Por JORGE BARCELLOS*
“Em 2018, 800 cachorros robôs AIBO2, da Sony, tiveram um funeral em um templo budista do Japão, todos eles com etiquetas com seus nomes e os nomes de seus donos. Os pets eletrônicos, lançados em 1999, pararam de ser produzidos em 2006, e os donos dos AIBOs, muito apegados a seus “animais de estimação”, ficaram em choque ao saber que, sem a produção de novos modelos, também não haveria mais como consertar os antigos. Seus cães robôs estariam mortos assim que parassem de funcionar. A comunidade dos donos de AIBOs começou a compartilhar dicas de como prover suporte a seus animais de estimação, e um ex-funcionário da Sony, então, abriu uma empresa que se especializou no conserto desses robôs. Os modelos mais antigos, que não tinham mais peças de reposição, serviram como “doadores de órgãos” para os modelos mais novos. Para ajudar no processo de luto dos donos, a empresa conseguiu organizar os funerais, que ocorreram com os cantos tradicionais e a queima de incenso, exatamente como as cerimônias de humanos. Os funcionários da empresa de reparos participaram das cerimônias como substitutos das famílias dos cães robôs e, como oferendas, colocaram alicates aos pés dos cães robôs no lugar das tradicionais frutas. O sacerdote líder do templo explicou que, para o pensamento budista, não há nada de errado em honrar objetos inanimados, pois tudo tem a natureza-Buda, e que mesmo os AIBOs, sendo máquinas e não tendo sentimentos, eles agem como um espelho das emoções humanas.” Davi Alexandre Tomm.
Leio a passagem de Tomm em sua Resenha do Manifesto das Espécies Companheiras: Cachorros, Pessoas e Alteridade Significativa, obra de Donna Haraway que discute as relações entre cães e humanos e penso que o tema é mais complexo do que diz nossa vã filosofia. Eu já conhecia a autora de meus estudos de mestrado de seu Manifesto Ciborgue (1985), ainda que esta obra fosse vista à época, nos anos 90, como algo pós-moderno demais, já que propunha romper as dicotomias como natureza/cultura e organismo/máquina, tão presentes hoje na filmografia da indústria cultural e no streaming. Haraway explorava à sua maneira o que acontece quando ultrapassamos as fronteiras, e se o ciborgue de seu primeiro manifesto simbolizava algo, era esta figura pós-gênero que recusa sua própria tecnofobia. Agora, com o Manifesto das Espécies Companheiras, Haraway aprofunda a sua tese de que é preciso ir para além das divisões tradicionais do racionalismo que dividem homens e animais. A sua tese central é que é preciso aprofundar a noção de companheiro: diz seu tradutor, Fernando Silva e Silva (disponível em https://outraspalavras.net/outrasmidias/para-conhecer-a-obra-de-donna-haraway/):“Em inglês, o termo que traduzimos por espécie companheira no livro é companion species, construído por Haraway sobre o modelo de companion animal, um animal de companhia. Em diferentes textos, a filósofa também enfatiza a etimologia da palavra, que remete ao latim cum panis, aquele com quem divido a mesa, partilho o pão. Em português, porém, o aspecto político e existencial se torna ainda mais acentuado, devido à história política e afetiva do termo companheiro(a) que atravessa as lutas sociais. Por isso, no meu entendimento, a tradução torna o termo ainda mais forte para designar o que ele pretende: que qualquer indivíduo só vem ao mundo por meio de companheiros de sua espécie, de outras espécies e de outras naturezas.”
