Nova estratégia de defesa dos EUA prevê pressão militar sobre vizinhos e reforça disputa por hegemonia no Hemisfério Ocidental

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26 de jan. de 2026, 10_28_42

A nova Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos, divulgada pelo governo Donald Trump na última sexta-feira (23), sinaliza uma guinada explícita para o unilateralismo militar e a retomada de uma lógica imperial no Hemisfério Ocidental. Sob o discurso de combate ao narcotráfico e contenção da influência da China e da Rússia, Washington passou a ameaçar abertamente países vizinhos com ações militares caso não cooperem “de boa-fé” com a agenda estratégica da Casa Branca.

O documento, elaborado pelo Departamento de Guerra e assinado pelo secretário Pete Hegseth, defende a consolidação da “plena dominância militar e comercial” dos EUA “do Ártico à América do Sul”, citando como áreas estratégicas prioritárias a Groenlândia, o Canal do Panamá e o chamado Golfo da América. Na prática, trata-se de uma reedição da Doutrina Monroe — agora assumida sem constrangimentos — que subordina a soberania dos países latino-americanos aos interesses geopolíticos de Washington.

Um dos trechos mais contundentes afirma que os Estados Unidos atuarão de forma “ativa e destemida” no hemisfério e que, diante de qualquer resistência, estarão prontos para adotar “ações focadas e decisivas”. O texto chega a usar como exemplo a operação militar que resultou na deposição e prisão de Nicolás Maduro, na Venezuela, apresentada como modelo de intervenção que poderia ser repetido.

A presença do porta-aviões USS Gerald R. Ford no Caribe, em frente ao litoral venezuelano, reforça o caráter intimidatório da nova estratégia e evidencia que as ameaças não se restringem ao campo retórico.

“Boa-fé” sob coerção

Embora o documento mencione cooperação com países vizinhos, o conceito de “boa-fé” apresentado pelo governo Trump está condicionado à aceitação irrestrita das prioridades dos EUA. Canadá, México e países da América Central e do Sul são pressionados a assumir responsabilidades diretas no controle migratório, no combate ao narcotráfico e na contenção da presença chinesa e russa — sob risco de retaliações políticas, econômicas ou militares.

No campo do chamado “narcoterrorismo”, o governo norte-americano se reserva o direito de realizar ataques militares unilaterais contra organizações criminosas em qualquer país das Américas, rompendo com princípios básicos do direito internacional e da não intervenção. A lógica é a da segurança dos EUA acima de qualquer soberania nacional.

China e Rússia como pretexto

A estratégia também explicita a China como principal rival global dos Estados Unidos. Embora o documento afirme não buscar confronto direto, defende o aumento da presença militar norte-americana no Indo-Pacífico, especialmente em áreas sensíveis como Taiwan, Japão e Filipinas. O objetivo declarado é “deter” Pequim por meio da força, enquanto tenta estabelecer um arranjo pragmático entre Trump e Xi Jinping para evitar choques diretos.

Já a Rússia e a Coreia do Norte são tratadas como ameaças a serem “delegadas” a aliados, como a Otan e países asiáticos, reforçando a transferência de custos e riscos para parceiros estratégicos.

Militarização e fechamento de fronteiras

Internamente, a política de defesa do segundo mandato de Trump está alinhada à agenda de endurecimento migratório. O governo quer fechar fronteiras, acelerar deportações e obrigar Canadá e México a colaborar ativamente com esse processo. Ao mesmo tempo, aposta na modernização do arsenal nuclear, na expansão do chamado Domo de Ouro — sistema de defesa aérea — e na revitalização da indústria bélica norte-americana.

Hegemonia sem disfarces

Ao assumir explicitamente o direito de intervir militarmente no Hemisfério Ocidental, o governo Trump abandona qualquer verniz diplomático e reafirma uma visão de mundo baseada na força, na coerção e na hierarquia entre nações. Para a América Latina, o recado é claro: soberania passa a ser tolerada apenas enquanto não contraria os interesses estratégicos de Washington.

A nova Estratégia Nacional de Defesa não apenas tensiona relações históricas na região, como também reacende memórias de intervenções, golpes e tutelas que marcaram o continente ao longo do século 20 — agora sob um discurso renovado, mas com métodos que remetem ao passado.


Imagem destacada: Gerada por IA

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