A Violência que nos Acompanha e Ameaça

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Por NUBIA SILVEIRA*

“Sabemos que somos humanos porque não somos bons”, afirma Vicente Van-Dunem em Mestre dos Batuques, de José Eduardo Agualusa. Vicente, um rico comerciante de Luanda, explica, no final do século XIX: “somos mais cruéis do que as bestas selvagens, porque escolhemos sê-lo. É a maldade, a maldade pura, sem motivo, que nos distingue das feras”. Eu me atreveria a completar a afirmação de Van-Dunem, dizendo que os humanos se diferem entre si apenas quanto ao grau de crueldade. Alguns se permitem ser mais perversos do que os outros.

De tempos em tempos, surgem (ou ressurgem?) os que sonham em vencer o Nobel das Atrocidades. São humanos que decidem ser mais truculentos do que os outros e cujo único objetivo é saciar seus desejos de poder, de riqueza e de viver cercado por subservientes ou, melhor ainda, por escravizados. Eles destroem a esperança de quem acredita que a maldade poderia ser mantida sob um mínimo de controle, por meio de tratados firmados ao longo dos séculos.

O jornalista Flávio Aguiar, em seu texto A Paz de Vestfália (1645 – 1648) vs. a Pax Americana (2025), publicado em 20 de janeiro, na RED – Rede Estação Democracia, nos lembra que “o respeito à soberania dos Estados Nacionais, incluindo a integridade de seus territórios; consequentemente, o princípio da não intervenção de um país nos assuntos internos de outro”, foi estabelecido pela Paz de Vestfália, tratado firmado na primeira metade do século XVII. Nos séculos posteriores, as constantes violações às determinações desse tratado, resultaram nas grandes catástrofes como foram as duas guerras mundiais do século XX.

Neste ano em que os Estados Unidos completam 250 anos de sua independência, o mundo assiste, aterrorizado, o surgimento de um político autoritário, violento, estúpido, desrespeitoso, ameaçador, narcisista e megalômano (para ficar em apenas alguns qualificativos). Prepotente e decidido a tomar o que quer pela força, Donald Trump retomou a política do porrete ou do canhão, atacando, humilhando e espalhando pânico até entre os aliados, com a desculpa de fazer a “América grande novamente”. Por trás dessa bandeira, esconde interesses pessoais: já deixou claro o desejo de apossar-se das riquezas das nações latino-americanas e do Caribe. Não se envergonha de justificar seus atos com mentiras, inventadas por ele e sua camarilha.

Em Davos, na Suíça, enquanto o exército israelense segue bombardeando Gaza diariamente, Jared Kushner, genro e assessor de Trump, apresentou com grande entusiasmo, durante o Fórum Econômico Mundial, o projeto do republicano para a Faixa de Gaza. Sobre os escombros de Gaza, planeja construir uma espécie de Dubai ou Singapura, com grandes arranha-céus em toda a costa do território. Diz que não há um plano B para os palestinos. Segundo Kushner, na “nova Rafah” e na Cidade de Gaza, serão construídas, inicialmente, 100 mil residências. Na visão de Kushner e de seu sogro, Gaza pode vir a ser um importante destino turístico. Um plano que, se efetivado realmente, representará milhões de dólares para as empresas de Trump e de seus amigos.

As ações internas e externas de Donald Trump, nos últimos 12 meses, e a apatia de autoridades mundiais que só agora começam a esboçar alguma reação, me jogaram dentro dos anos 1930. Me senti vivendo sob o tacão de Adolf Hitler, que atacou compatriotas e vizinhos. Os alemães assistiram sem reagir a perseguição a judeus, homossexuais, ciganos e outras minorias. Hitler torturou, matou e usou os corpos dos presos para experiências brutais, sem que uma voz se levantasse dentro e fora do país. Em nível internacional, Hitler contava com o apoio de regimes autoritários, a exemplo da Itália, do ditador Benito Mussolini, e com a fraqueza de governantes como o primeiro-ministro Neville Chamberlain, do Reino Unido, e o líder da União Soviética, Josef Stalin. Eles defendiam o diálogo e a assinatura de tratados de paz com o alemão. Deu no que deu. Sem respeitar qualquer tratado e livre de qualquer poder limitador, o nazista, que nunca negou seus ideais expansionistas, anexou a Áustria (1938), invadiu a Checoslováquia (1939) e seguiu para a Polônia depois que as negociações para a compra de Danzing (Gdansk) não deram certo. E só então a Europa acordou. Inglaterra e França se levantaram em apoio à Polônia. Já era tarde. Na Segunda Guerra Mundial, que se estendeu de 1939 a 1945, morreram 40 milhões de civis e 20 milhões de soldados.