Em busca da pet perdida
Penso nessa ideia seminal de animais como companheiros de outra espécie quando reflito sobre o meu período de luto pela morte de Nina (disponível em https://red.org.br/noticias/nina-e-a-logica-invisivel/ ), que faleceu em agosto. Agora minha família recomeça como tutor de um novo pet, pois recentemente adotamos Lola, um filhote Border Collie adotado com três meses, que hoje completa quatro. É que procurávamos nas redes sociais, depois de passado o luto, um novo animal de estimação. Sabíamos que nenhum seria capaz de repetir a experiência de companheirismo de Nina, pois cada cão é único. Por isso, acredito que a tese de Haraway é verdadeira, de que precisamos reconhecer que estamos conectados com todo um mundo natural que garante nossa sobrevivência e, de certa forma, o modo como nos relacionamos com os animais diz muito do modo como nos relacionamos com os demais seres humanos. Se as lambidas de Cayenne na autora, citadas por Silva, evocam um mundo, é o que diz que nele há uma relação material, semiótica e historicamente única entre ambas as espécies, humanos e animais. Reconhecer a importância de nossa relação com os animais e com todos os seres em geral nos leva a compreender nossa própria relação entre seres humanos, tema de diversos filósofos, o que irei me referir a partir da adoção de Lola. Mas vamos pelos começos.
A morte do poodle Nina produziu um vazio em minha família. Todos que já tiveram um pet e o perderam sabem do que estou falando. Quando se perde um animal de estimação, sente-se dor porque os relacionamentos humanos são complexos, inclusive os com seus animais de estimação. É que você tem uma rotina que compartilha não apenas com seus familiares, mas também com seus pets. Você os domestica, mas é domesticado por eles, por assim dizer. Você tem horários para alimentá-los, sair com eles e pesquisas mostram que quem tem um pet vive mais pelas caminhadas que faz no dia a dia. Se você sai e deixa seu animal sozinho, ele está lá para recepcioná-lo com imensa alegria no seu retorno, ainda que tenha sofrido a solidão por sua ausência; ele observa o movimento dentro e fora de seu lar e o alerta de movimentos suspeitos, mesmo que sejam os cães da vizinha que também descem do prédio para a rua. Com a morte de Nina, foi assim: uma tristeza tomou conta de nossa família, criou-se um espaço porque há um vazio que o luto ameniza, mas não extingue. Esse vazio pedia outro animal de estimação, o que, de certa forma, mostra o seu impacto e o seu papel central em nossas vidas. Um amigo bibliotecário possui um gato do qual ele se orgulha e, de vez em quando, compartilhamos suas imagens. Como é um amigo de esquerda, recomendei-lhe a leitura de Marx para gatos: um bestiário radical, de Leigh Phillips (Boitempo, 2026), que explora ideias marxistas reinterpretadas através da perspectiva felina, argumentando que gatos simbolizam resistência e autonomia na crítica ao capitalismo. Tenho certeza de que gostou. Infelizmente, não há livros sobre cães, que usem cães para contextos políticos ou para criticar o capitalismo, uma falta grave da literatura de esquerda. Até a chegada da obra de Haraway.
O sentimento de ausência
Minha esposa e eu sofríamos pela falta de Nina. Meu filho Eduardo produziu um pequeno quadro onde vemos a imagem de minha esposa e ela. É a lembrança de uma ausência, serve para consolo. Por isso, vasculhávamos a internet à procura de um novo pet. Mas o que é a ausência em termos psicanalíticos? Aqui o pensamento do filósofo esloveno Slavoj Zizek é essencial, mas só podemos fazer uma aproximação ao seu pensamento, sujeito às críticas dos psicanalistas de formação: penso com base em suas ideias que, se a morte de um cão nos provoca uma falta, um sentimento de ausência, é porque de alguma forma expõe nosso vazio estrutural. Um cão não é nunca um cão, é um animal sobre o qual projetamos nossos desejos e fantasias. Esse amor incondicional que depositamos sobre nossos animais, nos termos de Zizek, apenas mascara a impossibilidade que nós, tutores, temos de satisfazer nosso desejo de amar o Outro, mesmo que seja através de um animal de estimação. Precisamos expressar nossos afetos, e para isso, o universo pet capitalista transformou nossa criação de animais de estimação em um verdadeiro shopping a céu aberto. Nos termos de Zizek, a morte de Nina não provoca saudade apenas, mas nos confronta com o desaparecimento da possibilidade de um afeto puro. Por isso você abraça o cão de estimação, brinca com ele, faz ele presente em seu dia. Com um cão, temos a fantasia de que a família está “…completa”!
