Marx Explica a Crise do Capitalismo Neoliberal Atual? Sim!

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Por LUIZ CÉSAR SILVA*

Historicamente, as crises do capitalismo neoliberal podem ser interpretadas à luz da teoria marxista da superprodução. A Grande Depressão de 1929 evidenciou os limites do liberalismo econômico e marcou a transição para formas mais intervencionistas de gestão do capitalismo, inspiradas, em grande medida, pelas ideias de Keynes.

A globalização econômica pode ser compreendida como uma estratégia de enfrentamento dessas crises de superprodução. Ao ampliar mercados consumidores e deslocar parte da produção para regiões com mão de obra mais barata, o capital busca restaurar suas taxas de lucro, reproduzindo, entretanto, em escala global, as mesmas desigualdades estruturais observadas internamente. As crises recentes do capitalismo global, como a financeira de 2008, evidenciam padrões semelhantes aos identificados por Marx no século XIX: expansão do crédito, especulação financeira, sobreacumulação de capital, queda da rentabilidade e colapso da demanda. A financeirização da economia surge como resposta às dificuldades de gerar lucro na produção, direcionando grandes volumes de capital para atividades especulativas e rentistas, que prometem ganhos rápidos e elevados. Contudo, esse deslocamento não elimina as contradições do sistema; ao contrário, intensifica-as, gerando bolhas financeiras e ampliando a instabilidade econômica.

Marx já apontava a importância dos juros e a crescente autonomia da esfera financeira em relação ao processo produtivo, antecipando aspectos centrais da financeirização no capitalismo contemporâneo – neoliberal. Quando a valorização financeira se distancia excessivamente da base produtiva, a crise torna-se inevitável, como demonstrado de forma contundente na crise financeira global de 2008. Nesse evento, a expansão do crédito, a securitização de dívidas e a especulação imobiliária produziram uma ilusão de crescimento que entrou em colapso assim que a inadimplência revelou os limites reais da capacidade de pagamento da classe trabalhadora.

Nas últimas décadas, observa-se um movimento de retração de políticas sociais, associado à ascensão do neoliberalismo. A redução do papel do Estado, a flexibilização  e a deterioração das relações trabalhistas, a precarização do trabalho e as privatizações  de serviços públicos aprofundam a lógica de mercantilização (transformar algo) da vida social.

 As crises recentes do capitalismo global, como a crise financeira de 2008, revelam padrões semelhantes aos identificados por Marx no século XIX: expansão do crédito, especulação financeira, sobre a acumulação de capital, queda da rentabilidade e colapso da demanda. A teoria marxista mostra-se ainda mais atual quando se observa o papel cada vez maior do capital financeiro no capitalismo atual. A financeirização da economia surge como uma resposta às dificuldades de gerar lucro na produção. Com a tendência de queda da taxa de lucro no setor produtivo, grandes volumes de capital passam a ser direcionados para atividades financeiras, especulativas e rentistas, que prometem ganhos mais rápidos e maiores. Contudo, esse deslocamento não elimina as contradições do sistema, apenas as intensifica, criando bolhas financeiras e ampliando a instabilidade econômica. Sob a ótica marxista, todos os processos escritos anteriormente intensificam a exploração do trabalho e ampliam a desigualdade, criando condições propícias para novas crises de superprodução e para o acirramento dos conflitos de classe.

1 – A crise de superprodução.

As crises de superprodução constituem um dos elementos centrais para a compreensão da dinâmica histórica, econômica e social do modo de produção capitalista. Desde o século XIX, diversos autores da economia política já identificavam essas crises como inerentes ao funcionamento do capitalismo, e não como simples desvios conjunturais. Entretanto, a principal referência sobre esta questão encontra-se na obra O Capital, de Marx (1867), que oferece uma análise rigorosa das contradições intrínsecas ao sistema capitalista, especialmente no que se refere ao fenômeno das crises periódicas de superprodução. A obra tem por finalidade, antes de tudo, a análise dos elementos ilógicos do capitalismo (a conhecida contradição do capitalismo), que ele identificou por meio de pontos de relações conflituosas inerentes ao sistema quanto ao modo de sua produção. Para fins de esclarecimento, refiro-me ao longo de todo o texto ao capitalismo neoliberal, a partir da década de 1980.

