Por MARIA LUIZA FALCÃO SILVA*
O editorial publicado pelo The Washington Post de hoje (24/02) em defesa do presidente argentino Javier Milei não é apenas uma leitura favorável de um experimento econômico em curso. Ele é, sobretudo, um retrato fiel da visão de mundo que domina o Fórum Econômico Mundial: a crença de que estabilidade macroeconômica, ajuste fiscal e retração do Estado são valores em si mesmos — independentemente de seus custos sociais, estruturais e democráticos.
Davos e sua lente histórica
O encontro anual do World Economic Forum, realizado em Davos, nunca foi um espaço neutro de debate. Desde os anos 1980, consolidou-se como o principal fórum de legitimação da globalização liberal, do financeirismo e da ideia de que mercados autorregulados seriam capazes de organizar não apenas a economia, mas a própria sociedade.
Mesmo quando passou a incorporar discursos sobre desigualdade, clima ou inclusão, Davos jamais abandonou sua premissa central: o capital deve ser protegido, os Estados devem ser contidos e os conflitos sociais devem ser administrados como externalidades. É a partir dessa lente que o entusiasmo com Javier Milei deve ser compreendido.
O editorial do Washington Post como sintoma
Ao afirmar que Milei “traz Davos de volta à realidade”, o editorial do Washington Post não está avaliando a Argentina em sua complexidade histórica, social e produtiva. Está, na verdade, celebrando um governante que confirma as expectativas do próprio fórum:
– corte acelerado de gastos públicos,
– compressão do Estado social,
– desregulação ampla,
– subordinação da política ao mercado.
Os dados destacados — queda da inflação, superávit fiscal, expectativa de crescimento — são apresentados como evidências suficientes de sucesso. O que desaparece do texto é a pergunta fundamental: sucesso para quem? E, mais importante ainda: a que custo?
Estabilidade não é desenvolvimento
Não é necessário negar que alguns indicadores macroeconômicos argentinos tenham melhorado após o choque inicial do ajuste. O erro está em transformar esses resultados em prova de virtude estrutural.
A inflação caiu, em grande medida, pela retraçãoviolenta da demanda interna, pela perda de renda real e pela contração do consumo popular. O superávit fiscal emergiu à custa do desmonte de políticas públicas, da paralisação de investimentos e da deterioração de serviços essenciais. As projeções de crescimento se apoiam, sobretudo, em setores primários e financeiros, não em uma estratégia de transformação produtiva.
Confundir estabilização de curto prazo com desenvolvimento sustentável é um erro clássico — e recorrente — da ortodoxia econômica. A Argentina conhece bem esse filme. E ele nunca terminou bem.
A sociedade argentina entre exaustão e fratura
O apoio social a Milei não pode ser lido como adesão ideológica majoritária ao anarcocapitalismo. Trata-se, antes, de uma resposta desesperada de uma sociedade exaurida por décadas de crise, inflação crônica, instabilidade cambial e frustração política.
Parte significativa da população aceita o ajuste não porque o considere justo, mas porque perdeu a confiança na capacidade do sistema político de oferecer alternativas. Outra parte resiste, protesta e denuncia a perda acelerada de direitos, renda e segurança social.
Essa clivagem profunda não aparece no editorial do Washington Post. A sociedade argentina surge apenas como pano de fundo — quando aparece.
Reduzir o Estado não é reduzir o poder
Um dos aspectos mais celebrados por Davos é o discurso de Milei sobre “reduzir seu próprio poder”. Trata-se de uma formulação sedutora, mas enganosa. O que se reduz não é o poder — é a capacidade pública de organizar a economia, proteger os vulneráveis e planejar o futuro.
O poder não desaparece. Ele apenas se desloca:
– do Estado para o mercado,
– da política para as finanças,
– da sociedade para os grandes interesses privados.
Essa transferência é apresentada como liberdade. Mas, historicamente, produziu concentração, dependência externa e fragilidade social — especialmente em economias periféricas.
Milei, Trump e o alinhamento contra a América Latina democrática
Há ainda um aspecto que o entusiasmo de Davos e do The Washington Post prefere silenciar: o alinhamento explícito de Javier Milei com a agenda internacional de Donald Trump, frequentemente em contradição com os interesses estratégicos da América Latina democrática. Ao se associar a uma visão de mundo marcada pelo unilateralismo, pelo desprezo a mecanismos multilaterais e pela hostilidade a governos progressistas da região, Milei enfraquece espaços de concertação regional como Mercosul, CELAC e Unasul, pilares históricos da autonomia latino-americana. Seu alinhamento automático a Washington — inclusive em temas sensíveis de política externa e segurança — não reforça a soberania argentina nem contribui para a estabilidade regional; ao contrário, aprofunda a fragmentação política do continente em um momento em que a América Latina precisaria atuar de forma coordenada para defender democracia, desenvolvimento sustentável e inserção internacional soberana.
Por que Davos se reconhece em Milei
Davos aplaude Milei porque ele expressa, sem filtros, aquilo que o fórum sempre defendeu, ainda que muitas vezes em linguagem mais polida:
– menos Estado,
– mais mercado,
– menos conflito social visível,
– mais previsibilidade para o capital
Nesse sentido, Milei não “traz Davos de volta à realidade”. Ele confirma a realidade de Davos — um espaço que, diante da crise da ordem liberal, já não promete prosperidade compartilhada, mas apenas administração tecnocrática do colapso.
O silêncio sobre o futuro
Talvez o aspecto mais revelador do editorial seja aquilo que ele não discute:
– Qual é o projeto de longo prazo para a Argentina?
– Qual o papel da indústria, da ciência e da inovação?
– Como reconstruir coesão social após o choque?
– Como evitar nova rodada de dependência externa?
Sem essas respostas, o entusiasmo é prematuro. E perigoso.
A experiência argentina sob Milei não pode ser analisada isoladamente. Ela se insere em um mundo marcado pela erosão das promessas liberais, pela fragmentação da globalização e pela incapacidade das elites econômicas de oferecer horizontes de futuro.
Quando o Washington Post celebra Milei, não está apenas falando da Argentina. Está defendendo uma visão de mundo em que o ajuste permanente substitui o projeto de desenvolvimento e em que os custos sociais são tratados como preço inevitável da racionalidade econômica.
É precisamente essa visão que vem sendo questionada — nas ruas, nas urnas e na história recente.
O problema não é discutir o fracasso de modelos anteriores na Argentina. Eles existiram e foram profundos. O problema é apresentar o ajuste radical como solução universal e moralmente superior, sem enfrentar suas consequências estruturais.
Davos não está sendo “trazido de volta à realidade”. Está apenas reafirmando sua própria cegueira histórica. E a Argentina, mais uma vez, corre o risco de pagar o preço.
*Maria Luiza Falcão Silva é PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É membro da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED). Entre outros, é autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England/USA.
Foto de capa: Reprodução Youtub




