Por VANESSA AFRICANI e RONALDO VIEIRA*
Mais um bombardeio norte-americano reacende o debate sobre a lógica bélica que sustenta a geopolítica dos Estados Unidos. Depois de intervenções em diversos países do Oriente Médio e Ásia, do continente americano, com o caso mais recente da Venezuela e intenções claras de intervenção sobre a Groenlândia, Washington volta a projetar seu poder militar à África — desta vez em território nigeriano.
A ofensiva começou em 25 de dezembro, justamente na data que simboliza o nascimento de Jesus, a maior celebração do cristianismo, o que acrescentou uma dimensão simbólica dramática a uma operação já politicamente tensa, acirrando, uma vez mais, a rixa entre cristãos e muçulmanos. Os ataques concentram-se no estado de Sokoto, no noroeste da Nigéria.
Segundo Trump, os terroristas estariam “viciosamente matando, principalmente, cristãos inocentes”, afirmação que foi veementemente negada pelas autoridades nigerianas. Segundo o governo dos EUA, os bombardeios tinham como alvo células do ISIS – West Africa Province (ISWAP) e facções associadas ao Boko Haram, que operam de forma fragmentada na região. O ISIS é um grupo extremista ativo na Nigéria, no Níger e no Chade, formado por facções que se separaram do Boko Haram. Suas células funcionam de maneira descentralizada, espalhadas por áreas rurais e florestais, onde realizam ataques armados, sequestros e extorsões para financiar suas operações e manter influência sobre comunidades vulneráveis. Embora células do ISIS se encontrem espalhadas por toda a região, a ofensiva aérea americana provocou dispersão imediata não apenas de civis, que fugiram de áreas atingidas, mas também de grupos armados que se deslocaram por todo o país. Analistas de segurança afirmam que a operação desorganizou a estrutura social das comunidades e vilarejos, além de ter contribuído para a migração de terroristas para áreas ainda mais difíceis de monitorar, o que ampliou o risco de instabilidade em toda a África Ocidental.
A escolha de Sokoto como epicentro da operação não foi aleatória. A região é o coração político, religioso e cultural da Hauçalândia — o vasto território histórico dos povos que falam a língua hauçá, que se estende do norte da Nigéria até o Níger, o Chade e o Burkina Faso. Estima-se que a comunidade de falantes da língua hauçá chegue a 120 milhões de pessoas na região, sendo cerca de 60 milhões somente na Nigéria. No século XIX, Sokoto foi o centro do Califado de Sokoto, uma das entidades islâmicas mais influentes da África Ocidental. Até hoje, o Sultanato de Sokoto exerce enorme autoridade entre as comunidades muçulmanas da Nigéria, do Chade, do Níger e do Burkina Faso. Atacar esse território significa atingir o centro nervoso de uma civilização que moldou a política e a identidade do Sahel ao longo de séculos.
A operação também reacendeu tensões internas na Nigéria. Embora o governo federal nigeriano tenha confirmado cooperação em inteligência com Washington, o fato do anúncio ter partido primeiro da Casa Branca gerou críticas sobre soberania e autonomia decisória da Nigéria. Parlamentares e líderes comunitários questionam se Abuja realmente participou da operação ou se apenas reagiu a uma iniciativa unilateral dos EUA. A falta de transparência sobre vítimas civis e danos colaterais alimenta ainda mais a desconfiança em relação ao governo de Bola Tinubu, ele mesmo um muçulmano.
No plano regional, o ataque repercute em um momento de profunda instabilidade no Sahel. Burkina Faso, cuja língua oficial é o hauçá, sob o comando de Ibrahim Traoré, tornou-se um dos governos mais críticos à presença ocidental e aproximou-se de novas alianças estratégicas. Diante disso, alguns analistas internacionais interpretam o bombardeio em Sokoto como parte de uma disputa geopolítica mais ampla. Dentro dessa leitura, há quem veja a operação como um gesto de pressão indireta sobre regimes militares do Sahel (inclusive o de Traoré) embora não haja confirmação oficial de tal intenção.
Em vez de reduzir tensões, os bombardeios reacenderam debates sobre soberania, segurança e legitimidade das intervenções externas na África Ocidental. A ofensiva em Sokoto não foi apenas uma ação militar: ela expôs fissuras internas da Nigéria, reacendeu memórias históricas profundas da Hauçalândia e reconfigurou percepções geopolíticas em uma região já marcada por resistência às potências ocidentais. O episódio ocorre em um ano eleitoral na Nigéria, o que amplia seus efeitos políticos. A segurança nacional tende a ocupar um lugar central no debate público, e a percepção de interferência externa pode influenciar o posicionamento de eleitores, partidos e lideranças regionais.
Para o Brasil, um dos líderes do Sul Global, fica clara a intenção de Trump de desconstruir a geopolítica do Sul Global e do BRICS, uma vez que os Estados Unidos estão se posicionando em determinadas regiões do globo para barrar o seu desenvolvimento. Com assinatura de novos acordos de defesa, como é o caso com a Nigéria, uma cooperação militar na região precisa ser observada para que se entenda como poderia afetar o sistema de pirataria no Atlântico Sul, a segurança e a estabilidade na região, objeto do Tratado da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS). Também é preciso aguardar para saber qual será a reação do Governo de Burkina Faso a este ataque na região de Sokoto. Os próximos tempos prometem!
*Vanessa Africani, especialista em comunicação e marketing com experiência profissional em promoção de negócios. Atua na promoção com ênfase no continente africano e na promoção de relações bilaterais e comerciais com diversos países do Mercosul, Américas e África.
*Ronaldo Vieira, diplomata de carreira, mestre em Relações Internacionais.
Foto de capa: Reprodução