Essa é a fantasia que a presença de um cão em nossa vida alimenta em nosso inconsciente. Por isso, a morte de Nina aciona em nós a pulsão de morte, nos faz reviver sentimentos negativos. Iagor Brum Leitão e outros, no artigo “Os impasses frente à perda de objeto” (disponível em https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php? script=sci_arttext&pid=S2316-51972017000200005) lembram outra passagem de Slavoj Zizek, em O amor impiedoso: ou sobre a crença (Autêntica Editora, 2012), em que o autor “recorre ao romance de Nevil Shute (1955), em que a personagem sobrevive à morte de seu marido sem quaisquer traumas visíveis, seguindo sua vida e sendo capaz, até mesmo, de conversar racionalmente sobre sua morte. Quando, algum tempo depois, o cachorro (animal de estimação e companheiro favorito de seu marido) morre, ela sucumbe por completo, e todo seu mundo desintegra (Zizek, 2012, p. 78).” Os autores destacam o ponto que considero importante da cena lembrada pelo filósofo: se, no romance citado, o cão substitui o marido, com sua perda, o efeito é que “seu mundo se desintegra, [e produz-se] melancolia. Para Zizek, no entanto, o cão funcionaria como uma espécie de objeto de fetiche que desmentiria a morte do marido de forma análoga ao fetiche da perversão em que o mecanismo característico desmentiria a castração. Em outras palavras, a mulher se recusaria a aceitar a perda do marido: sabe que ele morreu, mas o revive por meio de seu substituto, seu cão-companheiro. Porém, quando o cão morre, é obrigada a lidar realmente com a perda e “a castração”: a morte do marido. Mas para ela seria tão forte, tão insuportável que, assim como nos versos de Toquinho e Vinicius de Morais, ela sem ele(s) não é ninguém, portanto “seu mundo se desintegra”, o que, em vez de se ter o luto da perda de objeto, ter-se-ia a melancolia, caracterizada, como bem vimos, pela perda do Eu: uma outra situação em que o Ego se defronta com a necessidade de construir uma defesa.”
O cão-parceiro
Penso na morte de Nina como desintegração, lembro da tristeza que provocou exatamente como a melancolia descrita por Zizek. O luto que ela produziu, eu entendo, é porque o animal de estimação ocupa em nosso lar o vazio do ninho, que se origina pela saída de casa de nosso filho. Isso acontece com quaisquer país que passam pela mesma situação: nunca é fácil desprender-se dos filhos criados, que precisam serem lançados para o mundo. Os animais de estimação estão se transformando em nosso fetiche porque não é apenas um pet, é um cão-parceiro que substitui algo que falta. Por isso, substituir um cão que morre por outro após o luto se torna um caminho natural. Talvez devêssemos seguir a Winnicott, fazer a superação parental que é, usar o acontecimento da saída dos filhos de casa para desenvolver a “capacidade de ser só”, libertar-se das preocupações de ser pai e mãe. Mas a verdade é que o filho jamais sai do lar, já que volta, ao menos para o almoço em família. O que o Winnicott propõe é o investimento na própria subjetividade, mas isso também pode ser numa relação que o cão proporciona, não? Por outro lado, meu recente lado espiritualista me faz pensar agora que, se de alguma forma minha esposa escolheu Lola, deu aquele match, foi no exato final do tempo de luto, pois os três meses de partida de Nina coincidem com a a idade da adoção de Lola, o que me sugere a ideia de reencarnação. Olho Lola que me olha como Nina me olhava; felizmente, se ela tiver reencarnado como Collie, ela nos poupa de algo que muito pedíamos, que latisse menos; ela, penso rindo, para se afirmar frente à sua estatura anterior, faz sua vingança e volta agora com 12 quilos, ao invés dos três. Que diferença!
