A lesão moral ocorre quando um soldado presencia ou participa de atos que violam profundamente seus valores éticos. O sentimento de culpa e vergonha pode ser mais corrosivo do que o próprio medo da morte.
Na volta da guerra, ao invés de abraçar um tempo de paz, cada vez mais os veteranos americanos defrontam-se com seus fantasmas interiores e, ao olharem para eles cara a cara, recorrem ao suicídio para apaziguar conflitos que as pessoas em sua volta nem chegam a perceber.
Num país que adota a guerra como política de Estado, agressivo e cada vez mais distante da busca pela convivência pacífica entre as nações, este é um assunto que assume os contornos de profunda gravidade e complexidade para a sociedade. A transição do campo de batalha para a vida civil tem se mostrado, para muitos veteranos de guerra americanos que voltam para casa, um desafio mais letal do que o próprio combate.
Não estou a falar dos seis milhões de incapacitados físicos que regressaram ao país que lhe definiram como pátria e em que vivem marginalizados, mas sim dos que desistiram da vida.
A guerra invisível
Para muitos soldados, o fim de uma missão no Iraque ou no Afeganistão não significa o fim da guerra. Ao cruzarem o limiar da volta, milhares de homens e mulheres trazem consigo feridas que não sangram, mas que são profundamente incapacitantes. O fenômeno do suicídio entre veteranos deixou de ser uma preocupação estatística para se tornar uma crise de saúde pública nacional, revelando uma falha sistêmica no suporte àqueles que serviram sob a bandeira americana.
Nas últimas duas décadas, o número de veteranos americanos que tiraram a própria vida superou drasticamente o número de soldados mortos em combate direto. Enquanto as guerras pós-11 de setembro resultaram em aproximadamente 7.000 baixas em combate, estima-se que mais de 30.000 veteranos e militares da ativa tenham cometido suicídio nesse mesmo período.
Os dados do Departamento de Assuntos de Veteranos (VA) indicam uma média trágica de 17 a 22 suicídios por dia. Embora os veteranos representem apenas cerca de 7% da população adulta dos EUA, eles respondem por uma parcela desproporcional das mortes por suicídio no país. Essa disparidade é ainda mais acentuada entre veteranos jovens (18 a 34 anos), cuja taxa de suicídio aumentou drasticamente nos últimos dez anos.
Embora o TEPT-Transtorno de Estresse Pós-Traumático seja frequentemente citado como o principal culpado, a psicologia identifica um espectro mais amplo de causas, como a Lesão Moral: diferente do medo associado ao trauma, a lesão moral ocorre quando um soldado presencia ou participa de atos que violam profundamente seus valores éticos. O sentimento de culpa e vergonha pode ser mais corrosivo do que o próprio medo da morte. Ao mesmo tempo, dizem os psicólogos, há a perda de Propósito e Identidade. No exército, o indivíduo faz parte de uma estrutura hierárquica clara com uma missão definida. Ao retornar, o vácuo de identidade e a perda da “tribo” (a camaradagem militar) geram um isolamento social profundo.
Há dificuldade de acesso a tratamento. O sistema do VA-Departamento de Assuntos de Veteranos enfrenta burocracia excessiva, longas filas de espera e uma escassez de profissionais especializados em traumas de guerra. Estatisticamente, veteranos têm maior probabilidade de possuir armas em casa e de usá-las em tentativas de suicídio, o que aumenta a letalidade do ato em comparação com a população civil.
A alta taxa de suicídios não afeta apenas as famílias; ela reverbera em toda a estrutura social americana. Dificulta o recrutamento de novos soldados, à medida que as famílias começam a questionar o custo a longo prazo do serviço militar. O suicídio de um pai ou mãe veterano deixa cicatrizes permanentes nos filhos, criando um ciclo de instabilidade emocional e econômica que pode durar décadas. Movimentos liderados por famílias de veteranos têm pressionado o Congresso por leis como o PAWS Act (que financia cães de serviço para veteranos) e melhorias no atendimento de saúde mental de emergência.
Uma dívida
A sociedade americana frequentemente utiliza o slogan “Support our Troops” (Apoie nossas tropas), mas a realidade dos dados sugere que esse apoio termina no momento da baixa militar. A repercussão dos suicídios entre regressados das guerras é um lembrete doloroso de que o custo da guerra não é medido apenas pelo orçamento de defesa, mas pelas vidas que continuam a ser perdidas muito depois do cessar-fogo.
O enfrentamento dessa crise exige mais do que medicação, mas a reintegração dessas pessoas em comunidades que compreendam seu sacrifício e ofereçam um novo sentido para continuarem a viver.
As diferenças de gênero nas taxas de suicídio entre veteranos são um dos aspectos mais alarmantes e estudados da saúde pública militar nos Estados Unidos. Embora os homens veteranos apresentem números absolutos maiores, o aumento relativo e a comparação com a população civil revelam que as mulheres veteranas enfrentam riscos desproporcionais.
A diferença mais marcante não está apenas entre homens e mulheres veteranos, mas em como elas se comparam aos equivalentes civis. A taxa de suicídio entre mulheres veteranas é aproximadamente duas vezes maior. Embora a taxa entre homens veteranos seja alta, ela é cerca de 1.2 a 1.5 vezes maior do que a de homens civis. Observadores concluem que o serviço militar parece ter um impacto de risco de suicídio muito mais acentuado no perfil feminino do que no masculino, quando comparados com a sociedade em geral.
Métodos
Uma das razões para a alta letalidade entre mulheres veteranas é a escolha do método. Na população civil, mulheres tendem a tentar o suicídio através de métodos menos radicais, como overdose de medicamentos. Já entre as mulheres veteranas, devido ao treinamento militar e à maior familiaridade do acesso, elas utilizam armas de fogo com uma frequência muito maior do que as civis. Como as armas de fogo têm uma taxa de “sucesso” muito alta, isso eleva drasticamente o número de mortes confirmadas entre elas.
Um fator determinante apontado para as mulheres é o Trauma Sexual Militar. Estimativas indicam que cerca de uma em cada quatro mulheres atendidas pelo sistema de saúde dos veteranos (VA) relata ter sofrido algum tipo de assédio ou agressão sexual durante o serviço.
O MST é um dos preditores mais fortes para o desenvolvimento de depressão, transtorno de pânico e ideação suicida. O sentimento de “traição” por parte de colegas de farda ou superiores destrói a rede de confiança que deveria proteger o soldado.
Muitas mulheres veteranas não se identificam com o termo “veterana”, muitas vezes associado à imagem masculina do combatente. Isso faz com que elas sintam que seus sacrifícios são menos reconhecidos pela sociedade. Ao procurar o sistema de saúde de veteranos (VA), muitas vezes as mulheres encontram ambientes predominantemente masculinos, onde sentem-se desconfortáveis ou passam a sofrer novos assédios, o que as afasta do tratamento psicológico.
*Celso Japiassu é autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965).
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