Por ARLINDO VILASCHI*
A política externa dos Estados Unidos sempre foi imperialista em todas as partes do mundo. Nas Américas, esse imperialismo se explicitou com a doutrina Monroe, que resultou em processos de neocolonialismo, a partir do final do século XIX.
Neocolonialismo que transformou vizinhos de continente em ‘repúblicas das bananas’, em fornecedores de matérias primas e em mercados cativos para seus produtos industrializados. Quando alguma busca de trajetórias alternativas a práticas de submissão total a seus interesses econômicos e geopolíticos surgiu, as respostas foram sempre contundentes.
Golpes explícitos e implícitos foram patrocinados, fosse com intervenção direta ou com apoio a movimentos internos de militares e forças políticas, adesistas de primeira hora aos interesses de Tio Sam. No Brasil, isso se deu em diversos momentos em que o País buscou modelo mais autônomo de desenvolvimento econômico.
Sob Vargas, pela ousadia de buscar a industrialização pesada com o estabelecimento de siderúrgica em Volta Redonda, pela bem sucedida articulação da campanha “O Petróleo é Nosso”, e pela criação da Petrobras. Sob JK, pela busca de viabilizar a industrialização substituidora de importações, atraindo tecnologia europeia. Sob Goulart, pelo conteúdo das necessárias reformas de base. Sob Geisel, pelos elementos nacionalistas do II Plano Nacional de Desenvolvimento e pela busca de desenvolvimento de tecnologias próprias, tanto na exploração de petróleo, quanto na produção de energia nuclear para fins pacíficos.
Sob Lula e Dilma, por ousarem apoiar o desenvolvimento tecnológico e produtivo em áreas estratégicas, como a indústria naval, a da construção pesada, a da exploração de gás e petróleo em águas profundas e a da agricultura intensiva em tecnologia, dentre outras. Projetos bem sucedidos, que foram desmontados através do golpe de 2016 e do lawfare posto em prática pela Lava-Jato, sob o patrocínio e orientação do governo estadunidense.
Práticas imperialistas, disfarçadas como apoio à democracia ou como combate à corrupção, mesmo quando essas se davam com os mesmos métodos utilizados pelas empresas ianques. Nesse sentido, o que começa a ser posto em prática pelo governo Trump na Venezuela e as ameaças a outros países no continente americano e mundo afora, é a repetição do mesmo de sempre, com uma diferença substancial: A intervenção na Venezuela se dá sem hipocrisia. O objetivo declarado é o controle da exploração de seu petróleo e o uso dos recursos daí advindos para a compra de produtos dos Estados Unidos. As ameaças de intervenções em outros países das Américas, bem como de aliados europeus, também são feitas em nome da exploração de recursos naturais e do uso da força militar, na busca de frear a ascensão de seu principal rival econômico, a China.
Essa ascensão foi acelerada ao longo do Século XXI, em total concordância com as regras estabelecidas por organismos multilaterais, criados no pós-Segunda Guerra, sob forte influência dos Estados Unidos. Enquanto esses buscaram proteger seus interesses econômicos e geopolíticos, de curto prazo, com tarifas e bloqueios, a China vem construindo parcerias de longo prazo.
Tais parcerias vão além da simples compra e venda de mercadorias, e se consolidam com investimentos em infraestrutura e no desenvolvimento produtivo em continentes há muito abandonados por seus colonizadores europeus (com destaque para a África e a América) e pelo neocolonizador Estados Unidos.
O uso explícito da força vai além da tentativa de criar sobrevida para suas decadentes empresas produtivas; busca assegurar territórios para a expansão de seu complexo industrial-militar, de seus feudos tecnológicos e de seus gestores de fundos financeiros. Expansão buscada com todos os instrumentos possíveis, desde o desrespeito aos princípios democráticos, à manipulação de mercados financeiros e ao uso de força militar.
Para além de especulações sobre os riscos e oportunidades abertas ao Brasil, diante desse cenário, vale buscar o debate aberto e amplo, para muito além do rasteiro e inconsequente “venham os ianques salvar os princípios de pátria, família e Deus”. Diante do reacionarismo do Congresso Nacional, dele pouco pode se esperar, além de demonstrações lamentáveis de apreço às bandeiras dos EEUU e de Israel.
Razoável é desejar que a sociedade civil, a academia e os meios de comunicação ensejem debates consequentes sobre o que está acontecendo em nossa vizinhança, além dos riscos que corre a soberania nacional. Soberania que se coloca em prática, quando se busca a construção de um país autônomo, em suas decisões internas, na busca de um mundo econômica e politicamente multipolar.
A multipolaridade é rejeitada pelo imperialismo dos Estados Unidos, de forma explícita e, desta feita, sem hipocrisia por Trump. Se dele se desconhece qualquer apreço pela democracia e pelas regras que a fundaram em seu próprio país, faça ideia no resto do mundo.
Arlindo Villaschi É Professor de Economia.
Foto de capa: Getty Images




