEDU/UFRGS). Entre 1997 e 2022 desenvolveu o projeto Educação para Cidadania da Câmara Municipal. É autor de 21 livros disponibilizados gratuitamente em seu site jorgebarcellos.pro.br. Servidor público aposentado, presta serviços de consultoria editorial e ação educativa para escolas e instituições. É casado com a socióloga Denise Barcellos e tem um filho, o advogado Eduardo Machado. http://lattes.cnpq.br/5729306431041524
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