Por FÁBIO DAL MOLIN*
Nos últimos anos, o Brasil tem enfrentado um preocupante aumento nos casos de feminicídios e agressões contra mulheres. Dados de organizações especializadas e de órgãos públicos apontam que o número de mulheres vítimas de violência doméstica, física e psicológica continua elevado, evidenciando um cenário alarmante para a sociedade brasileira. Esses crimes, muitas vezes cometidos por companheiros ou ex-companheiros, refletem questões profundas de machismo estrutural e desigualdade de gênero.
Apesar dos avanços legislativos, como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio no Código Penal, ainda há desafios significativos na efetiva proteção das mulheres e na punição dos agressores.
No ano de 2019, com a direção de Luiz Bolognesi, foi produzida a série documental “Guerras do Brasil.doc” que narra cinco episódios da sangrenta genealogia de nosso país: o genocídio indígena, a guerra do Paraguai, a revolução de 30, o massacre de Palmares e a dominação do Comando Vemelho. Em uma das primeiras cenas, Airton Krenak olha para seu entrevistador (que está fora do quadro, ao lado da câmera) e diz: “nós estamos em guerra, o meu povo e o seu”. Uma verdade incômoda e incontestável, que corrobora o modo de pensar a história não linear e genealógica de Michel Foucault e Paul Veyne que rompe a lógica de um passado “que passou” e alerta para a constante atualização da barbárie colonial no genocídio dos Ianomamis, dos jovens negros e de todas as populações vulnerabilizadas. Pois no ano de 2025 e no início de 2026 poderíamos produzir um novo capítulo da série, onde uma mulher brasileira olharia para o diretor e faria uma paráfrase de Krenak: “vocês, homens, estão em guerra contra as mulheres”.
No Rio Grande do Sul, apenas nos 20 primeiros dias de 2026 foram registrados e noticiados sete feminicídios e inúmeros casos de agressão de mulheres, em sua maioria tendo como agentes namorados, maridos e ex-maridos. Um dia antes desse texto ser escrito um homem atacou sua ex-mulher a facadas em uma parada de ônibus, outro ex, inconformado com uma medida protetiva, tocou fogo na residência, no mês de dezembro, diante das câmeras de vigilância e em frente a uma delegacia de polícia depredou o carro da namorada e foi preso em flagrante. Retrocedendo ao ano anterior, em Natal, RN, após uma discussão por ciúmes, um jogador de basquete encurralou sua namorada no elevador e desferiu mais de 60 socos. No dia 15 de julho um fisiculturista e lutador de Jiu Jitsu fez o mesmo a ponto de quebrar a mão. No fim de novembro de 2025, Tainara Souza Santos foi atropelada e arrastada por mais de um quilômetro após o término de uma relação, teve o corpo arrastado e mutilado e veio a falecer na noite de Natal. Eu poderia escrever páginas e páginas relatando inúmeros casos em que homens violentos e ressentidos, bestas feras fora do controle, se lançaram contra mulheres com força desmedida e sem escrúpulos nem medo de punição.
Trata-se do que uma corrente importante de estudos feministas, aqui representada pela pesquisadora Jules Falquet, tem chamado de “guerra de baixa intensidade”. No livro “Pax neoliberalia: mulheres e a reorganização global da violência” Falquet apresenta relatos apavorantes de pesquisas etnográficas e sociológicas a respeito das inúmeras violências cometidas por exércitos, polícias e cônjuges contra mulheres trabalhadoras vulnerabilizadas, e aponta para as relações de gênero constituídas não apenas como diferenças performativas ou biológicas, mas também de classe ou mesmo etnia. Os homens e suas grupalidades são uma nação imperialista, dominadora e escravocrata um genocídio está em curso. E mais, citando outras pesquisadoras como Mercedes Cañas e Christine Delphy, Jules suporta a noção de que a violência doméstica pode ser enquadrada como tortura, por ser uma prática de extremo sadismo e dominação aparentemente proibida na esfera pública mas amplamente utilizada e estimulada no âmbito privado, naquilo que o filósofo Giorgio Agamben chama de Estado de Exceção. Nesta perspectiva, as mulheres tornam-se refugiadas e reféns em seu próprio lar, e as vítimas de feminicídio, como vidas cuja morte não é um assassinato, afinal, os dispositivos políticos, policiais e jurídicos do Estado resistem em reconhecer o crime de feminicídio ou mesmo a tortura, quando não o incentivam e perpetram. Há poucos dias um agricultor do interior do Rio Grande do Sul foi morto por uma ação desastrada da Brigada Militar, que, ao receber uma informação de fonte duvidosa não checada nem investigada, invadiu a residência e, além do homicídio, procedeu a tortura da esposa por horas a fio. Não há adjetivos que possam descrever a dor e o trauma de uma mulher que foi torturada após testemunhar a morte do marido por uma força policial. Também no Rio Grande do Sul, em ocorrências muito semelhantes duas mães viram seus filhos portadores de sofrimento psíquico em surto serem assassinados por policiais em ações desastrosas e que alegaram legítima defesa. Tudo isso corrobora a tese de que existe uma guerra declarada da sociedade dos homens contra as mulheres, que, como em todas as guerras, além de sofrerem violência física, moral e sexual também tem filhos e maridos massacrados e suas famílias dizimadas.
