Evitando a repetição do ataque à Venezuela
Por J. CARLOS DE ASSIS*
Meses atrás, quando as ameaças de Donald Trump de recolonizar a América Latina pareciam a muitos analistas ser apenas mais uma de suas bravatas, escrevi no jornal Tribuna da Imprensa, depois reproduzido em vários sites e blogs, um artigo sugerindo a criação pelos países sul americanos da OTASP, ou seja, Organização do Tratado do Atlântico Sul e do Pacífico. Esta seria uma resposta à OTAN, reunindo numa aliança países não nuclearizados, como o Brasil, sob a proteção de China e Rússia, a fim de confrontar as potências nucleares neocolonialistas como os Estados Unidos.
O artigo não foi levado a sério. No Governo brasileiro, aparentemente, não havia, e ainda não há uma única autoridade com visão estratégica para interpretar os vagidos de Trump como ameaças reais. O tarifaço, por exemplo, nos foi imposto de surpresa, como fato consumado. Não estávamos preparados para ele. Na área da Defesa a situação é muito mais grave porque não se trata de comércio, mas de sobrevivência do País como nação. Onde estão nossos estrategistas militares ou civis que parecem não terem visto a tempestade se armando no horizonte, e não tomaram nenhuma iniciativa política para evitá-la?
Como se viu na crise dos mísseis de 1963 entre a URSS e os EUA, a única forma de evitar a Terceira Guerra Mundial é o risco de que o mundo seja explodido num holocausto nuclear. A frota soviética já se mobilizava para o Atlântico, a fim de confrontar a americana, quando o presidente John Kennedy teve a prudência de aceitar um acordo secreto com os russos com o compromisso de que nenhum dos dois lados aparecesse como perdedor. O objetivo era salvar o mundo da guerra nuclear. Os detalhes são irrelevantes. O importante é que não houve guerra, e as frotas voltaram cada uma para seus locais de origem.
Se não houver uma potência nuclear que pare os americanos, Donald Trump se tornará uma espécie de imperador do mundo ocidental, a começar pela América Latina. Ele já avisou sobre suas pretensões na Colômbia, usando o mesmo pretexto da Venezuela. Não vai parar aí. Pode lançar suas garras inclusive sobre o Brasil, para se apropriar da maior fonte de recursos naturais do mundo, a Amazônia. Para quem mente de forma doentia como ele, não será difícil encontrar justificativas: inclusive proteger a maior floresta tropical do mundo.
Ou nossos supostos estrategistas se dão conta disso, e convençam Lula a ajudar a construir a OTASP – assim como ele ajudou a montar o bloco BRICS -, ou desistimos de nossa soberania, que se tornará apenas retórica diante do poderio norte-americano. O povo felizmente já começou a se mobilizar para forçar nossas autoridades a assumir seu dever de proteger o Brasil. Contudo, isso só se materializará com a criação da OTASP, que pode ter seu ponto crítico inicial de estímulo na própria Colômbia, o país sul americano que corre o maior risco de se tornar uma Venezuela.
Estou enviando este artigo a uma querida amiga colombiana, Adriana Cadena, dando-lhe notícia das grandes mobilizações que estão ocorrendo no Brasil contra o ataque à Venezuela. Estou sugerindo que, como candidata ao Senado, apoie fortemente o presidente Gustavo Pepe a se juntar a Lula, e aos outros poucos governos progressistas da América do Sul, para a criação da OTASP. Temos fundamento moral para isso justamente porque não somos potências nucleares. Mas fundamento moral só não basta para a defesa de nossa soberania. É preciso poder nuclear, fundado numa forte aliança política.
A China e a Rússia não se furtarão a fazer essa aliança. Elas já se manifestaram fortemente contra o arbítrio americano condenando o sequestro de Maduro e de sua esposa no Conselho de Segurança da ONU. No caso da Rússia, a invasão do território venezuelano representou um desafio direto a Moscou, pois os russos têm mísseis preparados para a guerra de defesa do país. Portanto, o que pode garantir a paz e a soberania nacional dos países da América do Sul é o confronto potencial entre a OTAN, controlada pelos Estados Unidos, e a OTASP, unificando países por enquanto soberanos.
O caminho seguido que Donald Trump reinaugurou no mundo, com suas políticas de um verdadeiro troglodita incontrolável, concentrado exclusivamente nos interesses norte-americanos, significa a retomada do nacionalismo – que, no Brasil, foi a pedra angular do desenvolvimentismo. Contudo, o nacionalismo dele é exclusivista, pois não aceita o dos outros. E na prática exerce o imperialismo, que consiste num recuo da história. Este é o preço que a Humanidade está pagando por décadas de globalização e livre comércio, favoráveis exclusivamente aos bilionários, dos quais ele se beneficiou pessoalmente construindo uma imensa fortuna.
Agora o primeiro passo que já anunciou é apropriar-se do petróleo venezuelano para as empresas dos Estados Unidos. Em seguida, virá a crescente ocupação de postos de poder eventualmente comprados em favor de venezuelanos corruptos que se venderam contra Maduro para favorecer o sequestro. Em seguida, será a tentativa de ocupação do poder em todas as suas instâncias – com grande risco para os vizinhos, e principalmente para o Brasil, e também para os próprios venezuelanos que se disponham a uma aventura de guerrilha nas selvas, como no Vietnã.
Na Colômbia, como Pepe ameaçou, não há dúvida de que uma invasão desencadearia uma guerra civil. No Brasil não se sabe, pois a classe dominante e as elites brasileiras estão quase totalmente vendidas ao poder norte-americano. Entretanto, não obstante a paralisia em Brasília, por enquanto concentrada apenas em corrupção, o povo se tem levantado em favor da soberania venezuelana e também da nossa, como demonstraram as manifestações populares de ontem em todo o País. Assim, pelo menos em termos de ações concretas, e não apenas da retórica do multilateralismo de Lula, a população poderá nos empurrar objetivamente para a criação e adesão a uma OTASP.
A revista “Mutirão Solar”, que lançamos recentemente, tenciona liderar, com o “Instituto Mutirão Solar”, uma grande campanha de massas para forçar o Governo Lula a se reunir a outros países progressistas do Sul, sob liderança chinesa e russa, para a criação da OTASP. Na era nuclear, a paridade nuclear impede a guerra, mas a única forma de evitar a guerra entre um país nuclearmente hegemônico contra outro, armado só de forma convencional, é compensar a fraqueza relativa deste último pela aliança dele com um país nuclearizado. É um imperativo fazermos isso.
Nesse sentido, a forma concreta como populações como a brasileira, a colombiana e de outros países do Sul tem para defender sua soberania é a aliança com as potências que podem confrontar os Estados Unidos. Contudo, diante da subordinação de nossas classes dominantes ao poderio norte-americano, só o povo efetivamente mobilizado em defesa da Nação e de sua soberania, ganhando as ruas, e usando todos os meios de informação e comunicação a seu dispor – principalmente os de informática –poderia forçar seus governos a estabelecer entre si um acordo eficaz do tipo da OTASP.
*J. Carlos de Assis é jornalista, economista, doutor em Engenharia de Produção, professor aposentado de Economia Política da UEPB, e atualmente economista chefe do Grupo Videirainvest-Agroviva e editor chefe do jornal online “Tribuna da Imprensa”, a ser relançado brevemente.
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