O panorama dos anos 1930 lembra algo? A escritora norte-americana Siri Hustvedt, em artigo publicado no El País, no dia 11 de janeiro, defende que se passe a usar o termo correto para definir Donald Trump: fascista. O experiente jornalista Flávio Tavares, autor de Memórias do Esquecimento, entre outros, afirma: “Trump é UM (a maiúscula é de Flávio) Hitler do século XXI, ainda com mais audácia e menos coragem. Trump não necessita de adjetivos para ser interpretado e definido: BASTAM seus atos substantivos.” Tavares diz que os atos do norte-americano nos levam “a uma constatação simples: Trump é um monstro-monstro. E de um monstro pode-se esperar TUDO. Os monstros não têm medida do passado, nem do presente, e muito menos do futuro”.

Se humanos com o mesmo perfil de Trump já nos levaram à destruição, como voltamos a elegê-los e a lhes dar poder sobre nossas vidas, nossos futuros, nossos sonhos? Por que eles ressurgem, ovacionados, sem grande resistência? Não tendo explicações qualificadas para estas indagações, recorri a Leonardo Beni Tkacz, psicanalista, sócio da APPOA – Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Ele me respondeu com o excelente artigo Sobre as tiranias: uma possível leitura psicanalítica, publicado na revista digital Parêntese, em 21 de janeiro. Tkacz recorre a dois livros de Sigmund Freud –  Psicologia das massas e análise do Eu (1921) e Mal-estar na cultura (1930) – para explicar por que, mais uma vez, baixamos a cabeça para um (candidato a) imperador sem limites, a não ser sua própria (a)moralidade.

Tkacz lembra que em Mal-estar na cultura, Freud ensina que “a cultura nasce como uma forma de deter a agressividade, porém nunca irá eliminá-la”. E que a violência “não desaparecerá, mas poderá ser recalcada, deslocada e até mesmo canalizada”. Portanto, a barbárie surge quando não encontramos “armas” para detê-la. Esta resposta nos esclarece por que estamos, outra vez, tristemente mergulhados no inferno da perversidade.

Resta saber por que os opressores conquistam uma massa tão fiel de seguidores. Tkacz fundamenta sua resposta em Psicologia das massas e análise do eu. Segundo ele, nesta obra, Freud demonstra que “a organização de massas em torno de um líder autoritário (se dá) não apenas pela manipulação ideológica, mas por laços libidinais. A obediência é sustentada por mecanismo psíquico central: a substituição do ideal do Eu por uma figura externa que encarna a autoridade, a força e a promessa de proteção. Desse modo, a tirania encontra seu funcionamento não apenas na política, mas no próprio desejo humano”.

Nesta terceira década do século XXI, acompanhamos silenciosos (acovardados?) o surgimento de tiranos que lembram Hitler: Trump, que faz questão de mostrar que é o maior perverso do século, e Putin. “São autoridades governamentais que encarnam uma fantasia de poder, de força, de ‘homem de bem’ e de onipotência”, explica Tkacz. Nos discursos destas figuras odiosas, diz o psicanalista, sempre aparecem “a promessa da restauração da ordem que fora perdida. Aliás, eles nomeiam os inimigos e autorizam a violência pelas massas”. Surge daí “a banalização da violência que mascara o crime”. Estes amantes da guerra estão dispostos a promover grandes conflitos fora e dentro de seus países. Não interessa o úmero de mortos e feridos, causados por suas ambições.

Faltou perguntar como podemos evitar o desastre final? Como impedir que a violência saia da sombra para nos atormentar? Falha minha. Talvez por medo de ver confirmado o futuro que tememos, apesar das resistências que já surgem dentro e fora dos Estados Unidos.


*Nubia Silveira é jornalista

Foto de capa: : ANGELA WEISS / AFP

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