No modo de produção capitalista, a produção é orientada essencialmente pela busca do lucro. As empresas, pressionadas pela concorrência, investem continuamente em tecnologia, mecanização e ampliação da escala produtiva, com a finalidade de reduzir custos e ampliar sua participação nos mercados em que atuam. Esse processo resulta em um crescimento acelerado da produção de mercadorias, o que pode conduzir ao fenômeno conhecido como superprodução, caracterizado pela superação da capacidade de absorção do mercado pela capacidade produtiva.

Essa dinâmica de expansão produtiva, embora aumente os lucros individuais dos empresários — ou capitalistas, os detentores do capital —, gera contradições estruturais no nível agregado. Ao expandir a produção enquanto mantém os salários dos trabalhadores constantes ou mesmo os reduz, o sistema restringe o poder de compra da maioria da população. Assim, o mesmo processo que impulsiona a produção cria obstáculos à circulação e à venda das mercadorias no mercado. Nessa perspectiva, a crise de superprodução não resulta de erros de gestão ou de fatores externos, mas é consequência direta da lógica de acumulação do capital.

As crises de superprodução manifestam-se de múltiplas formas, como quedas abruptas na produção industrial, falências empresariais, aumento do desemprego e retração do crédito, entre outros problemas políticos e institucionais. Quando os estoques de mercadorias se acumulam sem escoamento, os preços tendem a cair, reduzindo as taxas de lucro. Diante desse cenário, as empresas diminuem investimentos e demitem trabalhadores, aprofundando a crise ao reduzir ainda mais o consumo agregado. Esse ciclo evidencia a instabilidade intrínseca do capitalismo, marcado por períodos de expansão seguidos por crises recorrentes, como se observa desde 1929.

Em síntese, as crises de superprodução são manifestações das contradições internas do capitalismo, decorrentes da dissociação entre a produção socializada e a apropriação privada dos resultados do trabalho. Embora o sistema tenha demonstrado certa capacidade de “adaptação” ao longo do tempo, por meio de inovações tecnológicas e institucionais, suas crises recorrentes evidenciam limites estruturais que desafiam continuamente a compreensão econômica do capitalismo. Essas crises não se restringem ao campo estritamente econômico: refletem-se em desemprego, instabilidade financeira, retração do crédito, falências e aumento da desigualdade social, afetando tanto a vida cotidiana das populações quanto a coesão política e institucional. A lógica de acumulação, que pressiona constantemente a expansão produtiva e a redução de custos, produz tensões entre capacidade de produção e poder de compra, tornando inevitáveis episódios de conflitos de classes.  

2 – Síntese das explicações desse sistema em Marx

Marx (1867) examina a relação entre capital e trabalho como eixo central da dinâmica econômica, evidenciando como a exploração da força de trabalho e a apropriação privada do excedente produzem desigualdades estruturais e crises recorrentes. Dessa forma, o capitalismo é compreendido não apenas como um sistema de produção, mas como uma forma histórica marcada por tensões sociais permanentes e por uma lógica de acumulação que tende a intensificar seus próprios limites de funcionamento.

Primeiro, a teoria da “mais-valia” explica como o empresário — ou capitalista — se apropria do valor excedente produzido pelo trabalhador. Após o pagamento do salário, o capitalista pode ampliar seus lucros de duas maneiras: aumentando a jornada de trabalho sem elevar a remuneração ou introduzindo mecanização na produção, cujo objetivo é aumentar a produtividade do trabalhador, mantendo constante a jornada de trabalho, uma vez que máquinas e novas tecnologias reduzem o tempo necessário para produzir, sem que esse ganho de produtividade seja repassado ao salário do trabalhador. Ou seja, o empresário aumenta seus lucros com o aumento produtivo sem acréscimo nos salários. É o excedente da produção apropriado pelo empresário.  