A questão mais urgente a pensar é: o que fazer diante de um quadro tão complexo? É claro que devemos lutar cada vez mais para que os aparelhos de Estado cumpram sua função, o fim urgente das polícias militares (onde a ditadura militar encontrou uma maneira de manter suas práticas de violência, assassinato e tortura), a capacitação de profissionais de saúde e serviço social, de um amplo ingresso de mulheres nas carreiras jurídicas e em um sistema educativo que efetivamente seja multiplicador dos direitos humanos. Mas como tudo isso pode se realizar em um país que elegeu Bolsonaro presidente (quase duas vezes, a eleição de 2022 foi empate técnico) além da esmagadora maioria dos governadores, prefeitos e legisladores alinhados com a ideologia machista, misógina e beligerante da ultradireita? E quanto tempo levaria até essa maré virar? As mulheres não podem esperar, não há tempo, os maridos e namorados ciumentos as estão emboscando nas esquinas, nos bares, na sala de casa e até mesmo nas delegacias de polícia.
Ainda dentro desta lógica de guerra surgem (ressurgem) estudos e práticas militantes que propõem uma visão radical e pragmática, a autodefesa. Em 2019 a filósofa Elsa Dorlin publica “Autodefesa: uma filosofia da violência” onde produz uma genealogia das práticas do que chama de “ética marcial de si”, das populações vulnerabilizadas, levando em conta o fato de que o Estado e o direito modernos legislam pela legítima defesa da honra dos homens brancos e da propriedade privada. Às demais populações cabe apenas a posse do próprio corpo e do direito (ou não) a autodefesa. Dorlin faz a genealogia do que podem os corpos assassináveis. do linchamento de Rodney King, os massacres coloniais e a criação da capoeira, o Jiu-Jitsu das sufragistas, da transmutação do Krav Magá da defesa contra os Pogrons ao fascismo sionista, das brigadas queer em Nova Iorque e São Francisco, do Partido dos Panteras Negras pela Autodefesa (que agora retomaram as armas contra Trump). Dorlin encerra seu livro com as práticas de vigilantismo feminino que hoje são retratadas em séries e filmes, e também na realidade, quando há alguns dias uma mulher, após pedir medida protetiva, se antecipou e assassinou a tiros seu ex-marido.
Nesta perspectiva, pelo Brasil inteiro surgem projetos de defesa pessoal e arte marcial antifascistas, entre as quais eu me subscrevo como professor de psicologia e de artes marciais em meu projeto “Autodefesa: corpos que resistem” onde proponho oficinas de defesa pessoal e debates sobre violência de gênero e feminicídios. A arte marcial não pode evitar uma emboscada armada de um marido ciumento, mas pode colocar uma nova perspectiva, justamente a que estamos em guerra. Sim eu sou homem, e nesta perspectiva sou um inimigo. Mas é bom pensar que nenhuma guerra na história foi vencida sem aliados, traidores ou mercenários.
*Fábio Dal Molin, psicólogo, psicanalista, professor da Universidade Federal do Rio Grande, professor colaborador do PPG em Psicanálise Clínica e Cultura da UFRGS. Texto escrito com a fúria dos injustiçados.
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