Por EMERSON GIUMBELLI*
O anúncio da programação do tradicional réveillon na Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, suscitou uma polêmica que ainda não acabou. O motivo: dos três palcos que seriam montados na areia da praia, um deles teria programação inteiramente tomada por artistas gospel. Lideranças das religiões afro-brasileiras questionaram esse encaminhamento e o prefeito Eduardo Paes foi pouco diplomático em sua resposta, remendando-a nos dias seguintes.
O professor universitário e babalaô Ivanir dos Santos escreveu nas redes sociais: “Se há espaço para música religiosa cristã, por que não considerar também um espaço para o povo de terreiro, com artistas que expressam o sagrado afro-brasileiro em sua plenitude […]? E por que não ampliar ainda mais esse horizonte, contemplando também manifestações religiosas católicas, judaicas, Hare Krishna, ciganas ou outras tradições espirituais que se expressam de formas diversas?”
O oportuno questionamento merece uma discussão. Para começar, como podemos caracterizar o gospel? Embora o termo remeta a uma tradição de música negra que se desenvolveu no meio protestante estadunidense, no Brasil ele adquiriu outro sentido. Tornou-se sinônimo de música cristã de massa.
Nas igrejas evangélicas que prosperaram em nosso país, a música sempre teve um papel importante. Nas últimas décadas, essa música (de louvor ou de adoração) passou por transformações importantes, abrindo-se para a influência de diversos gêneros. O pop adentrou os cultos, com resultados distintos de acordo com as concepções de lideranças e fieis.
O gospel corresponde ao movimento inverso, ou seja, uma vez modernizada, a música religiosa sai das igrejas para o ambiente da sociedade mais ampla. Nesse percurso, perde as marcas denominacionais, os particularismos das diferentes igrejas, mas ganha o suporte de estruturas de produção, distribuição e divulgação que chamamos de indústria cultural.
A existência do palco gospel no réveillon carioca é uma expressão, bastante significativa, do espaço conquistado por essa música cristã de massa. Embora tenha mantido suas referências religiosas, endereça-se a um público indiferenciado, não necessariamente restrito aos evangélicos. Em 2025, o gospel foi um dos gêneros mais executados em plataformas de streaming.
Há algo semelhante, com a mesma escala, ocorrendo a partir de outros universos religiosos? A resposta é negativa. Os católicos têm sido parte do público do gospel e seus artistas não atingem o mesmo apelo. Por falar em católicos, vale mencionar algo que passou desapercebido na polêmica do recente réveillon. No palco principal na Praia de Copacabana, a abertura da programação coube a um padre com sua “bênção”. Nenhum outro representante religioso teve esse privilégio.
Do lado dos afro-religiosos, a presença de suas referências na música popular brasileira é bem evidente. Mas essas referências foram, por assim dizer, diluídas nas produções artísticas. No caso do universo evangélico, o enquadramento religioso foi o ponto de partida e é só recentemente que surgem reivindicações de reconhecimento dessa música como “cultura”. Atendendo a essas reivindicações, entre outras medidas, em dezembro de 2025 um decreto federal considerou “a cultura gospel” como “manifestação da cultura nacional”.
Há sim, voltando a citar as palavras de Ivanir dos Santos, “artistas que expressam o sagrado afro-brasileiro em sua plenitude”. Esses artistas, no entanto, enfrentam as resistências de uma sociedade forjada pelo cristianismo. Além disso, a relação entre música e ritual que se estabelece nos terreiros não pode ser encenada fora deles sem o devido contexto religioso.
Em outras palavras: ao passo que o gospel foi concebido para ser música de massa, o mesmo não pode ser afirmado sobre o “sagrado afro-brasileiro”. É isso que torna provável que se repita a situação da virada de 2025 para 2026 em Copacabana. Aliás, no ano anterior o gospel já havia ganhado um palco para si. E algo parecido ocorrera em 2019, na época em que o evangélico Marcelo Crivella era o prefeito do Rio de Janeiro.
Naquela ocasião, a Justiça, em duas instâncias, concordou com o argumento de que a contratação de artistas gospel violava a laicidade. Mas as sentenças foram contrariadas por uma decisão do STF em favor da prefeitura carioca. Na polêmica mais recente, o Ministério Público Federal anunciou que abriu um inquérito civil que solicita “mais informações sobre os critérios adotados para a definição e a destinação de recursos públicos” no réveillon de 2025.
As lideranças afro-religiosas, em suas manifestações, não contestam a atenção ao gospel. Mas elas vêm acompanhadas de registros que lembram a importância das religiões afro-brasileiras para a consolidação dos festejos nas praias durante o 31 de dezembro. No caso do Rio de Janeiro, a presença de grupos religiosos, sobretudo umbandistas, fazendo oferendas para Iemanjá (um orixá das águas salgadas) e Oxalá (cuja cor é o branco) remonta ao menos à década de 1940, quando a cidade ainda era a capital federal.
Diante dessa constatação, a existência de um palco gospel não pode deixar de suscitar uma reflexão sobre as condições desiguais vivenciadas pelas religiões. Vale lembrar que as principais vítimas de intolerância religiosa no Brasil são as religiões afro-brasileiras e que muitas agressões se apoiam no racismo que historicamente constitui nossa sociedade. Convivemos com a hipocrisia de pessoas que se vestem de branco no réveillon e nada sabem sobre as religiões de matriz africana.
Pode ser que a demanda de um palco para outras religiões não seja a mais factível para responder ao privilégio de um palco gospel. Outros pontos têm sido levantados. Fala-se agora na construção de um monumento em homenagem a Tancredo da Silva Pinto, um importante líder umbandista falecido em 1979 e que nas décadas de 1950 e 1960 teve protagonismo na promoção de eventos públicos, inclusive no 31 de dezembro.
Outra demanda sugere que a Prefeitura do Rio de Janeiro “seja obrigada a designar uma área específica para a realização de ritos afrorreligiosos durante as festividades oficiais do Réveillon, nas praias de Copacabana ou do Flamengo”. Nesse caso, o foco se desloca para a garantia das condições para que adeptos possam realizar seus rituais, como ocorre nas festas de Iemanjá em várias praias do Brasil.
Um conjunto de entidades e movimentos está programando, para o dia 14 de janeiro, um abraço simbólico em torno da sede da Prefeitura carioca. Em outro post, Ivanir relata o objetivo que inspira essa ação: “construir ações conjuntas em defesa da visibilidade das tradições de matrizes africanas e do direito à igualdade no uso do espaço público, fortalecendo a luta pelo respeito à diversidade religiosa, cultural e pela convivência democrática”.
De fato, parece-me que o “uso do espaço público” é o ponto central que sobressai de mais esta controvérsia. Quantos outros palcos gospel (e bênçãos católicas), custeados com recursos estatais, serão necessários para provocar debates e ações que repercutam positivamente para expressões afro-religiosas?
Emerson Giumbelli é professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
*Emerson Giumbelli é professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Foto de capa: Fernando Maia/Riotur.