Neste contexto, Marx identifica três pontos conflituosos que estariam intrinsecamente interligados ao sistema capitalista.   

1- O surgimento dos oligopólios (conflito entre frações do capital). Cada empresário, de forma individual, busca expandir seus mercados por meio da eliminação de concorrentes, o que resulta em um processo de concentração de capitais. Esse movimento ocorre entre empresas semelhantes em estrutura produtiva e em nível de capital financeiro e tecnológico, conduzindo, progressivamente, à formação de oligopólios. No entanto, como o lucro é resultado da exploração do trabalho, em que se busca elevar a mais-valia, implicando em salários cada vez menores para o trabalhador, a concorrência, em contrapartida, gera e acirra cada vez mais o conflito entre trabalhadores e empresários.  

2- O conflito entre capital e trabalho – A crescente exploração do trabalhador pelo empresário que ocorre em cada unidade de produção manifesta-se, em nível da sociedade como um todo, refletindo a luta de classes, intrínseca ao capitalismo, que se mantém de forma constante ao longo da história.

3 – A tendência de queda da taxa de lucro – Uma lei fundamental do capitalismo. Para Marx, à medida que o sistema se desenvolve, aumenta o uso de máquinas e tecnologias em relação ao trabalho humano, única fonte de criação de valor e, consequentemente, de lucro. Embora fatores como a intensificação da exploração laboral ou a expansão dos mercados possam retardar temporariamente a queda da taxa média de lucro, prevalece a pressão para a redução da taxa média de lucro; a tendência histórica permanece e nos mostra isso. As crises, assim, exercem um papel contraditório no capitalismo, funcionando como mecanismos de ajuste que restauram provisoriamente o crescimento mediante a desvalorização do capital e o aumento da exploração do trabalhador.

Por fim, outro aspecto essencial na análise marxista é o desemprego estrutural, ou “Exército Industrial de Reserva”, que funciona como elemento estrutural do capitalismo: a existência de uma massa de trabalhadores desempregados ou subempregados exerce pressão sobre os salários e disciplina a força de trabalho empregada. Esse fenômeno assume proporções ainda mais significativas no capitalismo contemporâneo, marcado pela automação, digitalização e pelo uso intensivo de tecnologias poupadoras de mão de obra. A substituição do trabalho humano por máquinas e algoritmos amplia a produtividade, mas aprofunda a exclusão social e reduz a base de consumidores capazes de absorver a produção crescente.

Em síntese, a análise marxista das crises de superprodução oferece uma interpretação abrangente e crítica do funcionamento do capitalismo neoliberal. Ao evidenciar as contradições entre produção e consumo, capital e trabalho, acumulação e realização do valor, Marx fornece instrumentos teóricos fundamentais para compreender os desafios do capitalismo contemporâneo. A teoria marxista das crises não se restringe ao campo estritamente econômico, mas abrange dimensões sociais, políticas.  Ao invés de tratar as crises como eventos isolados ou resultado de falhas individuais, embora o sistema tenha demonstrado, em certos e em pequenos períodos de tempo, alguma capacidade de adaptação, suas crises recorrentes indicam limites estruturais que continuam a desafiar economistas, formuladores de políticas públicas e a sociedade em geral.


*Luiz César Silva é pós-doutorando em Economia pela Universidade do Porto; Doutor em Administração Pública pela Universidade do Minho (Portugal), Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro – Escola de Governo – FJP, Especialista em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e Economista pela Universidade Católica de Petrópolis – UCP. É Professor de Administração e Gestão Pública no Instituto Politécnico de Bragança, Escola de Administração Pública, Comunicação e Turismo de Mirandela (EsACT-IPB). Lecionou no Departamento de Relações Internacionais e Administração Pública da Universidade do Minho. Atualmente, é membro do Comitê Científico da revista “Public Administration Research: Canadian Centre for Science and Education”.

Foto de capa: Getty Images

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