Quarto Branco do BBB, Mais do que um Erro Criativo, um Erro Ético

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Por MOACYR DE OLIVEIRA FILHO*

O chamado quarto branco do Big Brother Brasil, que submeteu seus participantes a mais de 120 horas de confinamento extremo, ultrapassa de forma inequívoca qualquer limite aceitável de entretenimento. O que foi apresentado ao público como uma simples “dinâmica psicológica” ou um teste de resistência emocional aproxima-se perigosamente de práticas historicamente reconhecidas como desumanas e cruéis, evocando a memória da chamada “geladeira”, método utilizado pelos órgãos de repressão da ditadura militar brasileira, em especial no DOI-CODI do Rio de Janeiro, que funcionou no Quartel da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca.

Um espaço completamente branco, sem referências visuais, sem variação cromática, sem estímulos sensoriais relevantes e sem qualquer noção clara da passagem do tempo não é apenas desconfortável ou entediante. Trata-se de uma forma clássica de privação sensorial, reconhecida por estudos psicológicos e por organismos internacionais de direitos humanos como técnica associada à tortura psicológica. Não se trata, portanto, de exagero retórico ou comparação leviana, mas de um paralelo ético incontornável. A tortura não se define apenas pela violência física direta; ela se manifesta também na desorientação mental, na quebra da percepção do tempo, na perda de referências e na anulação progressiva do sujeito.

“A proposta do quarto branco é levar os participantes ao limite, aumentando a pressão psicológica e a tendência a decisões impulsivas à medida que o tempo passa”, explicou a Rede Globo.

Em depoimentos reunidos pelo projeto Brasil Nunca Mais, presos políticos descreveram assim a “geladeira”, um dos modos de tortura usados pela ditadura: “Havia um excesso de sons que pareciam sair do teto, muito estridentes, dando a impressão de que os ouvidos iam arrebentar”; “naquela sala havia sons estridentes, ensurdecedores, capazes até de produzir a loucura”; “no teto dessa sala existia uma lâmpada fortíssima. Ao ser fechada a porta ligavam produtores de ruídos cujo som variava do barulho de uma turbina de avião a uma estridente sirene de fábrica”.

Historicamente, a privação sensorial foi empregada como método para enfraquecer resistências, induzir sofrimento psíquico intenso e produzir submissão. Ao reproduzir elementos centrais dessa prática em um programa de entretenimento, exibido em horário nobre, a televisão contribui para a banalização da tortura, transformando em espetáculo aquilo que, para milhares de brasileiros, foi instrumento real de perseguição política, dor profunda e, em muitos casos, morte. O sofrimento imposto deixa de ser reconhecido como violência e passa a ser consumido como curiosidade, jogo, experiência extrema ou prova de resistência.

Essa banalização torna-se ainda mais grave quando praticada por uma emissora que opera por meio de concessão pública. A televisão aberta não é um empreendimento privado comum: ela ocupa o espaço público, utiliza um bem público — o espectro eletromagnético — e, por isso, carrega responsabilidades sociais, éticas e históricas proporcionais ao seu alcance e influência. Não se pode admitir que, em nome da audiência ou da inovação narrativa, práticas que remetem a métodos de exceção sejam normalizadas, estetizadas ou tratadas como entretenimento legítimo.

Ao flertar com dispositivos que evocam a tortura, a televisão não apenas desrespeita a memória histórica do país, como também contribui para relativizar crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura militar. Trata-se de um gesto simbólico perigoso, que enfraquece o compromisso coletivo com o “nunca mais” e transforma o sofrimento humano em recurso narrativo descartável, desprovido de contexto, responsabilidade e empatia.

Uma emissora que ocupa o espaço público tem o dever de informar, entreter e respeitar. Jamais de reproduzir, ainda que de forma disfarçada ou espetacularizada, práticas que remetem à tortura. Ao fazê-lo, incorre em algo que não pode ser naturalizado: uma forma de apologia à tortura, o que configura crime. O quarto branco não é apenas um erro criativo ou uma escolha infeliz da produção do programa. Mais do que isso, é um erro ético, que exige crítica pública, reflexão e responsabilização.

O Ministério Público, o Ministério de Direitos Humanos e entidades de defesa dos direitos humanos deveriam se manifestar.


*Moacyr de Oliveira Filho é jornalista, diretor de Jornalismo da Associação Brasileira de Imprensa – ABI.

Foto de capa: Reprodução/Globoplay

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