Convém explicar para meu leitor de mais de 60 anos o significado de “match”, o que eu mesmo desconhecia. Ele acontece quando, nas redes sociais, dois usuários demonstram interesse mútuo após uma sucessão de curtidas; espécie de “paquera” dos antigos, situação equivalente a de meu tempo em que se dizia “rolou uma química”, uma época em que não havia algoritmos visando dar uma atração inicial. Foi o que aconteceu com minha família: olhamos a imagem de Lola e deu “match”. É claro que o destino também apronta das suas, como narro a seguir. É que fomos buscar Lola na casa de seu criador na zona sul de Porto Alegre. Esta é, de novo, a cena em que você se sente participante de um crime. Num canil, uma mãe collie com dois filhotes sabe que o destino os separará cedo ou tarde. Nesses criadores de fundo de quintal, a venda de filhotes é um complemento salarial de uma era de precarização. O meu vendedor é um aposentado que ainda precisa trabalhar para sobreviver. “Com minha moto, faço entregas de norte a sul, mas o dinheiro não dá”, diz o idoso que precisa complementar sua renda. Talvez por essa razão, o canil não estivesse nas melhores condições, e nem Lola, ainda que devidamente vacinada, veríamos depois ao descobrir seus primeiros problemas de pele. Criar collies para venda era apenas mais uma forma de complementar a renda e, nessas relações comerciais, seja por qual necessidade for, a falta primordial de um casal por um pet, ou a necessidade de complemento salarial de um aposentado, algo ou alguém se torna objeto de troca. Quando pegamos a filhote, vimos lentamente a mãe collie se afastar. Minha esposa é mãe e procurou confortá-la, dizendo que seria bem cuidada. Ela olhou mais uma vez e se afastou como se dissesse “aqui as coisas são assim”. É a aceitação do destino de que fala o sociólogo francês Michel Maffesoli, só que agora vejo que atinge tanto humanos como animais.
Um cão a procura de cuidados
De fato, Lola precisava de nosso auxílio. Tão interessados estávamos no cãozinho, que não notamos seus problemas de couro e pelo. Foi melhor assim. Fizemos um tratamento para curá-la e eu me lembro ainda das más condições do canil, um espaço pequeno, com fezes em volta e um pequeno pote de ração comum. Agora não, estamos na casa de praia, há mais espaço e sua ração melhorou. Levamos um mês para curar seu problema, e se temos algo a dizer em nossa defesa no dia do TCA, o Tribunal Celestial Animal, a data de julgamento não por nossos atos, mas pelo que fizemos com os animais, é que ela recebeu nossos melhores cuidados e afetos. Não poderei me defender do assassinato de formigas que protagonizei e que aconteceu no templo budista de Três Coroas, pois só fui ler ao final do passeio a placa que diz “não pise nas formigas”. Fui insensível com outros milhares de seres, de moscas a baratas, que matei sem pensar muitas vezes, mas com Lola poderei me defender: foi levada diversas vezes ao veterinário, recebeu ração melhor do que recebia, além de, claro, todas as vacinas complementares e muito amor. Cuidar é isso também. O que reduz um pouco a culpa ao lembrar o olhar da mãe Collier, mas em nosso mundo a cena é repetida milhares de vezes, não é mesmo?.
Depois dos entretempos com os problemas de saúde de Lola, começamos a pesquisar sobre a raça e descobrimos algumas coisas que não sabíamos. Collie é uma raça de cão originária da região entre Escócia e Inglaterra e criada para o pastoreio de ovelhas. Esse é o primeiro problema: não temos ovelhas. Isso nos provocou espanto: afinal, morando na cidade em um apartamento de dois quartos, e com uma casa de praia comum de não mais de trezentos metros quadrados, estávamos muito longe de oferecer a fazenda que uma collie necessitava, e muito menos, o rebanho de ovelhas que ela precisava. Eu esperava que, já que a raça é considerada muito inteligente, ela compreendesse que, assim como muitos seres humanos estão vivendo em microapartamentos, talvez não fosse um destino tão ruim viver num de dois quartos e ter algumas vezes ao ano, ou mais, uma casa de praia. O problema foi quando descobrimos que Lola não apenas herdou a inteligência de seus antepassados, mas também os seus instintos: mesmo com seus três-quatro meses, ela é cheia de energia para correr de um lado para o outro como se ensaiasse seus movimentos com um rebanho de ovelhas. Infelizmente, as únicas ovelhas que ela pode dispor seriam eu mesmo e minha esposa.
