Resenha do Livro “A ORIGEM DO GAÚCHO” e Outros Ensaios

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Por PAULO TIMM*

Fernando Cacciatore, Ed. Buenas Ideias, POA, 2017.

Fernando Cacciatore é natural de Porto Alegre, onde nasceu em 1944, mudando-se para o Rio de Janeiro em 1953. Justamente quando eu, mesma idade, aqui estava chegando, daí não termos cruzado por alguns dos colégios da época. Formou-se em Sociologia, Política e Economia da PUC Rio e como Terceiro Secretário no Instituto Rio Branco. Outro desencontro comigo, vez que fui professor dessa Instituição em 1976 e 1977, quando ele já devia ter ultrapassado a formação. Como todo diplomata, andou pelo mundo, mas acabou vindo morar no Moinhos de Vento em 2007, daí publicando vários livros e o álbum “Memória da Tortura”, com dez gravuras, e “Arquitetura Neoclássica em Porto Alegre”, com fotos de Fernando Bueno e Dudu Contursi. Um intelectual, enfim, de peso, mas com alma gauchesca, algo pouco comum por aqui, onde predominam preconceitos “bovaristas”.

O livro compõe-se de um núcleo central, A ORIGEM DO GAÚCHO, e OUTROS ENSAIOS, todos referidos à nossa história, inclusive um interessante “Os Brasis de Borges”, no qual descobrimos a ancestralidade do Bruxo aqui nos pagos e suas impressões, nem sempre adequadas, sobre a o Brasil.

O texto sobre a origem do gaúcho é primoroso pela riqueza atualizada das fontes bibliográficas que tratam do tema, recomendando-se a todos os que pretendem conhecer as raízes da nossa formação. Ele traça o itinerário do gaúcho, desde seu aparecimento na banda oriental do Uruguai, no século XVII, como párias changueadores e bandoleiros que circulavam pelo pampa, até sua incorporação, em meados do século XX, como o gentílico do homem riograndense. Neste processo, o termo espanholado pelo ditongo “au”, atravessou o Rio Uruguai, chegando à Argentina e até Paraguai, e acabou corporificando dois tipos sociais: tanto o homem comum do campo como aqueles que se constituíram em milícias de caudilhos, como Rosas, que pontificou sobre os argentinos até 1852. Neste sentido, isso teria levado os historiadores da banda de lá do Rio Uruguai a considera-los seus “nativos”, e não no Rio Grande do Sul. Destaca, aliás, que Artigas, o Libertador do Uruguai, também teria conseguido incorporar essas verdadeiras hordas de homens livres em suas campanhas.

O autor não poupa letras, seja para reconhecer a natureza “bárbara” destes bandos que vagueavam por todo o espaço pampeano, como, também, para daí explicar as razões da boa sociedade urbana – e eu diria colonial – para sua estigmatização, culminando com a publicação de “Facundo – Civilização e Barbárie”, de Domingo Sarmiento, em 1845, no que acabou repercutindo na visão extremamente negativa sobre gaúchos e riograndenses, por parte da ilustração crítica do centro do Brasil. Lembra, também, o registro dos visitantes estrangeiros que por aqui andaram, de um e outro lado do Rio Uruguai, na primeira metade do século XIX, Luccock (1809/13), Nicolau Dreys (1817/39) Isabelle (1834) e Saint Hilaire (1820/1), equivocados quanto à origem do gaúcho, na Argentina e não no Rio Grande do Sul, mas assertivos na sua qualificação como hordas de cavalarianos indisciplinados. Não por acaso, o horror de paulistas e cariocas quando, em 1930, assistem os revolucionários de Vargas, amarrarem seus cavalos em monumentos que lhes eram caros…Já nesta época, porém, os “nossos” gaúchos transformados em peões de estância, algo já visível na Revolução Farroupilha segundo Dreys (citado): “ “Tal singular associação, cujos membros são designados no Sul por essa denomina – gaúchos – todavia … alguma coisa do signicado desfavorável que lhe era primitivamente inerente”. E conclui o autor: “ o gaúcho riograndense, num processo que vai inicialmente de 1801 a 1835, aclimatou-se aos modos militares e organizados das estâncias da capitania e Província de São Pedro, a ponto de a palavra que o designava estar já sofrendo uma alternação semântica para adquirir conotação mais positiva, seja como peão, seja como soldado” -pg.47 .

Essa ressignicação do gaúcho, segundo Cacciatore, apesar dos esforços literários anteriores, inclusive José de Alencar, com seu romance “O gaúcho”, ou dos conterrâneos Apolinário Porto Alegre (O Vaqueano) , Augusto Meyer, Caldre Fião e Simões Lopes Neto, teria tido em Osvaldo Aranha, ainda antes de 1930, seu ponto de apoio. Ele deu início à sua valorização pela coragem, espírito libertário e heroísmo, e que teriam, enfim, se consumado entre 1947 e 1949 com dois fatos importantes: A cavalgada de Paixão Cortes que fundaria o Movimento Tradicionalista Gaúcho e a publicação do primeiro volume de “O Continente”, por Erico Veríssimo, Ed. Globo, cujo personagem central, oriundo das Missões, “um certo capitão Rodrigo”, é descendente de índios. Descender de índios, desde então, “passou a ser digno”. O movimento tradicionalista, de outra parte, a partir daí se espalharia de forma impressionante, ultrapassando as fronteiras do Rio Grande, impulsionando outros movimentos como a “California da Canção”, a partir de 1971. Conclui o autor: “Seja como for, com Paixão Côrtes e Veríssimo, depois dos anos 50, todas as classes sociais, raças e etnias que compõem a população do Rio Grande do Sul , de italianos a alemães, de poloneses a árabes, passaram a denominar-se – peões, citadinos e campeiros – como gaúchos e cultivar seus usos e costumes antigos, atribuindo-lhes e a si, a franqueza e a honestidade, a defesa da liberdade, o heroísmo e o desprendimento”.

Duas ressalvas à obra: A afirmação de que não temos origem “pampeana” e o crédito à Princesa Leopoldina pelos esforços de construção da identidade nacional, à qual concede, inclusive, um ensaio. Pampeanos, enfim, somos todos, riograndenses do sul, uruguaios e argentinos, com uma pitada no Paraguai. E “identidade nacional” sob um regime sob o qual vicejou a escravidão negra, difícil aceitar.


*Paulo Timm é economista, funcionário aposentado do IPEA, poeta, romancista, professor universitário e editor da Rádio Resumo publicado em A FOLHA, Torres em 31 de janeiro de 2025

Foto de capa: Divulgação

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