As origens do Border Collie
Sites especializados me dizem que seu antepassado mais famoso foi o cão Old Hemp, nascido em 1893, e considerado o progenitor do Border Collie moderno, algo como o “elo perdido” de que fala Darwin em seu A Origem das Espécies, ainda que a própria teoria da evolução prefira a visão de uma árvore ramificada e não um continuum, como ensinava o professor hoje aposentado Arno Kern em suas aulas de pré-história que assisti no meu curso de história em 1983. Olho para Lola e vejo os traços herdados daquele cão Border Collie tricolor nascido no século XIX na Inglaterra. Olho suas ações e vejo o impacto genético que ele teve em Lola: ela, com quatro meses, já tem treze quilos e meio, e deve chegar adulta a uns vinte, além, é claro, do porte atlético, físico delgado, e principalmente, da grande agilidade para saltos e manobras em terrenos irregulares. Isso, para um casal de idosos, é assustador. Mas sendo um Border Collie brasileiro, você imagina a versão canina como “um border collie que se adapta a tudo”, que, é claro, é mais do mesmo estereótipo cultural da sociologia brasileira de botequim que diz que o brasileiro tem capacidade de se adaptar às adversidades. O famoso “jeitinho” ganhou força com a obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda: penso rindo que a versão canina é Lola que transforma a incrível habilidade de saltar sobre os móveis da sala como se fossem desfiladeiros, caminhar pelo pátio da casa como se fosse pradarias europeias, espécie de empatia de sobrevivência para adaptar-se às mudanças rápidas que o destino lhe proporcionou. Sai o mundo canino do passado da luta pela vida através do trabalho do pastoreio e entra o mundo pet urbano capitalista porto-alegrense, onde a ração tem hora certa.
Leio agora noutro desses sites de Instagram (disponível em https://www.instagram.com/p/DTftZEKDXzN/?igsh=c3J6NTMwZXJiYnpu ) que se diz especializado em cuidados com animais – sim, nesse campo nem sempre é possível se utilizar de textos de alta filosofia – que o conforto que proporcionamos aos animais de estimação pode ser uma armadilha silenciosa para nossos cães. “Como biólogo, eu olho para os nossos cães e vejo um paradoxo fascinante, e ao mesmo tempo, preocupante. Nós demos a eles proteção contra predadores e a garantia da próxima refeição. Mas, ao removermos o “desafio de sobreviver”, inadvertidamente desligamos chaves neuronais importantes”. O autor afirma que lobos não têm Alzheimer na natureza, o que me surpreende, porque o seu cérebro não tem descanso; no ambiente doméstico, o cérebro animal teria encolhido cerca de 30%, provocando o que o autor chama de Síndrome de Disfunção Cognitiva: os animais começaram a desenvolver demência canina, sinais de confusão já a partir dos 7 anos. “Se seu cão tem mais de 7 anos, ele não está apenas “ficando velhinho”. Ele está entrando em uma fase em que a neuroplasticidade depende diretamente de você.” Por isso, o autor afirma a importância de “não limitar o animal, deixá-lo escolher o caminho no passeio, apresentar novos sinais, deixar usar o olfato como combustível cerebral”. E finaliza: “seu cão não precisa de uma aposentadoria mental. Ele precisa de uma vida que valha a pena ser pensada.”
Cuidar não pode significar matar
Não confirmei na literatura da área essa informação, mas vi essa cena há cerca de quinze dias atrás, na casa de amigos da praia. Eles também tinham um animalzinho de estimação e sentiam pena dele, pois ele estava “com Alzheimer”. Nunca vi ou imaginei que um cão podia ter Alzheimer. Olhava fixo para a parede, andava em círculos e era cego. Não podiam mudar o lugar da ração, senão ele não comia. Do pátio, fora da casa, olhávamos para o cãozinho em seu mundo, um canto, no fundo, no corredor que leva aos quartos da casa. Um destino triste que chegou para um animal que foi cuidado com toda a atenção e carinho. Lembro da ideia de que “o amor mata”, que surge na mitologia grega antiga, o par Eros e Tânatos onde Eros é o Deus do Amor e Tânatos as forças que levam à destruição, presente em histórias como a de Édipo e Jocasta, Orfeu e Eurídice, amores fadados à tragédia fatal, campo simbólico que agora chega à relação que estabelecemos com nossos animais de estimação. Dizem que Oscar Wilde teria dito “cada homem mata o que ama”, e temo que matemos nossos animais de estimação cada vez que negamos sua natureza. Eu sei que um pouco de Old Hemp está ali em Lola, que pouco late, mas tem um olhar hipnótico para controlar suas ovelhas, o mesmo que dirige a nós quando estamos no café à procura de um petisco extra.
Depois dos cuidados iniciais e dos momentos de carinho e ternura compartilhados, descobrimos que era preciso contratar um adestrador para não nos tornarmos as ovelhas de Lola, na falta de uma imagem melhor. Collies são considerados animais inteligentes e obedientes, de fácil aprendizado para comandos, além de formar laços fortes com a família. Nossa preocupação era com a energia que precisa ser controlada, pois logo descobrimos que nos momentos de nossa ausência, o cão sofria de muita ansiedade e comportamentos destrutivos que precisavam ser combatidos. É como nas cenas protagonizadas por cães que destroem tudo que vemos no You Tube: muito vinculado a nós, destruía a casa sempre que saíamos por um motivo ou outro. Esperamos que o adestrador auxilie no tratamento desse problema. “Não se preocupe, com o treinamento, castração e a idade, ela vai se acostumando e vai aceitar sua condição.” Ela só quer é atenção”, disse o adestrador.
Os animais nos ensinam o valor da atenção
Ele diz atenção e eis-me de volta ao capitalismo das redes sociais. Como tudo nesse mundo de algoritmos e páginas da internet, o que está em jogo é sempre ela, nossa atenção. Byung Chul Han, em Louvor à Terra, diz: “O trabalho de jardinagem era, para mim, uma meditação silenciosa, um demorar-se no silêncio. Ele permitia ao tempo se demorar e exalar. Quanto mais trabalhava no jardim, mais respeito tinha diante da Terra, de sua beleza encantadora. Nesse meio-tempo, fiquei profundamente convencido de que a Terra é uma criação divina. O jardim me levou a essa convicção, sim, à compreensão que se tornou para mim agora uma certeza, que adquiriu um caráter de evidência. Evidência significa, originariamente, ver. E eu vi.” Han, depois de escrever muita filosofia, diz ter voltado à jardinagem para experimentar coisas simples e distantes do mundo virtual. Na jardinagem, Han dá atenção a algo real. Vejo minha relação com Lola exatamente como Han vê seu jardim: assim como o trabalho de cuidar de um jardim leva tempo, a educação de um cão jovem também. E quanto mais tempo você dá ao seu animal de educação, mais você passa a admirar a relação que você pode ter com eles, é sua evidência. Cuidando de um cão, você o vê. Quanto mais você dá atenção a um animal de estimação, mais valor você dá ao real; não há como o Tamagochi superar as alegrias de um cão real.
Não se trata mais da atenção fragmentada do mundo virtual, e nem é uma atenção contemplativa como sugere Han: é uma atenção educativa, que é profunda como a do jardim do filósofo, mas não é silenciosa porque exige comandos para gerar respeito pelo tutor, como o filósofo quer que haja respeito pela terra como criação divina. Lola não é uma criação divina, mas é quase isso, é uma criação humana, de um cão que se originou no século XIX. Cuidar de um jardim e cuidar de um cão de estimação requerem presença plena, uma fixação do olhar, que se não é nas camélias do jardim de Han, é nas gestos e olhares de um cão em adestramento. Em ambos, é preciso muita paciência e evidência sensorial que não se encontram no mundo digital.
Há um deslocamento: se no mundo virtual a atenção é hiperativa, mas efêmera, o que leva à exaustão, o mundo real da educação de um cão é permanente, você o educa para toda a vida. No real relacionamento do homem com seu cão, há uma consideração respeitosa, o contrário da dimensão superficial no que Han chama de enxame digital, esse coletivo unido por uma rede social. Não há voyerismo possível em uma educação canina porque a fala é essencial: para, senta, deita, rola e brinca! Se a educação dos animais de estimação é feita em nosso jardim, é porque é também, como diz Han, uma rebelião contra a sociedade do virtual que se impõe. Voltar à realidade, seja através de um jardim ou da educação de um cão, é restaurar uma atenção vital capaz de nos curar dos vícios do digital.
O valor das relações de companheiros na sociedade individualizada
Tudo aqui finaliza por onde começou. Se a adoção de um cão nos diz muito sobre as relações humanas, é porque ela é a imagem da solidão de uma época marcada pelo avanço das tecnologias e redes sociais. Meu treinador diz “hoje se prefere criar cães a criar filhos”. Talvez criar um cão seja uma saída para resolver a sensação de isolamento desse mundo, mas ele exige, em troca, uma relação de educação. Não é possível educar um cão com a rapidez das relações e superficialidades das redes sociais, é preciso uma relação de pertencimento: do cão ao seu dono; do seu dono ao cão. Por isso, criar um animal de estimação é muito mais saudável do que participar das redes sociais, já que o primeiro exige relações ao longo do tempo profundas e não superficiais e curtas. Você é sozinho em seus contatos com as redes porque, de fato, ninguém o vê, apesar da circulação de informações; é o contrário da relação com seu PET, pois você, ao menos, tem uma certeza: ele o vê. Nossos animais não entendem nossa linguagem falada, mas entendem a corporal. Você xinga, está descontente e ele entende; você o elogia, está contente, ele entende. Seu contato é o início de uma profundidade emocional, algo inexistente na sociedade hiperconectada.
A conclusão é que a relação com o cão nos coloca o mesmo dilema da relação com o Outro, a Alteridade de que fala Haraway. Fernando Silva e Silva encerra dizendo que “para o uso que Haraway faz do termo, é essencial que ele se refira a um outro e que esse outro signifique, isto é, faça semiose. Assim, se torna mais fácil visualizar a forma da alteridade que ela apresenta em seu manifesto: relações materiais-semióticas recíprocas, mas não necessariamente simétricas, entre seres que constituem um ao outro. Estamos acostumados a separar natureza de cultura, quando é impossível separar esses polos. As naturezas-culturas se tornam então um lugar de encontro: de carne e linguagem, história e mundo… trata-se, em primeiro lugar, de reconhecer quais relações de companheirismo reproduzem as possibilidades da nossa existência. Quantas pessoas, animais, plantas, fungos, bactérias e outros seres (para falar naqueles apenas deste mundo) estão envolvidos na produção das condições mais básicas da minha existência no cotidiano? O projeto de habitar o mundo com atenção e cuidado a seus companheiros e companheiras em múltiplas escalas é um convite a cultivar outros modos de vida e a aprender com aqueles que já aprimoraram essas tecnologias.” Em nosso capitalismo devorador, construir outros modos de vida e relação de companheirismo é uma luz no fim do túnel neoliberal.
*Jorge Barcellos é graduado em História (IFCH/UFRGS) com Mestrado e Doutorado em Educação (PPGEDU/UFRGS). Entre 1997 e 2022 desenvolveu o projeto Educação para Cidadania da Câmara Municipal. É autor de 21 livros disponibilizados gratuitamente em seu site jorgebarcellos.pro.br. Servidor público aposentado, presta serviços de consultoria editorial e ação educativa para escolas e instituições. É casado com a socióloga Denise Barcellos e tem um filho, o advogado Eduardo Machado. http://lattes.cnpq.br/5729306431041524
Foto de capa: Jorge Barcellos




